Capitão Fausto: como inventar uma noite de festa
A celebração é no dia 7, no Campo Pequeno. Os Capitão Fausto vão levar uma década de canções e a Orquestra Filarmonia das Beiras à sala lisboeta. Tomás Wallenstein e Manuel Palha estiveram connosco para contar quase tudo sobre a noite de sábado.
Contar tudo poderia estragar a experiência, coisa que os Capitão Fausto não querem que aconteça. Respeitamos e contamos apenas o suficiente. Há uma garantia irrefutável: no próximo dia 7 de março, o palco lisboeta e todas as zonas da sala que o circundam vão estar cheios de boa gente para fazer a festa.
O quinteto fantástico de Alvalade abriu o coração criativo ao Maestro Martim Sousa Tavares e às proezas musicais de mais de 40 músicos da Orquestra Filarmonia das Beiras para realizar um sonho antigo: tocar com uma orquestra.
2020 e quase uma década depois do lançamento da veloz "Gazela" (álbum de estreia), Tomás Wallenstein, Salvador Seabra, Francisco Ferreira, Manuel Palha e Domingos Coimbra juntaram finalmente as vontades criativas à direção artística de um maestro. E não estamos a falar de um maestro qualquer. É o Maestro Martim, amigo de longa data dos cinco bons rapazes e o homem que dirige os mais de 40 músicos que vão estar no palco.
O encontro pop rock sinfónico será a oportunidade certeira para festejar com o Capitão. Afinal de contas, ou feitas as contas, é para celebrar dez anos de estrada, quatro discos editados e a longevidade da amizade bem boa que une os cinco. Estão todos convocados. O concerto do próximo sábado tem qualidade de imperdível.
O formato que os Capitão Fausto "orquestraram" para o Campo Pequeno vai servir também para assinalar o primeiro aniversário do disco "A Invenção do Dia Claro". Porque não? Além de estar listado entre os melhores álbuns do ano passado, o quarto fruto do quinteto lisboeta continua na mira de futuros reconhecimentos e tem sido mostrado, com maior intimidade, em teatros e auditórios nacionais.
Resumo feito, deixamos a conversa que tivemos com o Tomás Wallenstein e o Manuel Palha. Falámos sobre o concerto, mas houve outros assuntos para saborear como se fossem cerejas.
Li algures que vocês querem tocar com uma orquestra há algum tempo. Desde quando é que essa ideia anda a "esvoaçar" nas vossas cabeças?
Manuel: Há muito tempo, muito tempo mesmo. É um sonho antigo. Tivemos sempre o objetivo de fazer um check a essa vontade.
Tomás: Só que é difícil reunir as condições certas para isso acontecer…
Manuel: Exatamente. Talvez a vontade tenha crescido quando fizemos o terceiro disco ["Têm os Dias Contados"]. Nessa altura, começámos a incorporar outros músicos para fazer as partes que nós não conseguíamos fazer. Arranjámos pequenos ensembles de quatro, cinco, seis músicos para tocar connosco. Quando ouvimos o resultado e vimos as potencialidades da junção desses novos instrumentos, quisemos escalar a ideia. Foi a partir daí que equacionámos, de forma mais séria, tocar com uma orquestra.
Tomás: Também houve um disco gravado com uma orquestra que me marcou muito. Foi o primeiro álbum dos Last Shadow Puppets, "The Age of Understatement". Lembro-me que quando ouvi esse disco senti logo que um dia iria querer fazer aquilo.
Pensei que ias dizer os Metallica (risos)…
Manuel: Ah, também. Isto é o nosso S&M. É muito aquela ideia de juntar uma banda rock com uma orquestra. Quando éramos miúdos ouvíamos muito Metallica. Éramos fãs! O Tomás mencionou os Last Shadow Puppets porque a música deles aproxima-se muito mais da nossa do que a dos Metallica. O "The Age of Understatement" não só foi um disco que nos marcou, como foi revelador do papel interessante e abrangente que uma orquestra pode ter numa banda rock.
