Capicua e a Mão Verde: "fazemos música para crianças que não seja pateta ou simplista"

"Mão Verde III" é o novo disco-livro do projeto, cravado na liberdade e em muitas causas.

Cresce o arvoredo na Mão Verde com mais um tronco na grafia do título. O projeto semeado por Capicua e Pedro Geraldes já vai em “Mão Verde III”, o novo disco-livro, ainda mais colorido de cravos de Abril e com mais causas que só a ecologia, a mãe-natureza do projeto.

Florescem as causas neste quarteto musical (Capicua, Francisca Cortesão, António Serginho e Pedro Geraldes), como enquadra a mensageira Capicua, em entrevista à nossa rádio: “é o terceiro disco. Não é que as temáticas ecologistas se tenham esgotado de maneira nenhuma, porque temos algumas neste disco novo. Alargarmos o âmbito temático do projeto. Neste disco-livro, a particularidade é que temos muito mais temas sobre desigualdades, a democracia, a liberdade, a crise da habitação, o direito à cidade. São temas mais sociais e políticos, mais de cidadania, e não tanto temas ligados exclusivamente à ecologia e à natureza. Claro que essa vai ser sempre a nossa marca d'água e isso está muito presente. Mas, de facto, dos três discos da Mão Verde, este é aquele que mais se dedica às temáticas sociais. Não nos queríamos repetir, queremos inovar, porque achamos que os tempos estão complexos e que é importante trazer esses debates para se terem na família e no contexto escolar, falando sobre diversidade, a ideia de que as nossas sociedades ganham com essa diversidade, quer do ponto de vista social, quer do ponto de vista das capacidades, da idade, um bocadinho também contra os preconceitos, o atavismo, etc. Do ponto de vista da democracia, a importância do 25 de Abril na nossa história, aquilo que é participação cívica de cada um também no quotidiano: por exemplo, na defesa do direito à cidade, quer como espaço mais verde para as crianças, quer numa coisa tão simples como a defesa dos jacarandás de Lisboa contra um autarca que quer cortá-los pela raiz. Tantas coisas que têm diretamente a ver com a atualidade, mas de uma forma lúdica, poética, às vezes irónica, às vezes mais lírica, mas sempre nessa ótica de que gostamos de fazer música para crianças, que não seja pateta, que não seja simplista, quer do ponto de vista musical, quer do ponto de vista do conteúdo e, portanto, queremos criar perguntas interessantes por parte dos mais pequeninos, que façam com que a família toda converse à mesa ou no carro quando ouve as canções, e também que as comunidades escolares, que tanto têm abraçado o nosso projeto desde o primeiro disco, possam ter conteúdos novos para trabalhar em salas de aula. Tal como fizeram a horta da escola inspirados no nosso primeiro disco, ou o projeto de reciclagem a partir de uma canção no nosso segundo [disco], agora possam também ter novos temas para as aulas de cidadania, de história, ou de outras disciplinas. Isso tem sido muito bonito de ver ao longo desta década de Mão Verde que já temos, e, portanto, neste disco aqui quisemos alargar mais as possibilidades de trazer boas conversas”. 

