'Careless Whisper': a entrada de George Michael na idade adulta
Sai nesta sexta-feira no mercado digital o EP de George Michael, 'Careless Whisper', a comemorar os 40 anos da canção.
O talento colossal de George Michael sempre nos deu a sensação de ser demasiado grande para ser apenas um dos dois membros dos Wham!. Mesmo no meio daquela alegria juvenil das canções da dupla, George Michael parecia ter um rosto mais compenetrado, como se fosse já mais maduro do que as canções coloridas da dupla que estava então a cantar.
Quando em julho de 1984 George Michael lançou o seu primeiro tema a solo, ‘Careless Whisper’, o cantor tinha apenas 21 anos de idade e toda a sua agenda preenchida com os Wham!. O cantor era na altura um homem encurralado, pressionado naquela imagem de sex symbol heterossexual e assoberbado por um quotidiano alucinante enquanto galáctico da pop, mas com uma personalidade complexa que requeria uma maioridade musical e um lugar mais seu.
‘Careless Whisper’ é a primeira canção em que George Michael mostra uma outra intimidade e em que passamos a vê-lo mais como um ser humano e não apenas como uma estrela pop. O artista não se descola da imagem heterossexual do videoclipe, é certo, mas mostra-se mais reflexivo e confessional, longe daquele frenesim dançante dos Wham!. “And I'm never gonna dance again / Guilty feet have got no rhythm”, canta ele. Podemos dizer que é só uma personagem, mas a sua identidade melancólica vem ao cima – e com o tempo, percebemos que aquilo era ele.
Vem também ao de cima o seu futuro próximo, o de cantor a solo de enorme força intimista. ‘Careless Whisper’ foi o aviso perfumado de que os Wham! tinham os dias contados. A canção nasceu no núcleo da dupla, com Andrew Ridgeley como cocriador, e foi martelada num dos álbums dos Wham. Mas a música destaca George Michael como um cantor individualizado.
‘Careless Whisper’ é uma canção de um tamanhão intemporal, capaz de celebrar hoje os 40 anos e todas as efemérides que estarão para vir. George Michael passa a vestir muito bem o fato da canção clássica. As medidas ficam-lhe muito bem. A linha de saxofone aproxima-o da elegância cancioneira de Bryan Ferry. George Michael canta num volume sonoro baixo que o permite descobrir uma outra elasticidade vocal. A musicalidade da sua voz encantadora ecoa por todo o lado, num combinado suave com uma subtil guitarrinha de flamenco e uma batucada com a leveza de uma pena.
As luzes da cidade do vídeo ilustram a atmosfera notívaga da canção, na hora solitária das dores amorosas da perda, da ponderação dos erros e do arrependimento. O tempo não volta atrás, pensa o amante, isto é, o cantor George Michael. Os ares de trópicos da canção são, no fundo, as memórias de um verão quente que jamais se repetirá. Resta-nos a canção.
Mais tarde, a pele de George Michael deixou a aparência imberbe e enrijeceu, com a barba por fazer a fazer a sua imagem, como uma camada rala que perdurou até à sua morte. Os olhos passaram a ser menos arregalados e mais entristecidos, escondidos por trás de uns óculos escurecidos, com a utilidade uma janela de vidro fumado à prova de bala. George Michael passou a precisar de se defender de quem o atacava e de quem o não compreendia.
A carreira sinuosa e acidentada não fez a justiça ao talento que George Michael tinha enquanto cantor e compositor de primeira. Canções enormes como ‘A Different Corner’, ‘Father Figure’, ‘Praying For Time’ ou ‘One More Try’ provaram que ‘Careless Whisper’ não foi um feliz acaso. ‘Careless Whisper’ foi só um aviso perfumado de um homem que iria engrandecer a pop como poucos.
Sai hoje no mercado digital o EP ‘Careless Whisper’, com a versão do lado A do single e mais três versões da canção, uma delas uma gravação ao vivo em Nova Iorque em 2008. A M80 vai dedicar um especial ao tema ‘Careless Whisper’ ao longo deste fim-de-semana.
