Carlão: "percebo que tenho menos tempo de vida do que o que já vivi"
Sai nesta sexta-feira o álbum autobiográfico "Quinta-Essência 75/25", de reflexão sobre os seus 50 anos de vida.
Carlão lança nesta sexta-feira o álbum “Quinta-Essência 75/25” que é toda uma reflexão sobre a sua vida. Ouvem-se e sentem-se as memórias da mãe, as travessuras e desmandos típicos de um jovem rebelde, a presença dos Da Weasel, o amor e o desejo dele, e, também, o pensamento sobre o fim (seja lá o que significa esse fim).
Se os Rádio Macau interpretavam ‘A Vida Toda Num Só Dia’, Carlão colocou a vida toda num só disco. E o que emerge é uma imensidão musical que vai da música africana ao punk-hardcore, com outras paragens musicais.
Se bem pensa, melhor produz. Carlão sempre foi assim. Olha-se ao espelho aos 50 anos. Foi mudando. Mas acima de tudo, quer continuar a mudar. Assim o sentimos nesta entrevista.
Os temas 'Oh Nha Nené' e 'Nair Ki Fla' são um regresso ao berço africano? À supermãe África?
Não são regressos, mas são tímidos passos. Sou uma pessoa algo lenta nos meus processos e diria que já estou a fazer essa reaproximação há uns tempos muito lentamente. Mas é, sem dúvida, uma reaproximação. Não é a primeira vez que me aventuro, este tema foi regravado, o Nair Ki Fla, para o grande público português. É a primeira vez que eu estou a cantar em crioulo, e não apenas só uma palavra ou outra. É um tema em que o meu irmão musicou um poema de um primo nosso e eu dei voz. O Nair Ki Fla já tinha saído numa compilação em Cabo Verde, mas eu acho que a minha voz não tinha feito justiça àquele poema. Então regravei e quis tê-lo no meu disco e fiquei bem mais satisfeito com este resultado. Ainda que eu já tenha ido buscar mais raízes africanas, em 2015, no “Quarenta”, coisa que não tinha feito até então, faço uma reaproximação.
Quem são os 'Intrujas & Otários'? Quem são os mais batidos que os bandidos?
Eu acho que nós temos sempre a ideia de criminalizar o peixe miúdo e deixar impune o peixe graúdo. E, nesse aspeto, quando digo intrujas e otários, é uma diferença de numerário. Faço a redundância, a diferença de numerário faz toda a diferença. O que eu digo são os bandidos mais a sério são as pessoas que se aproveitam do negócio da música. Se calhar, do peixe miúdo, os miúdos não estão muito preparados, e eu acho que toca a todos. Eu acho que quando comecei, também me lembro dos Da Weasel terem tido um ou dois empresários que nos roubaram à grande. E eu acho que agora há muitos putos, principalmente com esta explosão do hip hop nos últimos anos e na cena mainstream, que tem uma atitude de ‘muita bandidos’, mas, na verdade, estão a ser comidos à grande. São mastigados e cuspidos para fora muito rapidamente e venha o próximo para ser explorado. Os intrujas serão os grandes tubarões, os jogadores do mercado, sejam promotores, empresários, algumas labels, e os otários serão os miúdos que andam aí a fazer temas e, muitas das vezes, acham que estão lá em cima, mas, na verdade, nem por isso.
O 'Corta e Cola' é aquele bichinho punk hardcore que não morre em ti? Ou é já uma foto do teu álbum de recordações?
É difícil morrer. O Spotify tem aquela coisa das mixes que tu fazes, com música que tu gostas. E no outro dia apareceu uma mix de um dos tipos que eu gosto bastante, que são os Bob Vylan, que têm essa coisa punk- hardcore bem presente hoje em dia em Inglaterra. Mas é fixe porque são rastas, portanto, blacks, do punk hardcore. Têm tudo a ver comigo. E nessa mix do Spotify, aparece uma série de bandas que eu gosto mesmo de ouvir e, provavelmente, isso é que ficou mesmo. Por isso, é que eu não faço uma coisa tipo de metal ou de thrash... Se fizesse uma coisa do metal, seria só uma foto. O punk-hardcore é uma coisa que me toca mesmo, e que eu gosto. Até gosto mais de tocar do que de ouvir, se calhar. Mas gosto de ouvir também e vou ouvindo. Portanto, está super-presente.
Já agora, o que é que tu andas a ouvir do punk-hardcore?
Lá está, Bob Vylan. Há uma série de bandinhas inglesas assim meio underground que estou a descobrir. Não posso dizer que tenha assim um conhecimento muito extenso, mas acho que se estão a fazer coisas interessantes. Entretanto, até mesmo em Portugal já me disseram que há um ressurgimento desse movimento. Devo confessar que estou um bocado fora, mas tenho que fazer o meu trabalho de casa.
Pensando no tema ‘Dez Palcos’, odeias festivais?