Capicua

A ecologia já não é só uma preocupação futura, toma conta hoje da essência dos nossos problemas atuais. “É cada vez mais incontornável falar sobre ecologia e sobre a nossa participação enquanto agentes de mudança. Em 2015, quando começou a Mão Verde, não é que não estivesse na ordem do dia, mas apesar de tudo, havia uma ideia de que as alterações climáticas eram uma coisa que ainda estava para chegar. Agora nós sabemos que já chegaram. E todos os invernos e verões temos tido provas disso e dos impactos económicos. Infelizmente, recentemente em Leiria e arredores, percebemos que os impactos podem ser devastadores. Portanto, há um conjunto de conversas que já estão na ordem do dia, nomeadamente sobre a adaptação às novas realidades climáticas, a prevenção, levantada com a crise da guerra no Irão, sobre a questão da energia, a importância de se diversificar as fontes de energia e de ter soberania energética e, nomeadamente, energia verde. Eu acho que esses temas foram sempre muito centrais nas épocas da Mão Verde e se foram tornando cada vez mais centrais na nossa atualidade, claro que debatidos do ponto de vista dos adultos e da informação e da ciência. A Mão Verde sempre teve essa vontade de fazer isso, não só para o público mais pequenino, por via do encantamento que eles têm com as coisas da natureza, de haver um feijãozinho a crescer em algodão molhado ou de haver uma minhoca a trabalhar a terra, para depois, sim, se partir para esses temas mais complexos e também para falar com os adultos, porque sentíamos que havia [neles] uma certa resistência. Em 2015, quando este projeto começou, sentíamos que os adultos achavam que o discurso ambientalista era moralista, ou exagerado, ou catastrofista, ou demasiado encriptado num vocabulário científico. E nós percebemos que as pessoas, os pais e os professores também aderiram muito ao nosso projeto, porque perceberam que nós estamos a falar desses temas de uma forma lúdica, poética, engraçada e, de repente, perderam a resistência. Pelo menos, quando vinham aos nossos concertos, percebia-se que sabiam as letras, que dançavam e que aderiam. Não tinham essa resistência em relação à nossa proposta que tinham em relação a esses outros veículos de comunicação sobre ecologia e sobre ciência. E, portanto, nessa altura era muito óbvio. Neste momento acho que as pessoas já perceberam que não vale a pena resistir, porque o tema está na ordem do dia e, portanto, acho que isso já não se coloca”. 

O alvo das canções e letras da Mão Verde não é só o público infantil, abrange o mundo adulto dos pais, avós e professores. As músicas alastram-se à comunidade. “Como percebemos que é um projeto intergeracional, porque os pais são as principais vítimas da música para crianças, têm que andar a ouvir os discos em repetição, e têm que levar as crianças aos concertos quando elas gostam. E depois também as comunidades escolares, que são compostas por professores e por crianças de várias idades. E, portanto, acreditamos mesmo nesse efeito, porque vimo-lo ao longo destes últimos dez anos em imensos trabalhos que nos foram enviando de escolas. E também muitos concertos participados por pessoas de muitas gerações. Vêm os avós, vêm os pais, vêm os irmãos adolescentes e estão todos ali com as crianças a curtir E, portanto, percebemos que, obviamente, o nosso primeiro público-alvo são as crianças. Mas para o disco chegar às crianças, houve um adulto que o comprou, ou que foi às plataformas digitais para pôr o disco a tocar. Foi o avô que comprou o disco-livro à livraria. Foi o adulto, o padrinho, a madrinha, o tio que foi comprar bilhete para o concerto. E, portanto, há um apelo intergeracional neste projeto que nos interessa também porque precisamente achamos que quando a criança não sabe o que significa uma palavra, ou não percebe bem uma frase, vai perguntar ao adulto e aí é que nascem as conversas engraçadas e interessantes que que acontecem no espaço da família. E quando uma pessoa se propõe a fazer um trabalho ou um espetáculo final de ano a partir de uma canção ou de várias da Mão Verde, também é toda uma comunidade que se envolve no debate e na construção a partir daquela proposta artística. Portanto, acho que o apelo da Mão Verde é muito mais intergeracional do que possa parecer a um primeiro momento”, afirma Capicua. 

