Cante alentejano renovou-se em dez anos de UNESCO e "está a ser apropriado por pessoas que gostam dele"

O coordenador do Museu do Cante Alentejano, João Matias, destaca uma arte em processo de rejuvenescimento e que se abriu ao mundo sem abdicar de ter a voz "no centro das atenções".

27 de novembro de 2014. A UNESCO anunciava que o cante alentejano passava a fazer parte da lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade. Volvidos dez anos, o retrato do cante é de uma arte musical em renovação, mas que também conheceu muita gente nova - não só em idade - e até uma pandemia pelo caminho.

O cante ganhou "grande notoriedade" e, com ela, desencadeou-se "uma série de transformações". Quem o explica é João Matias, o coordenador do Museu do Cante Alentejano, em Serpa: primeiro chegaram ao cante "os órgãos de informação", que o colocaram "com muito mais frequência nas televisões, rádios e jornais".

O efeito da UNESCO no cante

"Atrás disso veio o público", que "de repente despertou" e apareceu para "ouvir, interessar-se" pelas modas alentejanas. "Vieram depois as empresas de animação turística, ou agências de viagens, procurando no cante também um produto turístico", e ainda vieram "os artistas de outros géneros musicais, que começaram a procurar o canto alentejano para fazer espetáculos de diversa natureza, uns espetáculos de fusão, outros de colaboração, enfim, um sem número de possibilidades" e, com estes, os "empresários do espetáculo".

Aliado a tudo isto chegou ao cante algo que o ajuda a garantir um futuro: os jovens, que "estão a retornar" a uma arte que "era coisa de velhos" - João Matias afirma-o sem reservas - e que de repente de "revalorizou".

Jovens estão a "retornar"

E se o Alentejo está a perder população, o cante também se rebela contra esses movimentos, mantendo-se "maioritariamente interpretado na zona" e "muito vivo", mesmo com grupos corais com "menos pessoas". Com novos cantadores, "novos ouvintes", e até forasteiros. "Há grupos corais na zona do Porto, Braga, ou no estrangeiro, e que são constituídos por pessoas que não têm qualquer ligação ao Alentejo, nem familiares, nem antepassados."

Está, resume João Matias, a ser "apropriado por outras pessoas que gostam dele e está a não ser já só uma prática cultural identitária" - embora se mantenha "fortíssimo" no Alentejo -, mas também a "abrir-se ao mundo".

A capital de França, Paris, é exemplo dessa abertura. Foi lá que nasceu o Rancho de Cantadores de Paris, um grupo coral que na época da formação tinha um único português e que, mesmo já tendo tido mais, se destaca por ter também franceses, italianos, marroquinos, alemães e pelo menos uma russa.

O grupo chegou a visitar Serpa, cantou com outros grupos corais "e até gravou um CD muito interessante".

"Era muito engraçado e é muito interessante ver o cante cantado por todos esses sotaques, por todas essas pessoas. Algumas delas provavelmente repetem as palavras, mas nem sabem bem o que é que elas significam", realça.

Feito de pessoas

O cante é uma atividade humana e, como tal, está também sujeito às vontades desses mesmos humanos.

"As pessoas não estão sempre no mesmo lugar, elas vão indo para aqui ou vão indo para ali, é conforme", e nesses vaivéns há também discussões que vão e vêm.

Uma das mais atuais, conta João Matias, "é a utilização ou não de instrumentos" para acompanhar o cante, um debate que, diz, mostra que o cante "está muito vivo, tem muita pujança, está muito forte, porque diz muito respeito às pessoas e elas sentem-no".

"Há grupos corais que são mais tradicionalistas e não gostam de embarcar em coisas novas, há outros que gostam", e é nesse eixo que se nota "alguma mudança", embora sem certezas quanto ao futuro.

"Para onde? Não sabemos para onde vai. Se é bom ou se é mau também não sabemos", mas, nota o responsável pelo museu do cante, "as pessoas que estão mais bem colocadas para avaliar tudo isto são os próprios cantadores, as próprias comunidades às quais os cantadores pertencem. O cante é de quem o interpreta e quem o interpreta, ouve e vive é que sabe os caminhos para onde isto há de ir".

Posto isto, o que o cante é e o que não é torna-se difícil de definir. João Matias nota que, ainda assim, o que está inscrito na UNESCO continua a ser um bom ponto de partida.

O que é o cante alentejano?

"É um canto a vozes, sem instrumentos, interpretado por 20 pessoas, os [grupos] femininos têm um bocadinho menos, os masculinos um bocadinho mais, aqui na zona do Baixo Alentejo e subindo um bocadinho no distrito de Évora também. Na zona de Lisboa também há outra vez muitos grupos, constituídos maioritariamente por alentejanos." E depois começam as nuances.

Por ser um canto "polifónico, cantado a vozes diferentes ao mesmo tempo", tem no coletivo "uma grande força" e que é também "integradora, que congrega e que faz com que as pessoas colaborem. É por isso que se costuma dizer que um alentejano nunca canta sozinho, e se é só com dois perde-se muito a dimensão do coletivo e polifonia".

Depois coloca-se a tal questão dos instrumentos. O Alentejo tem a viola campaniça, "que acompanha e sempre acompanhou bailes" no mesmo contexto do cante.

"Até os poemas são os mesmos, as modas são as mesmas, mas interpretadas à viola ou até com outros instrumentos. Tudo isso faz parte do mesmo caldo cultural", explica, "mas o que prevalece no cante é a voz".

E é com a voz "no centro das atenções" que o cante está a ver "ramificações" sem saber "se dura ou se volta para trás". Certo é que a voz se mantém, e há dez anos foi amplificada.