A verdade é que vocês não se limitam aos instrumentos que dominam, seja no palco ou nos discos. Com este concerto, vão elevar essa liberdade criativa a um novo patamar…
Tomás: Sim, vamos. E felizmente sentimos que ainda temos por onde subir no futuro. Neste momento, estamos com uma orquestra de 43 músicos que é mais ou menos aquilo a que se costuma chamar de "orquestra de Beethoven", uma orquestra sinfónica romântica.
Manuel: As orquestras cresceram ainda mais na viragem do século XIX para o século XX. Talvez um dia ainda possamos tocar com uma orquestra de 80 músicos…
Tomás: Ou de 100, dependendo da nossa ambição. Até podemos querer uma orquestra com 200 músicos.
Por enquanto, é com a Orquestra Filarmonia das Beiras…
Tomás: Para já, é com esta. Estamos muito contentes que assim seja.
É uma orquestra muito eclética. Tem feito coisas muito diferentes e fora da esfera mais óbvia e clássica. Conheciam esse arrojo mais eclético?
Manuel: Fomos descobrindo. Eu já tinha visto um desses programas mais ecléticos. Já tinha ouvido a Orquestra das Beiras a fazer um filme/concerto do Harry Potter…
És tu que és o grande fã de Harry Potter? Tenho ideia que há um grande fã entre vocês...
Manuel: Também, sim. Acho que somos todos.
Tomás: Somos todos, mas o mais fã sou eu.
Manuel: Não, não, calma.
Tomás: Somos todos. Talvez o menos fã seja o Salvador.
Manuel: Os maiores fãs da saga Harry Potter são o Tomás, o Domingos e eu. Quando vi a Orquestra Filarmonia das Beiras a tocar a música do John Williams, achei a ideia espetacular. Acho que também foi por isso que fiquei logo "vendido" quando me disseram que seria essa a orquestra a tocar connosco.
E o maestro Martim Sousa Tavares é vosso amigo há muito tempo. Já havia cumplicidade de amigos, certamente. E cumplicidade criativa?
Manuel: A nossa cumplicidade criativa nunca tinha sido explorada porque simplesmente nunca tínhamos trabalhado juntos. Ainda assim, tínhamos noção que a nossa união de forças tinha tudo para correr bem, o resultado não foi propriamente uma surpresa. Foi muito agradável perceber que tudo o que enviávamos ao Martim estava em consonância com o que ele nos ia enviando de volta.
Tomás: Sim, estávamos em absoluta sintonia. Quando lhe explicámos a nossa ideia para o concerto, o Martim ficou imediatamente em sintonia com aquilo que queríamos. Acabou por ser uma comunicação muito direta, muito fácil. Nada nesta história foi complicado ou tenso. Foi tudo muito simples. O Martim sabe o que quer e consegue defender muito bem as ideias que tem, mas também esteve muito aberto a ouvir o que tínhamos para dizer. Quando fomos assistir ao primeiro ensaio da orquestra, só houve um detalhe ou outro em que eu e o Manel interviemos. Sugerimos apenas pequenas modificações, mudanças que Martim acatou sem qualquer problema. Disse-nos até que gostava das duas maneiras.
Manuel: Sim, percebeu perfeitamente o que é que nós queríamos.
Como é que foi o briefing que lhe fizeram?
Manuel: Foi um briefing bastante aberto. Ainda chegámos a equacionar sermos nós a fazer os arranjos das canções, mas, tendo em conta que o Martim trabalha diariamente com orquestras e estudou bem esse artifício, decidimos confiar-lhe as músicas. Sabíamos que ele iria perceber e distinguir o que era ou não importante. Houve um ponto ou outro em que lhe dissemos concretamente o que queríamos, mas, de uma forma geral, demos-lhe muita liberdade para mexer nas canções. (...)
Tomás: Para ser uma experiência mais interessante e para que o concerto se destaque dos outros em que somos nós a tomar as decisões, tivemos de dar essa liberdade ao Martim. Além disso, também queríamos que ele entrasse nesta história com entusiasmo.
Manuel: Se fizéssemos muitas imposições, do género 'faz isto ou faz aquilo', iríamos estar a invadir um processo que deve ser libertador e criativo para o Martim.
E o alinhamento do concerto? Sendo que já somam dez anos de estrada, o que é que tiveram em conta na escolha das canções?