Capicua

Em “Mão Verde III”, que conta com ilustrações de Bernardo Carvalho, não há uma música que seja mais socialmente interventiva do que outras. “Não dá para escolher só um tema”, reconhece Capicua. “Temos uma música que se chama ‘Noventeinovetopeia’, que fala sobre capacitismo, gordofobia, etarismo e sobre preconceito em relação à diferença. Temos uma canção que se chama ‘De Vitória em Vitória’, que fala sobre igualdade de género ou, melhor, desigualdades de género. Temos uma canção que fala sobre a história do 25 de Abril, que se chama ‘Vira do Reviralho’, que faz o retrato do antes e depois da democracia no nosso país. Temos três canções que falam sobre direito à cidade e, nomeadamente, à cidade mais verde, como é o caso de ‘Serpentear’, que foi feita no âmbito de um projeto no Porto de participação cívica, de construção de parques infantis e de espaços verdes amigos das crianças na cidade. É um projeto muito interessante chamado Serpentina. O ‘Jacarandás’ fala sobre a defesa das nossas árvores na cidade e desse ativismo coletivo de defendermos os jacarandás como um símbolo daquilo que está vivo, daquilo que é fértil, daquilo que é colorido nas cidades. De não deixar que as nossas cidades se transformem em parques de estacionamento, em rodovias sem lugares. Em que a vida existe. E, portanto, tem a ver com a cidade, mas também tem a ver com a nossa participação nela. E a ‘Malva da Vida’ é um poema musicado que fala sobre a importância das hortas na cidade. Temos também uma outra canção que se chama ‘O Pescoço da Cobra’, que fala sobre desigualdades e sobre a necessidade de cultivarmos o sentido comunitário, empático, que sempre nos tornou humanos. Foi isso que nos distinguiu e que fundou a nossa civilização. Há muitos temas de temáticas que têm um âmbito social, de cidadania, que eu acho que é muito óbvio. Portanto, não conseguiria escolher só uma canção. Também há sempre uma canção de embalar, em cada disco, e este não é exceção. Há sempre uma canção sobre a infância. E no último disco, aliás, havia duas muito óbvias, mas neste aqui temos a ‘Mazeukeru’, que foi o primeiro single e que fala sobre um monstro muito birrento que habita nas nossas casas. A canção de embalar chama-se ‘Canção de Silêncio’. É como se a Mão Verde tivesse uma estrutura do primeiro ao terceiro disco. Todos os discos são compostos por dez canções e dois poemas musicados e todos têm uma canção de embalar. E esta, eu acho que é a mais bonita que nós já fizemos. Eu sou sempre muito fã das canções de embalar, até porque no segundo e no terceiro disco não sou eu a cantar, é a Francisca Cortesão. E, portanto, eu fico só a assistir. Escrevo a letra e depois fico a assistir, a absorver a beleza do momento com aquela voz da Francisca. É muito lindo, porque na Casa da Música, houve o concerto de apresentação e tocamos a ‘Canção do Silêncio’ e vimos as crianças a aninharem-se nas mães e nos pais. E estava lá o meu sobrinho que até pediu a chucha. Portanto, temos uma taxa de sucesso bastante alta”. 

A Mão Verde é uma descida musical de causas, sarapintado de sons e movido a energia renovável. Mas tudo começa na mão direita de Capicua. “Eu acho que eles confiam bastante na minha escrita. A Mão Verde nasceu por um convite do Teatro São Luiz, em Lisboa, para fazer uma temporada de concertos para crianças. E eu convidei o Pedro para fazer a música e éramos um duo no início. E aquilo correu tão bem que depois acabou por acontecer o primeiro disco-livro. Quando convidámos a Francisca e o Serginho para entrar na banda e fizemos ‘Mão Verde II’, a ideia foi também manter a lógica e a identidade da Mão Verde. Isso tem muito a ver com a minha escrita e também com aquelas temáticas, que se cristalizaram como identidade do projeto. E neste terceiro disco-livro não foi diferente. Tal como eu confio no seu talento musical, eu acho que eles confiam na minha caneta e nas minhas ideias. E acho que isso funciona. Porquê? Porque todos temos muita confiança uns nos outros e vimos todos de linguagens musicais diferentes. E também acho que é óbvio para quem ouve a Mão Verde que andamos a brincar aos estilos de música, porque cada canção tem uma linguagem”. 

Capicua está a preparar um livro infantil de poemas, “que é um herbário, precisamente porque tinha que canalizar os meus poemas sobre plantas e sobre árvores”.