Canções em defesa da mulher

Depoimentos de Lena D'Água, Aldina Duarte, Capicua, Sara Correia, André Henriques, Márcia e ainda Carminho.

Hoje, Dia Internacional da Mulher, fazemos um levantamento de músicas que defendem a dignidade e o orgulho da mulher, à semelhança do quinto episódio do nosso podcast Canta Liberdade.

Aretha Franklin faz parte do movimento cancioneiro feminista, ao transplantar a letra toda de Otis Redding, 'Respect', para a sua voz. Se Otis Redding só pedia respeito à mulher quando ele chegasse a casa, Aretha Franklin muda apenas o género e toda a perspetiva. É ela que pede respeito ao marido que chega a casa. 

O género subjugado cantou. Quando se toca a versão de 'Respect' de Aretha Franklin, o género feminino não se subjuga mais.

Quem também não tem feitio para se subjugar é Capicua. A rapper virou cantora na versão de Sérgio Godinho, ‘Que Força É Essa’. Mudou-lhe também o género e alguns versos. “Não são” das mulheres “as horas de ócio”, refila Capicua. 

Capicua mobilizou-se para esta versão no concerto a dois com Sérgio Godinho, “Conta-Me Uma Canção”, no Teatro Maria Matos, em Lisboa, em janeiro de 2024. “Isto está relacionado com o 25 de Abril que ainda não fizemos dentro de casa. Se muito fizemos nestas cinco décadas pela igualdade entre homens e mulheres na lei, o país tornou-se muito diferente e o desenvolvimento foi enorme, mas ainda há muito por fazer dentro de casa, na divisão das tarefas domésticas e valorização do cuidados das mulheres com os mais velhos e os mais novos” . 

Capicua

Capicua fez uma operação de mudança de sexo mais extensiva que a de Aretha Franklin no clássico ‘Respect’. “A letra também muda, não é só a pessoa que a canta. Não mudei totalmente [a música], porque o refrão mantém-se totalmente intacto. A estrutura da canção é muito semelhante. Mas a letra foi transformada. Aqui muda-se também o conteúdo, mantendo-se o mesmo exercício e o objetivo, que é denunciar a exploração do trabalho daqueles que são mais desvalorizados e semear o inconformismo no coração dessas pessoas”.

Capicua

A “amiga” da versão feminina de ‘Que Força É Essa’, que está sempre ao serviço do outro, bem que poderia ‘Essa Mulher’, o nome tema gravado por Elis Regina em 1979. Também não cabe a ‘Essa Mulher’ as horas de ócio.  


Dez anos depois, em 1989, a cantora portuguesa Lena D’Água interpretou a música ‘Essa Mulher', acompanhada ao piano por Mário Laginha. Lena D’Água revê as mulheres neste relato insatisfeito de um quotidiano melancólico. Para a cantora, a música “fala da mulher que está em casa e que faz tudo pelo seu marido, que fica sozinha e que vira a mesa e que seca o bar. Aquela letra passa pelos vários papéis da mulher, desde a submissa que está muito contente com o seu homem mas profundamente infeliz e depois vira para a outra, que já não se sente satisfeita naquela vida de submissão e de segundo plano. Essa letra é incrível” e é da autoria de Ana Terra, que escreveu várias canções que seriam cantadas não só por Elis Regina, mas também Maria Bethânia.

Lena D'Água

Voltando a Capicua, a artista portuense já tinha pegado noutra semente de Sérgio Godinho, mas de forma ainda mais encorpada. Falo de 'Parto Sem Dor', que... parte de uma espécie de lenga-lenga de Sérgio Godinho, que Capicua desenvolve para uma canção sua.

Esta tema sobre a maternidade foi publicada no terceiro álbum de Capicua, “Madrepérola”. “Essa canção fala do processo de gestar e de parir. De como isso é uma forma de renascimento existencial e identitário nosso de uma forma muito íntima. Quando estamos grávidas, há uma espécie de luto e de despedida do que fomos e de um renascimento para uma vida diferente e nova. Tive muita vontade de fazer essa música, não só porque ouvia muito essa música do Sérgio Godinho que eu conhecia desde criança e me soou totalmente diferente, nesse lugar do luto e do renascimento. E agora eu vou-me embora / e embora a dor / não queira ir já embora / agora eu vou-me embora e parto sem dor”, enquadra Capicua.