Tomás: Por um lado, tentámos perceber quais as canções que se prestam a ter uma participação orquestral interessante. Por outro, foi o resultado da pesquisa dos concertos que demos este ano. Tivemos o cuidado de tentar perceber quais as músicas que encaixam melhor, como é que soam as passagens de umas para as outras, quais é que gostamos de ver afastadas no alinhamento, quais é que ficam melhor no início e quais as que ficam melhor no fim. Fomos acumulando todas estas experiências e acabámos por criar um esqueleto experimental para o concerto no Campo Pequeno. À medida que íamos tocando nos auditórios e teatros, íamos fazendo correções e imaginando o espetáculo.
Vão tocar músicas que já não tocam há muito tempo?
Manuel: Algumas. Há canções que ficaram fora da experiência dos teatros e auditórios porque quisemos guardá-las para o Campo Pequeno. Fizemos questão de guardar momentos específicos para este concerto, até porque vai ser uma celebração ligeiramente diferente das outras.
Sinto que querem guardar alguns segredos sobre o que estão a preparar para sábado…
Tomás: Sim, queremos. (risos) Não queremos revelar muito para não estragar a experiência.
Que canções é que vos impressionaram mais com os arranjos orquestrais?
Tomás: Gostámos de todas, mas houve algumas que se destacaram quando as ouvimos pela primeira vez. A 'Certeza'...
Manuel: Sim, a 'Certeza'…
Tomás: 'Corazón', 'Morro na Praia'…
Manuel: Temos uma relação muito próxima com as nossas músicas. Sabemos exatamente o que é que acontece em cada uma delas. Quando o Martim entrou no nosso espaço criativo, criou uma nova atmosfera para cada uma, trouxe novos ingredientes. São as mesmas canções, mas ganharam novas camadas de sentimento. Só não o fez com todas, para que haja uma dinâmica interessante no concerto.
O que é que têm aprendido com esta experiência? Esta simbiose com a orquestra está a ajudar-vos criativamente para novo material?
Tomás: Sem dúvida. Vamos retirar muita coisa desta abordagem sinfónica e da divisão de vozes e de papéis que o Martim está a fazer. Já que a intuição e a formação do Martim são diferentes das nossas, estamos dispostos a ir beber dessa diferença. Estamos a absorver a flexibilidade e a agilidade de uma orquestra em contraponto com a nossa rigidez mais metronómica. Podemos retirar muita coisa boa dessa dinâmica.
Em idade de banda, dez anos já é um número que pede balanço. Costumam refletir sobre a estrada que estão a percorrer ou vão andando sem pensar muito no assunto?
Manuel: Vamos indo de forma natural, mas há um momento ou outro, sobretudo quando temos mais tempo, em que surge a oportunidade de pensar com mais detalhe no que já aconteceu, no que está a acontecer e no que gostaríamos que acontecesse. Pensamos no que fizemos, nos discos que lançámos, nos concertos que demos e nos que temos pela frente. Fazemos essa análise introspetiva quando calha, não agendamos reuniões semanais para apresentar números…
Tomás: Também temos o hábito de fazer uma coisa que até já nos aconselharam a não fazer. No final de cada concerto, comentamos o que é que aconteceu no palco. Temos o cuidado de discutir sobre o que correu bem e sobre o que poderia ter corrido melhor. Fazemos isso logo a seguir aos concertos, nem deixamos as ideias passar. Eu acho que esse exercício coletivo acaba por ser muito útil, até porque não o fazemos com tom acusatório, fazemo-lo quase de uma forma científica.
Qual é o vosso maior ganho nisto que é a música?
Tomás: Poder fazê-la…
Manuel: Poder ter o nosso tempo ao serviço da música quase a cem por cento. Gostamos muito de fazer música e achamos que ainda temos muita coisa para fazer musicalmente. Dá-nos muita alegria saber que podemos dedicar os nossos dias a isto, à música.
Dez anos depois, como é que cada um de vocês construiu a identidade dos Capitão Fausto?