Não, não. Faço parte do jogo. Eu, na verdade, acabo essa crítica como autocritica que é: estou a combinar com um amigo encontrarmo-nos na na zona VIP. Faço parte do jogo. Eu não odeio festivais. Eu acho que os festivais são só uma parte muito importante do nosso ADN, da nossa história enquanto músicos e consumidores. Toda a gente tem memórias em festivais e passou por lá [bons] momentos. E eu tenho mais memórias enquanto músico do que propriamente enquanto consumidor ou enquanto público. Mas tenho bastantes memórias boas. Agora, o que eu acho é que, às vezes, o festival acaba por não ser o sítio de eleição para ver um concerto, porque a música acaba por ser muitas vezes secundarizada. Isso está tudo bem. O que eu acho é que, às vezes, ultrapassam-se alguns limites quando, por exemplo, tu estás a ver um concerto num palco secundário e a banda acaba de tocar e o vocalista quer falar com o público e não se consegue fazer ouvir, porque se está a ouvir música do outro palco. E quando isso acontece, eu acho que há claramente um desrespeito, não só aos músicos como ao próprio público. Essa, a crítica do festival, apesar de haver ali outras coisas, não é só os dez palcos, são outras coisas que estou a criticar, mas a principal crítica no final do dia, no final do tema, acaba por ser esse desrespeito que há em relação à música e aos seus ouvintes. É claro que, se eu quero ver e ouvir um concerto como deve ser, se calhar o sítio de preferência não é um festival. Vou a uma Aula Magna, ou a um Coliseu, vou a um auditório qualquer. Mas, por vezes, há bandas que eu só tenho a oportunidade de ver naquele sítio. E já agora, era fixe que houvesse um bocado mais essa consciência, porque de resto está tudo certo.
No tema 'Sabes a Natal', o que queres cantar?
É uma mistura de coisas. É como o desejo sexual. Pode, ao mesmo tempo e de uma forma estranha, remeter-nos para um tempo de muita ingenuidade e de descoberta infantil.
Ao afirmares num dos teus interlúdios que deixaste de funcionar em pandilha, estás a justificar a longa paragem dos Da Weasel?
Não, não. É mesmo aquela coisa social, sabes. Eu dou-me muito bem em grupos pequenos. E posso estar uma noite inteira a conversar com uma ou duas pessoas. Depois, quando há aquela mentalidade de grupo, já fico meio bicho. É uma coisa mesmo social e comportamental. A mentalidade de grupo é que me assusta muito. Eu já vi muita coisa má ser feita em nome de um grupo, em nome de uma instituição, em nome de um valor qualquer. E isso assusta-me.
N''O Último Canto', já estás a ver a última luz ao fundo do túnel? É uma premonição da Extrema-Unção?
É algo que é difícil não pensar quando tens cinquenta anos. O meu primeiro concerto foi aos treze, o meu primeiro álbum terá sido ali aos dezanove, já faço música há algum tempo. Percebo que tenho menos tempo de vida do que aquele que já vivi. Ham... Não é só o tempo de vida, mas também o prazo de validade artístico. Qual é que será? Eu acho que é uma questão que me assola a mim. Não só a mim, mas a uma série de pessoas. No outro dia eu estive na entrega de uma medalha de mérito cultural [na Câmara Municipal de Lisboa] ao tio Sérgio [Sérgio Godinho]. Chamo-lhe tio, não é por ser beto, é por uma brincadeira de uma música que fizemos juntos, em que eu dizia que "sou apenas o irmão tentando manter a tesão" e ele respondia, "sou apenas o teu tio tentando manter o cio". Foi no Espanta Espíritos [compilação de vários artistas], em 95 [no tema Apenas Um Irmão].
Isso é mesmo à Carlão e à Sérgio Godinho. Vocês são os mestres dos trocadilhos.
Estar lá e fazer parte daquela homenagem, ler uma um texto de uma canção dele, e olhar para ele com oitenta anos e saber que ainda no ano passado o fui ver ao Coliseu, naquela dupla data. Sabes? Eu olho para esses casos como exemplo e espero lá chegar e estar com a mesma cabeça e com a mesma vontade, mas não sei se isso vai processar dessa forma ou não. São essas questões que eu acho que toda a gente há de passar por isso: será que aquilo que eu estou a fazer ainda é relevante? Será que o meu prazo de validade já expirou e eu não dei por nada? Mas a conclusão, no final do tema, é: eu acho que não, acho que ainda não. E acredito mesmo nisso.
Tens temas muito interventivos no início do disco. Como é se trava esta seita do ódio?
Oh pá, eu gostava de saber. É complicado, todos nós fazemos essa pergunta. Todos nós que fazemos essa pergunta, não temos aqui uma resposta, andamos à procura. Eu acho que temos que ser inteligentes, temos que ter muita perseverança e tentar não cair em armadilhas que esta polarização nos apresenta. Há muitas armadilhas, há uma série de palavras, de coisas que se calhar convém contornar. Tens que ser muito perspicaz. Mas no final do dia, essa perspicácia não te serve nada se não tiveres amor. A chave disto tudo só pode ser o amor. Está muito complicado, porque acho que tivemos um retrocesso gigantesco na última década.