Capicua


A música ‘Parto Sem Dor’ seria usada para o movimento contra a violência obstétrica nas maternidades em Portugal. Capicua foi uma das ativistas deste movimento.

Se Aretha Franklin e Capicua mudaram os ângulos do masculino para o feminino nas suas versões, a fadista Carminho fez a operação inversa, do feminino para o masculino. A personagem do velho fado ‘Pedra Solta’ deixa de ser a mulher frágil que encanta o poeta. Carminho transforma essa personagem frágil... num homem. 

A letra é do fadista António Campos, que tem sido uma das fontes para Carminho. Para esta mudança de género, a cantora teve a devida autorização. Em 2023, Carminho falou-me deste fado. “Há qualquer coisa de muito tradicional naquele poema: "a fonte", "corar", a menina que está indefesa, com esta temática de uma outra época, de uma relação homem-mulher, em que o homem tem que proteger porque ela, coitadinha, fica "coradinha". Cuidado, olha "os rouxinóis", essa coisa da paternalização da mulher. Eu tenho os meus ideais, mas acho que devo fazê-lo através da música. "Não vás à fonte sozinho, que os rouxinóis do Mondego, ao ver-te tão coradinho, ficam em desassossego".  É um toque de humor e uma relação com a história do fado de um certo machismo que perdurou e que está a mudar”.

Carminho

Esta gravação faz parte do álbum de 2023 de Carminho, “Portuguesa”.

Mais do que se pensa, o fado foi sempre sendo pontuado pela subversão feminina, como o caso do tema ‘Ovelha Negra’ de Beatriz da Conceição, gravado no ousado EP para a época, “Recado a Lisboa”. ‘Ovelha Negra’ é gravado em 1969, quando o ditador Marcello Caetano era o primeiro-ministro e se vivia no Antigo Regime, à sombra do progresso cultural lá fora. .


A fadista Aldina Duarte foi sempre muito próxima de Beatriz da Conceição e conhece bem a sua história. “No fado, há um outro letrista que eram contra o Estado Novo, como é o caso do João Dias, que escreveu a ‘Ovelha Negra’ em 1969, que foi gravado por Beatriz da Conceição, com versos como ‘chamaram-me ovelha negra por não aceitar a regra de ser coisa em vez de ser’. Fazer três versos destes naquela altura era muito forte”. 

Aldna Duarte

Cabe muitas vezes à mulher o fado e o fardo de ser ovelha negra, em muitos sentidos, incluindo a pressão de se parecer nova. Essa pressão de juventude está bem retratada no filme de 1950 “All About Eve”, em que Bette Davis protagoniza uma atriz em curva descendente, não por causa do seu talento mas por causa da sua idade. “A carreira de uma mulher é um negócio engraçado… As coisas que deixamos para trás só para avançarmos mais depressa. Esquecemo-nos que iremos precisar delas quando voltamos a ser mulheres outra vez”. 

Há uma tirania dentro de casa que a mulher tem que enfrentar, muitas vezes ao nível do mais grotesco. Fiona Apple tem como uma das suas músicas mais fortes, 'Newspaper', sobre o homem na sua posição dominante de abusador, fragilizando e manipulando as vítimas femininas. Ao seu estilo, Fiona Apple deita tudo cá para fora, num fôlego áspero alimentado pela raiva e indignação. Se a cantora tem que ser pouco ortodoxa, é porque a realidade também o é. 

Houve homens que também souberam cantar sobre violência doméstica. Se Morrissey não viu, pelo menos retratou de forma crua e direta o terror entre quatro paredes que se passa em muitos lares no tema dos Smiths, 'Sweet And Tender Hooligan': o vizinho simpático e também um marido monstruoso. Morrissey consegue conciliar sarcasmo e ironia numa das suas críticas sociais mais ferozes e certeiras dos seus tempos áureos dos Smiths. A vítima é ela, uma e mais outra vez.

Costuma-se dizer que entre marido e mulher não se mete a colher. Mas o vocalista dos Linda Martini, André Henriques, meteu a sua colherada. Por trás dos óculos escuros de uma mulher, visualizou o que se passa entre aquelas quatro paredes. 

‘Maria Odete’ é o nome da música e faz parte do primeiro álbum em nome próprio de André Henriques, “Cajarana”. “Estava a cantar uns la la las por cima, à espera que alguma coisa me chamasse para a canção, para eu perceber sobre o que é que ela falava. E de repente saiu-me essa frase: ‘a Maria Odete saiu à rua de óculos de sol num dia de chuva’. Gravei logo aquilo, não percebi exatamente porque é que aquilo me tinha aparecido na cabeça. Enfim, mais do que ser a intervenção divina, lembrei-me um bocadinho mais tarde que eu tinha tocado há pouco tempo no Teatro Circo em Braga, que é uma das salas mais bonitas do nosso país, e tinha aparecido nas notícias uma história amplamente divulgada de uma colaboradora que tinha sido assassinada pelo ex-companheiro ou ex-marido, por um crime que ainda se continua a chamar passional. Essa história continua a ser a história de muitas outras mulheres. Aquilo na altura chamou-me particularmente a atenção para já, porque é um sítio onde eu já estive várias vezes, não só a solo, como com os Linda Martini. É uma casa que eu conheço, pessoas com que eu conheço, mas não conhecia a pessoa em causa. Mas quando tu ouves uma estatística de que não sei quantas mulheres foram assassinadas por ano em Portugal, os números e as estatísticas com que somos tantas vezes bombardeados que às vezes ficamos insensíveis. Mas quando tu percebes que aquilo acontece ao teu lado, que são pessoas com quem te cruzes na rua, que são familiares teus, é uma coisa que está mesmo mesmo ao nosso lado. E aí, de repente, fez com que esses versos aparecessem na minha cabeça”, explica André Henriques.

André Henriques

Segundo o Portal da Violência Doméstica, das 22 vítimas mortais no país em 2029, 19 eram mulheres. As Nações Unidas reportam que quase cinquenta mil mulheres de todo o mundo morreram em 2022, vítimas de violência doméstica.  

Zeca Afonso lembrou-se de uma vítima fora de paredes, a mártir Catarina Eufémia, baleada no Alentejo em 1954, por um tenente da GNR, durante uma contestação de ceifeiras por melhores condições de vida. O drama do seu assassinato com um bebé ao colo mancha de sangue a letra de José Afonso, no tema ‘Cantar Alentejano', publicado em 1971, ainda durante o Antigo Regime.

Zeca guardou esta música durante sete anos. Quando chegou o momento, gravou-a às escuras, num só take. A mulher mártir é consagrada em heroína por José Afonso, que lhe presta uma homenagem mais forte que qualquer estátua. Zeca não fecha a canção no luto e abre-a para a luta. O Alentejo não se vergará. 

Os anos 60 foram um acelerador de mudanças também para a autonomia da mulher. Aos 17 anos, a cantora norte-americana Leslie Gore deu voz a um hino pop pela independência feminina, ‘You Don't Own Me’. A canção de 1963 simbolizava a mudança dos tempos. A mulher não pode ser uma propriedade, é um ser com vida própria.

Estava em curso no cinema a Nouvelle Vague em Paris, um dos epicentros mundiais da afirmação feminina. A atriz francesa Anna Karina foi um dos rostos fortes que encarnou a mulher independente. É o que acontece no filme de Jean-Luc Goddard, “Vivre Sa Vie”, em português “Viver a Sua Vida”. A personagem interpretada por Anna Karina reflete sobre a sua liberdade: se é infeliz, se fuma, se fecha os olhos, ela e só ela é responsável pelos seus atos.

A fadista Aldina Duarte lamenta a afirmação retardada da mulher na sociedade só no século XX: “as mulheres são um problema muito disparatado, porque nós só tivemos voz, só nos tornámos visíveis no século XX, na realidade. Num século recuperámos 19 séculos de sombra. Esconderam-nos durante 19 séculos. Nós num século recuperámos não sei quantos. E isto é assustador. Olha se estas mulheres tivessem tido o mesmo poder dos homens desde o início do mundo”.

Aldna Duarte

Tal como Leslie Gore, Gloria Gaynor encorpou esse progresso feminino no seu êxito de 1974, ‘I Will Survive’. Perante o fim de uma relação, o drama é efémero. A mulher fará o seu rumo livre do ex-companheiro, em direção e à felicidade à glória, a sua. 

‘I Will Survive’ tornou-se um hino feminista do disco-sound ao longo dos anos 70.