Manuel: Como diz o [Francisco] Ferreira, é uma hidra. É um monstro de várias cabeças que só é o que é exatamente por isso. É uma identidade muito polarizada, apesar rumarmos todos no mesmo sentido e de estarmos a fazer o mesmo caminho. Somos cinco pessoas que debatem diariamente todas as questões, tudo o que vai acontecendo. É a junção das nossas cinco cabeças, sempre em debate contínuo, que faz com que a nossa música seja o que é. Se fossemos quatro, já iria ser muito diferente, se fossemos três seria ainda mais diferente e por aí. É um pouco difícil definir, nós próprios não sabemos muito bem como fazê-lo. Mesmo quando estamos a compor um disco não sabemos concretamente o que almejamos. Temos umas ideias, alguns conceitos que gostaríamos de explorar, que nem sempre são consensuais, mas depois adotamos a postura de ver o que acontece. É a tal hidra de cinco cabeças que "luta", é um debate constante. É isso que nós somos.
Tomás: É uma espécie de hierarquia achatada, sem diminuir a ideia de hierarquia que está muito presente na organização de pessoas. À sua vez, cada um de nós lidera um certo momento e puxa para o lado que lhe faz mais sentido. Na vez seguinte, já está outro a liderar. Funcionamos como uma equipa de futebol. Nem todos marcam golos, mas quando não se defende a baliza, acabamos por perder.
E continuam a passar muito tempo juntos. Isso ainda não beliscou a vossa forma de trabalhar coletivamente?
Manuel: Nós arranjámos uma forma não falada de lidar uns com outros. Isto acontece sobretudo porque conhecemos muito bem os limites de cada um. Sabemos estar os cinco em trabalho, como de repente estamos juntos sem ser em trabalho e vamos beber um copo. Lidamos bem uns com os outros e é algo que acontece de forma muito natural. Não estamos nada saturados uns dos outros, continuamos a ser muito amigos.
E ouvem-se criativamente também…
Tomás: É um exercício constante. Às vezes, temos de ter noção e fazer um esforço para dar ouvidos a todos. Nós atravessámos um período, sobretudo nos últimos anos, em que vivíamos todos juntos. Entretanto, o Manel casou, o que fez com que deixássemos a casa onde estávamos. Correu tudo muito bem e, apesar de não estarmos na mesma casa, continuamos a passar muito tempo juntos. Hoje em dia temos trabalho que não se limita só a fazer música. Acaba por ser mais eficaz, se estivermos todos juntos à volta de mesa, na mesma lógica de trabalho de escritório.
Manuel: Aproveitamos esses momentos também para termos as nossas conversas, para ouvir música juntos, o que nos leva a ter ideias.
Tomás: Quando estamos juntos temos uma reação mais imediata às ideias que possam surgir. Podemos debatê-las logo e tomar decisões. É o que as pessoas fazem todos os dias nos seus trabalhos.
É interessante ver como os Capitão Fausto vão crescendo, à medida que as vossas vidas também vão mudando…
Manuel: Sim, e isso nota-se nos nossos discos. Não falo de uma evolução qualitativa, mas de uma evolução natural que é moldada pelo tempo. Somos pessoas bem diferentes do que éramos há dez anos, apesar de mantermos o que nos une que é a nossa amizade e a rotina diária dos Capitão Fausto. Acho que essa evolução vai continuar, vamos continuar a fazer isto com verdade, sem sermos plásticos…
Tomás: Vamos evitar a todo o custo… (risos)
O que é que está planeado para depois do concerto no Campo Pequeno?
Tomás: Para já, vamos ter uns dias de descanso, mas não vamos parar completamente. Até ao final do verão, já temos datas agendadas.
Manuel: Sim, até ao final do verão ainda está a valer. É por isso que não falamos em fechar um capítulo, mas sim em marcar um ponto importante da nossa estrada. O último disco começa a ficar lentamente para trás e vamos começar a pensar no próximo.
Tomás: É como o fogo de artifício. Ouve-se um grande estrondo e depois ainda ouvimos uns quantos rebentamentos… (risos)
Então, ainda vão apanhar as canas…
Tomás: Sim. Estamos a concluir alguns projetos, mas ainda não começámos a divulgá-los. Esses projetos são os nossos objetivos mais imediatos. Depois disso, é que vamos agendar datas para começar a trabalhar no disco novo.
