Capicua dá visão feminina a clássico de Sérgio Godinho

"Que força é essa, amiga?", transforma a artista portuense. Publicação da versão assinala o Dia Internacional da Mulher.

Capicua publica hoje a sua versão "amulherada" da canção ‘Que Força É Essa?’ de Sérgio Godinho, em evocação ao Dia Internacional da Mulher, que se assinala hoje. Pegando no testemunho de Godinho, a letra está alterada por Capicua, que pergunta: "Que força é essa que te faz levar todo o mundo na barriga?".

Que força foi essa que terá arranjado Capicua para a sua versão de canção ‘Que Força É Essa?’, na adaptação à concordância com o género feminino e à discordância com o papel ingrato da mulher nesta sociedade ainda cristalizada na desigualdade. “Foi um atrevimento, mais do que uma força. A história vem do [evento de parcerias] Conta-me uma Canção, o concerto que fizemos no Maria Matos, ao cantar temas em conjunto, músicas próprias e um tema um do outro. E eu tinha que fazer uma versão de uma canção do Sérgio, essa é a minha canção favorita do meu disco favorito do Sérgio [“Sobreviventes”, de 1972], é a primeira [faixa] de todas ainda por cima. Pensei que como não sou propriamente uma intérprete, que faço versões de canções alheias - até porque havia muito mais quem cantasse bem a canção e muito melhor do que eu - senti que podia fazer a minha versão pela escrita ou pela reescrita. Para mim, quando não sou eu a escrever, perde um bocado de sentido o exercício”. 

O tema ‘Que Força É Essa’ de Sérgio Godinho integra o álbum de estreia do referencial cantautor, “Sobreviventes”, cuja venda chegou a ser temporariamente proibida pelo Antigo Regime. A canção denota uma sensibilidade laboral de Sérgio Godinho, com a sua observação acutilante: “Que força é essa que trazes nos braços, que só te serve para obedecer?”; “Que força é essa, amigo, que te põe de bem com outros e de mal contigo?”. Admirador há muito do trabalho de Capicua, Sérgio Godinho aprovou – e elogiou – esta versão. “Tive o atrevimento de perguntar ao Sérgio se podia reescrever a canção, mas no feminino. Ou seja, a canção original ‘Que Força É Essa’, como as pessoas devem saber, é uma canção que fala para os trabalhadores na tentativa de denunciar a exploração - um trabalho a baixo custo - e semear o inconformismo no coração desses trabalhadores. Uma canção de 1971 que tem esse dom de equilibrar muito bem aquilo que é a denúncia e a dimensão política da canção e um lado poético muito bem conseguido da letra”

Capicua reescreve: “O teu peito, o teu colo é consolo / A despeito do teu próprio choro”. Segundo afirma a artista portuense, “eu quis pôr o foco na exploração do trabalho doméstico e reprodutivo das mulheres, que habitualmente têm garantido ao longo dos séculos a chamada economia do cuidado, sem nenhuma remuneração ou com pouca remuneração, e às custas de muito esforço, muita exaustão e com uma conciliação difícil entre as carreiras, que hoje quase todas as mulheres têm na vida profissional, acumulando com as horas de trabalho em casa que é muito injustamente partilhado, de forma muito desigual com os nossos pares. E isso também tem consequências para as nossas carreiras, para a progressão das carreiras, para a manutenção do défice salarial como o que temos no país”, com salários desiguais entre homens e mulheres. 

Há um contexto e uma preocupação persistente nesta versão de ‘Que Força É Essa’: “Isto tudo está relacionado com o 25 de Abril que ainda não fizemos dentro de casa, porque nas últimas cinco décadas muito fizemos pela igualdade entre homens e mulheres na lei. E muitas evoluções fizemos, obviamente, porque o país é muito diferente. E o desenvolvimento foi enorme. Mas ainda há muito a fazer dentro de casa, na divisão do que são as tarefas domésticas, daquilo que é a valorização do trabalho que as mulheres têm no cuidado aos mais novos e aos mais velhos também”. 

