Carolina de Deus sobre o novo álbum: "espero que as pessoas se sintam abraçadas quando ouvirem as canções"

Digressão de apresentação do álbum passa pelo Teatro Sá da Bandeira, no Porto, a 28 de fevereiro, e pelo Teatro Maria Matos, em Lisboa, a 15 de abril.

Foi a 29 de janeiro que Carolina de Deus editou "Feliz(mente) Triste" – o segundo álbum de originais e o sucessor de “Dores de Crescimento” que a cantora e compositora editou em 2023. 

"O disco nasce da consciência de que se pode ser tudo ao mesmo tempo, alegre e triste, forte e frágil, inseguro e seguro, e que, quando essa complexidade é aceite, talvez se encontre uma forma mais completa de felicidade", refere o comunicado de imprensa sobre o registo discográfico. "Em 'Feliz(mente) Triste', cada canção transforma emoções contraditórias em momentos que tocam profundamente quem ouve. Vulnerabilidade torna-se força, fragilidade revela identidade, e a intensidade das emoções desenha caminhos de autenticidade. É um álbum honesto, feito de despedidas, recomeços e descobertas pessoais, sempre com a música a guiar o percurso", lê-se na nota. 



Carolina de Deus está a apresentar “Feliz(mente) Triste” na estrada. “A digressão de apresentação do disco passa por auditórios de norte a sul do país, com datas anunciadas para Lisboa, Porto, Coimbra, Tábua, Braga, Leiria, Almeirim ou Portalegre. Um formato imersivo, pensado para a proximidade, onde o público é convidado a entrar no universo do álbum e as canções ganham espaço para serem sentidas de perto, com a honestidade e intensidade que definem esta fase”, refere a descrição do espetáculo. 

A 28 de fevereiro, a cantora atua no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, e a 15 de abril sobe ao palco do Teatro Maria Matos, em Lisboa
Em ambos os espetáculos, Carolina de Deus leva consigo convidados especiais. Na sala portuense a cantora vai estar acompanhada por Ricardo Liz Almeida (Os Quatro e Meia) e para o espetáculo de Lisboa Carolina de Deus vai convidar a cantora Nena
 

Entrevista a Carolina de Deus


O disco chama-se "Feliz(mente) Triste", com "mente" entre parênteses. Creio que esse pormenor guarda uma série de reflexões. O que é que guarda?

Sinto que este álbum acaba por ser um convite para aceitarmos todas as facetas que temos, as boas e as más. Já pensei, muitas vezes, que era uma pessoa só sensível ou só frágil. Mas, na verdade, acabei por perceber que sou muito mais que isso. Portanto, é um pouco a dualidade que somos. Podemos ser felizes mas também podemos ser tristes. A ideia é ler o título como "Felizmente Triste". Ou seja, sou uma pessoa felizmente triste porque os momentos maus, quando estou mais em baixo, são precisamente os que me tornam mais forte. São os momentos que me dão as ferramentas para avançar. Depois decidi pôr o "mente" entre parêntesis por causa da questão da saúde mental, que é um tema bastante abordado neste álbum. 
 

E é um assunto que realmente deve ser debatido. Mas agora, pegando nas contradições de que falas e nos paradoxos que somos e que nem sempre conseguimos encaixar, como foi o processo de chegar ao lugar onde chegaste?

O processo de preparação e gravação do álbum durou três anos. E foram três anos muito intensos, muito introspetivos. E muito emotivos também. O conceito do álbum só apareceu mais tarde porque, ao longo do processo, senti muitas coisas e cheguei a duvidar muito de mim. É certo que também aprendi imenso mas também me martirizei por achar que ia ser sempre uma pessoa muito sensível. E agora dou por mim a ser uma mulher cada vez mais forte e consciente. Foi isto que estes três anos de trabalho me ensinaram. Escrever todas estas músicas ajudou-me a chegar a esse lugar. 

O que aprendeste será, certamente, importante para o resto da tua vida... 

Sem dúvida. Aprendi muita coisa. E acho que ainda estou a aprender.  Passei mal em alguns momentos. Falo em relação ao álbum mas também em relação a outras coisas. Mas lembro-me que quando me sentia mais sozinha ou mais desesperada pensava: "oh, meu Deus, calma." E saía dessas fases. Mas antes disso achava que o mundo ia acabar e que era uma pessoa fraca. Achava que iria ser sempre assim. Mas acabou por não ser sempre assim. E à medida que o tempo foi passando, percebi que tinha cada vez mais facilidade em lidar com certas coisas. Fui abraçando cada vez mais as fases más. Fui tendo mais calma a lidar com esses momentos e comecei a ter mais paciência comigo própria.      

Partilhas isso com a tua arte, nas entrevistas que dás. Pessoalmente, acho que essa partilha é um grande sinal de força. Quando abres o coração dessa forma, sentes-te completamente à vontade ou há algum tipo de resistência que tens de ultrapassar? 

Acho que, na maioria das vezes, estou à vontade. E tenho vontade de falar sobre estes assuntos. Nem é falar, é cantar sobre estes assuntos. Sinto que as músicas já dizem muito. E isso faz com que não tenha de desenvolver especificamente tudo o que está nas canções. Acho que está tudo muito claro. Mas também há momentos, sobretudo quando me sinto mais insegura ou estou mais preocupada, em que me sinto mais desconfortável [a fazer essas partilhas]. Começo a pensar no que os outros vão pensar, por exemplo. Sinto que estou sempre a cambalear um pouco do estado feliz para o triste e do confiante para o insegura. Por isso, vai variando.

E é tão bom partilhares porque há tanta gente que se identifica com o que sentes. Acabas por ajudar essas pessoas, creio eu. Sei que abriste um canal oficial no WhatsApp para poderes partilhar informações, mais pormenores e pensamentos sobre o álbum. Como é que foi essa experiência mais próxima, mais comunitária? 