Foi também nos anos 70 que Loretta Lynn teve qualquer coisa de Beatriz da Conceição, enfrentando o mundo conservador do country ao celebrar a pílula e o fim da prisão da maternidade no tema ‘The Pill’. A música foi gravada em 1972 mas foi rejeitada pela editora e só foi publicada três anos depois, em 1975. 

Esta música foi boicotada das rádios nos Estados Unidos e dividiu algum do seu público. Mas a mensagem impôs-se e a pílula também.

Foi em 2012 que a rapper Capicua se apresentou ao mundo, como 'Maria Capaz', uma mulher brava e refilona num meio hip hop masculinizado. Quem rappa assim, não derrapa. 

Para Capicua, Maria Capaz “é o que chamamos no rap de ego trip, que é um formato clássico do rap mais competitivo, só que serviu para ressignificar a sigla de MC, mestre de cerimónias, para uma coisa mais feminista, enquanto Maria Capaz, precisamente para dizer que uma mulher para fazer rap não precisa de se masculinizar, precisa de se autoafirmar. Foi uma espécie de statement, foi o primeiro single do meu primeiro disco. Nesse aspeto, tinha de dizer que eu não preciso de me transformar em outra coisa para fazer rap sendo mulher. Só preciso de ter a coragem de me afirmar por aquilo que sou. E também afirmar aquilo que era uma atitude de quase desafio ao status quo do rap instalado, de dizer, ‘não, eu estou aqui também e não vou pedir licença a ninguém para existir’”.

Capicua

Na mesma guerrilha cor-de-rosa já andava há muito tempo a rocker brasileira Rita Lee, a elevar a condição da mulher, se possível em ‘Cor de Rosa Choque’, o nome desta canção de 1982.

Esta música já fazia parte da fase em que Rita Lee tinha a seu lado o seu grande companheiro de vida Roberto Carvalho, co-autor de desta música.

Rita Lee fez da luta feminista a sua vida e em 1993 faz uma canção como esta, ‘Todas as Mulheres do Mundo’.

Rita Lee cita no refrão a atriz brasileira Leila Diniz, que causou controvérsia nos anos 60 por ter falado abertamente dos seus prazeres carnais.

De uma forma muito lúdica e alegre, Cyndi Lauper reclama o direito das mulheres ao divertimento e até mesmo à inocência no single de 1983, ‘Girls Just Want To Have Fun’.

A canção tornou-se um hino feminista que coloriu o imaginário dos anos 80. De uma forma alegre, Cyndi Lauper lembrou-se de sugerir os mesmos direitos entre mulheres e homens. Para a fadista Aldina Duarte, essa luta feminista tem que continuar: “as questões de transgénero e homofóbicas, que são horríveis, obviamente, é que são minorias. Mas as mulheres não, são a maioria e continuam a ter o mesmo tipo de discriminação ainda e absurdas. Portanto, a questão das mulheres eu acho que é muito antiga, está muito enraizada até nas próprias mulheres, mas ninguém me ouvirá contra uma mulher enquanto não tivermos nem que seja paridade e igualdade nas mesmas funções, os mesmos ordenados e criminalização decente na violência doméstica”.

Aldna Duarte

Se houve um homem que soube cantar sobre a mulher de forma nobre, esse homem tem sido Sérgio Godinho, que a engrandece no seu ciclo maternal na canção de 1981, ‘Espalhem a Notícia’. “Eu fui ao fim do mundo / Vou ao fundo de mim / Vou ao fundo do mar / Vou ao fundo do mar / No corpo de uma mulher”.

Também por mares amnióticos navega a fadista Sara Correia, na canção de 2023, ‘Madrugou’, onde o renascimento da mulher pode ser só um outro caminho que escolheu para si. ‘Madrugou’ é, para Sara Correia, uma ode à mulher como uma força da natureza. “A mulher é a grande força da humanidade, na minha perspectiva. Nós conseguimos sentir dores horríveis, conseguimos ultrapassar coisas que eu acho que os homens não conseguem. Acho que tem a ver com a ADN. Somos muito mais fortes e sinto sempre que a mulher luta mais e que tem que lutar sempre mais para mostrar o que vale. E se eu puder cantar o resto da minha vida a mulher, eu vou cantar o resto da vida. E acho que toda a gente o deveria fazer. É maravilhoso. E o Madrugou é exatamente isso. É a força de uma mulher que ama”.

Sara Correia

A letra de 'Madrugou' é de Mila Dores, que também assina a composição.