Entrevista a Capicua

Capicua mostra a sua aversão a este de estado das coisas quando reescreve: "Vi-te a trabalhar a noite inteira/Não são tuas as horas de ócio/Todos mamam, não há quem não queira/Que o cuidado não pago é negócio/E no parto ou no quarto o teu corpo/Esteve sempre ao serviço do outro”. “Toda essa carga é posta nas costas largas do amor incondicional, do instinto materno, da nossa capacidade de multitasking, mas que custa o nosso sangue todos os dias e que nos põe em desigualdade de circunstâncias na competição com os nossos pais na vida profissional, porque vimos sempre com essa mochila pesada às costas”. Na opinião de Capicua, a nova versão “tem tudo a ver com a letra original do Sérgio. Esse equilíbrio entre denunciar a exploração do trabalho desvalorizado, semear o inconformismo no coração dessas pessoas exploradas, mas, neste caso, perguntando ‘que força é essa, amiga’”

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Aretha Franklin, só por cantar 'Respect', altera o sentido da letra, que era cantada por um homem como Otis Redding. Só por o cantar, Aretha Franklin tornou-o um hino feminista. A mudança de género em ‘Que Força É Essa’ operada por Capicua é diferente. “É engraçada, essa transformação. No fundo, é um exercício. Neste caso, a letra também muda, não é só a pessoa que a canta. Não mudei totalmente a letra, porque o refrão quase que se mantém intacto. A estrutura da canção é muito semelhante. Mas a letra foi transformada, ao contrário do ‘Respect’. Aí é a ironia de mudar o intérprete e a canção ganhar um sentido totalmente diferente. Aqui é um bocadinho diferente: muda-se também o conteúdo, mantendo o exercício e o objetivo [da canção], que é denunciar a exploração do trabalho daqueles que são mais desvalorizados e, como eu disse, semearem o feminismo no coração dessas pessoas, falando para as mulheres”.

Outro dos impactos desta versão é ouvirmos Capicua a cantar: “Eu nunca me sinto muito confortável a cantar, devo dizer, porque eu sou rapper, sou muito feliz a fazer spoken word também, que é uma coisa que gosto de fazer. Às vezes, vou cantarolando, já aconteceu nos meus discos”, como no ‘Parto Sem Dor’, em nova descolagem de Capicua com base no reportório do Sérgio Godinho, mas para um original seu em que o título homónimo é só um empurrão. Capicua trocou a sua função de rapper com a de cantora em ‘Que Força É Essa’ “porque a canção pedia que o fizesse, porque tinha que manter a melodia original e gosto também de sentir que há uma dimensão desse desconforto que é bonita. É uma certa fragilidade, uma certa exposição, que também me torna um bocadinho mais vulnerável e isso também acrescenta emoção à interpretação. Espero que as pessoas gostem”

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A versão de ‘Que Força É Essa’ é um rastilho para Capicua entrar num novo ciclo criativo. Estou a começar a compor. O período sabático foi o ano anterior. E mesmo assim, foi um ano em que tive o grande prazer de escrever o disco novo da Aldina Duarte [“Metade Metade”], que sai neste mês. E portanto, não foi um pousio total em termos de composição. Também fiz outras coisas para outras pessoas, pontualmente, em termos de letras. E vou fazendo cada vez mais”

A experiência na versão de Sérgio Godinho foi importante “na minha reconciliação com a minha própria vontade de compor depois daqueles anos difíceis da pandemia, depois dos primeiros anos da maternidade também, que me roubaram bastante ócio criativo e disponibilidade emocional para a música. E, portanto, agora estou com vontade de recomeçar a fazer música. Ainda não sei para quando, nem que disco é que vai sair”, se um álbum, ou um EP. “Tenho vontade de recomeçar com um espírito quase amador de curtir o processo mais do que ter uma meta definida, porque depois também sou muito autodesciplinada. Quando me imponho uma meta, acho que fico muito focada”.