Parece que há uma praga de Diáconos de Remédios, não é?
Sim, eu acho que o fenómeno Trump legitimou uma série de ações no mundo inteiro. Eu lembro-me de quando o Obama foi eleito pela primeira vez, eu ter achado mesmo que eu nunca pensei que no meu tempo de vida fosse assistir à eleição de um presidente negro nos Estados Unidos. Pensei: “fogo, que coisa incrível”. E depois, logo a seguir, com a eleição do Trump, confirmei aquilo que eu acho que são os Estados Unidos, um país de extremos. São capazes do melhor e do pior. Com este segunda eleição do Trump, ele veio com ainda menos vergonha e com um autoritarismo que eu sinceramente não esperava. E de certa forma, está a legitimar as ações desta malta toda populista e demagoga, e, infelizmente, muito mal preparada, para tomar conta das nossas vidas e do futuro dos nossos filhos. E isso tudo usando esse ódio que tu falas. É nesses dias em que eu escrevo canções como o Passo a Passo, em que estou muito próximo de me passar da cabeça, porque eu não vejo resposta de uma forma clara e palpável. Eu diria que o amor será sempre a resposta, mas tem que haver muita inteligência para não cair nas armadilhas.
Este álbum “Quinta Essência” pode desembocar num livro autobiográfico ou até num documentário?
Não, acho que não. Eu acho que não. O “Quinta Essência” não. Eu acho que a vida de qualquer pessoa terá sumo para um livro. E a minha não é exceção. Mas o Quinta Essência poderia, quando muito, ser o ponto de partida.
Tu és um ótimo letrista. Tu agora já estás com uma idade de escritor. Quando é que dás o salto para escritor?
Houve uma altura em que tinha veleidade de pensar isso, mas a verdade é que, por uma razão ou por outra, leio muito pouco. Tenho lido muito pouco nos últimos anos. Tenho ido pouco ao teatro, também. Agora, ando timidamente a recuperar nos últimos dois, três anos. Eu acho que uma pessoa que não lê dificilmente irá escrever um livro. E aquilo que eu tenho lido nos últimos tempos são contos, porque é a coisa que eu encontro mais fácil de processar e de ter tempo e disponibilidade mental para tal. Eu só consigo ler um livro hoje em dia nas férias. E as minhas férias são diferentes do resto da malta. Portanto, são noutro tempo.
Mas tens uma natureza muito introspetiva e pensadora. Isso também faz um escritor.
Tenho um bocado. Não tenho tido esse lado muito desperto em mim, porque está a vida a acontecer. Estar a levar as miúdas à escola, ir buscá-las, programas, isto e aquilo, a própria música, os concertos, a preparação e tudo mais. Por isso é que não há um tempo de qualidade para me debruçar mais sobre as coisas e escrever sobre as coisas, mais do que para uma música. Eu não sei se algum dia o farei.
Que Carlão vamos ter ao vivo?
À partida, só iremos fazer um concerto, mas isso nunca s-- nunca sabe. Com a Weasel estamos a navegar à vista e a tentar fazer concertos muito localizados para não desvirtuar um bocado isto.
E com a orquestra.
Agora vamos fazer uma coisa diferente com a orquestra e para já não está nada mais previsto. Eu quero tocar imenso aquilo que vou fazer, vou fazer um bocado de tudo, o que é fixe. Eu gosto de experimentar vários registos. Por exemplo, o próximo concerto há de ser num auditório. Depois um vai ser num sítio público que eu não posso falar agora, mas é, com uma data importante e num sítio emblemático. E depois tenho, por exemplo, o Rock in Rio, o festival. Sabes, vou a muitos sítios diferentes estou muito curioso. Ontem à noite já comecei a preparar o concerto ao vivo e vou estar a prepará-lo agora, nomeadamente os temas do Quinta Essência. E vai ser porreiro, porque para cada um desses sítios, este disco tem temas que se prestam muito bem para esses para sítios diferentes. Posso dar-me ao luxo de fazer alinhamentos bastante diferentes consoante a situação e isso é, realmente, é um luxo para mim.
Disseste há bocado que deste o teu primeiro concerto aos 13 anos. Que concerto foi esse?
O primeiro concerto de todos, na verdade, acho que não pode ser considerado bem um concerto. Eu tinha uma banda que era o Incesto e toquei ali numa festa de Natal do grupo de pais do trabalho do meu pai. Deve ter sido a pior festa de Natal de sempre daquela malta. Mas o meu primeiro concerto a sério foi uma primeira parte de Censurados, com uma banda que eu tinha com o meu irmão, de punk-hardcore. Foi ali em Corroios, eu tinha para aí treze anos.
E qual foi o primeiro disco que compraste?
As memórias também nos pregam rasteiras e não sabemos muito até que ponto é que elas aconteceram desta forma. Lembro-me de estar na rua, de mão dada com a minha mãe, e passar numa discoteca em Almada, que não era discoteca porque vendia eletrodomésticos. Lembro-me de termos comprado o “Thriller” do Michael Jackson, por quinhentos escudos na altura.