Foi ótima. Adorei. Dei por mim sentada na secretária do meu quarto, a fazer vídeos, a explicar certas músicas e a explicar o conceito do álbum. Estava completamente à vontade para ser honesta. Saiu-me tudo o que queria dizer e o que tinha de dizer para que quando as pessoas fossem ouvir o álbum pudessem percebê-lo. Aconteceu tudo de uma forma muito espontânea. E acho que as pessoas sentiram isso. Sinto-me muito bem por saber que nesse grupo estão os fãs que me são fiéis e que estão mais atentos [ao que faço] Sinto-me bem por saber que essas pessoas estão por dentro das coisas. 

E houve algum tipo de feedback que te tivesse marcado de alguma forma? Seja uma frase, um comentário. Houve algo que te tenha tocado mesmo no "nervo"? 

Recebi algum feedback sobretudo na forma de partilhas muito pessoais. Principalmente em relação a assuntos relacionados com a saúde mental ou com desgostos amorosos. Há algumas canções que têm a ver com o desgosto de amor, como é o caso de 'Tu Não Fazes Ideia'. Houve pessoas que partilharam comigo problemas como o distúrbio alimentar ou a depressão. Isso acontece muito. Já acontecia quando lancei o [single] 'Três e Meia'. Na altura, também recebi uma onda de partilhas e de mensagens. Espero que as pessoas se sintam abraçadas e menos sozinhas quando ouvem estas músicas. Eu acho que isso acontece. Se não acontecesse, não perderiam tempo a mandar mensagens sobre o efeito que determinada canção teve nelas ou sobre o que certa canção lhes deu. 


Essa canção tem a participação do Ricardo Liz Almeida (Os Quatro e Meia). Também tens o Jimmy P neste disco, mas já lá vamos. Agora gostaria de saber como é que aconteceu a parceria com o Ricardo numa canção que acaba por ser tão importante quando falas das questões relacionadas com a saúde mental.

Sinto que foi obra do destino. Quando estava a gravar a música com o João André, o meu produtor, não estava propriamente a pensar muito na ideia de um dueto. Mas depois começámos a pensar numa forma de dar mais força à música e também queríamos universalizá-la um pouco. Queríamos que fosse quase um “hino” sobre o tema da saúde mental. Então, eu e o meu produtor pensámos na ideia de haver um bom artista masculino na segunda parte da canção. E acabou por ser muito engraçado, porque, depois de pernsarmos no assunto durante cerca de três minutos, dissemos o nome do Ricardo ao mesmo tempo. Ficou decidido naquele momento. E o Ricardo aceitou. Foi incrível.  

E como é que o Jimmy P entra no álbum? Também foi assim? (risos)

Não, com o Jimmy P não foi assim. (risos) Mas também foi de uma forma muito gira. O Jimmy também trabalha com o meu produtor. Grava com ele. Houve um dia em que eu estava no Porto a trabalhar com o João André e o Jimmy foi assistir à sessão. Eu estava super nervosa. Mas ele lá foi e ouviu-me gravar o 'Domingo à Noite'. Às tantas, disse-me que a canção era “um grande som” e que adorava a forma como eu escrevia. Foi então que lhe disse que a música não estava acabada porque precisava de outra pessoa para completar o tema. E ele disse-me que adoraria participar na canção. Não queria acreditar que aquilo estivesse aacontecer. Mas o Jimmy efetivamente disse-me que gostaria de participar e eu desafiei-o a escrever alguma coisa. Ele demorou apenas cerca de oito minutos a escrever a parte dele. Quando ouvi o que tinha escrito fiquei maluca com o resultado e super feliz. E foi assim que nasceu a nossa colaboração. 

Pode abrir caminho a outras colaborações com pessoas que não estejam propriamente no teu universo musical. Achas que seria boa aposta? 

Espero que sim. Gosto muito de misturar mundos musicais diferentes. E acho que estes dois mundos em particular acabaram por se complementar. Acho que foi isso que aconteceu.

O que é que achas que o Jimmy P deu ao álbum? 

Eu gosto muito dele. Gosto muito do flow de rapper que tem. Sinto que encaixou na perfeição na música. E também adorei a parte da letra que escreveu. Porque é uma canção muito virada para o tema da mulher empoderada. E sinto que as duas participações masculinas tiveram o papel de empoderar a mulher. Acho que o Jimmy acaba por fazer isso na letra que escreveu quando assuma culpa e os erros que cometeu. Achei que foi uma coincidência muito boa. Fiquei muito feliz com o resultado. Parecia que estávamos todos no mesmo barco. 

Na mesma frequência, tudo muito encaixado…

Sim, exato. 

Agora vamos falar da tua digressão por auditórios. Percebi que queres criar um formato imersivo, próximo do público... 

Exato. 

O que é que podes contar sobre os espetáculos? 

Estes espetáculos estão criados para que as pessoas possam mergulhar no meu diário. A ideia é criar esse ambiente de intimidade. É um ambiente de proximidade e acaba por ser um ambiente um pouco direto. Não digo isto por estarmos super próximos uns dos outros, mas porque o público terá mais espaço de intervenção do que teria num concerto normal. As pessoas que forem a estes espetáculos vão perceber coisas que num concerto normal não perceberiam. E depois vamos brincar com o cenário e com os interlúdios. Queremos que as pessoas consigam receber a mensagem da maneira mais real e próxima daquilo que era a minha cabeça na altura em que escrevi as músicas. O objetivo é mesmo esse. Quero que as pessoas viajem pelo processo todo do álbum e, no fundo, por essa fase da minha vida, digamos assim. 

Datas da digressão: