Carolina Deslandes cantou-nos a sua história na Altice Arena

Sala cheia ontem à noite para receber Carolina, as suas canções e uma mão cheia de amigos.

A ampla sala lisboeta encheu para a celebração dos mais de dez anos de canções de Carolina Deslandes. Noite fria e chuvosa lá fora mas quente e com a leveza da primavera lá dentro. Milhares quiseram acolher a corajosa, emocional e honesta Carolina que ontem pisou pela primeira vez o palco da maior sala do país em nome próprio. Não o fez, porém, sozinha. Consigo levou mais nove músicos e seis distintos convidados/amigos: Diogo Clemente, Van Zee, Soraia Ramos, Bárbara Tinoco, Diogo Piçarra e Agir - cada um deles também protagonista da história da conversadora Carolina que quis partilhar o foco com os que a acompanham na vida, nas canções e nas tábuas do palco. 

13 anos de canções e no bolso uma mão cheia de discos, dois editados este ano, em formato duplo: o apaziguador e mais recente "Calma" e o confessional e revolto "Caos", lançado em março. Os álbuns mais recentes foram sendo desembrulhados ao longo do concerto mas não foram os únicos que a cantora incluiu na folha do alinhamento - um rascunho que certamente guardou na caixa de boas recordações assim que chegou a casa. 

Outras experiências discográficas, como "Casa" ou o EP "Mulheres", que Carolina Deslandes criou "como um grito" contra a violência contra as mulheres foram resgatadas para a ocasião que também celebrou a bonita conexão entre a cantora e quem a escuta.  
   
A arena lisboeta começou a vestir-se de gente ainda antes das nove da noite. Em cada um dos lugares, sorrateiramente escondido, estava um papel com a frase "we'll still be here" ("continuaremos aqui"). Em cima da folha, escrito com letras mais pequeninas, lia-se uma instrução: "por favor, levantem este papel na 'Mountains'". Adivinhava-se, portanto, uma experiência interativa, com o público a ter também um papel fundamental na narrativa de Deslandes.

Quando os ponteiros do relógio ultrapassavam as nove e meia da noite - a hora marcada para o início do espetáculo - a sala, vestida dos pés à cabeça de gente, estava mais do que pronta para receber Carolina. Pronta e, por essa altura, já um pouco inquieta. Aplauso imenso quando as luzes, por fim, se apagaram para a entrada da cantora que chegou ao palco de calções e de peito aberto.  

O mais intempestivo 'Raiva' - a faixa que abre "Caos" - abriu o concerto e "incendiou" o palco de três degraus que, volta e meia, era aquecido por uma linha de labaredas. "Boa noite, Altice Arena!", exclamou Carolina assim que se atirou para o tema seguinte. "Quem souber esta cante comigo", gritou antes de entregar a voz a 'Vai Lá' que ontem teve um tratamento roqueiro, com a artista portuguesa a cantá-la entre as chamas, ao mesmo tempo que se movimentava pelo palco e chamava pelo público.     

'Precipícios', que conta com a ajuda de Carlão, veio depois. O músico, que marcou presença apenas no ecrã gigante, mereceu ainda assim um aplauso em massa do público, que ia acompanhando as duas vozes na cantoria. "Altice Arena, quero toda a gente de pé. Vou precisar da vossa ajuda. Quero toda a gente a saltar connosco", pediu a cantora. E assim foi. Toda a gente saltou da cadeira para o final do tema que Carolina foi buscar a "Caos".  

"Sejam muito bem-vindos", disse, num tom acolhedor e de conversa. "Eu não sou uma miúda de espaços grandes", desabafou. "Mas sempre ambicionei ter muito amor e ouvintes que me quisessem ouvir", continuou. "Faz agora 13 anos que lancei o meu primeiro single. Estamos a celebrar 13 anos", acrescentou, claramente entusiasmada com a proeza. "Demora muito tempo até acreditarmos que merecemos um amor como este. Ontem acreditei", rematou, agradecendo à equipa que "se fartou de trabalhar" para montar o espetáculo. "Fico feliz se cada pessoa que vier ao meu concerto se sentir amada e celebrada por ser exatamente como é", sublinhou, convicta, arrancando mais um aplauso do vasto público.  
 
"Caos" continuou a ser mostrado, com 'Conta-me' e 'Paz' que Carolina segurou, com emoção, na voz. 'Adeus Amor Adeus', celebrada com toda a gente de pé, foi a que veio a seguir. Carolina Deslandes cantou-a com a alma jovial e leve, levando os que ali estavam para "Casa" (como disse) - o álbum que editou em 2018 e que foi relembrado, mais à frente, com 'A Vida Toda' - canção com lugar cativo na memória coletiva portuguesa.

'Canção de Amor' foi introduzida com um vídeo que juntou os três filhos de Carolina no grande ecrã, entre risos, bolas de sabão, balões coloridos e uma mensagem para os três rapazes que a mãe babada lhes leu entre canções. A cantora agarrou o tema logo depois mas teve de parar por momentos para recuperar o fôlego. Os que estavam na sala ajudaram com palmas e afeto, enaltecendo, talvez, a forma como Carolina transforma as fragilidades em super poderes.
 
"Está na altura de chamar o primeiro convidado", anunciou à arena, chamando o músico e produtor Diogo Clemente, o pai dos três filhos que, orgulhosamente, mostrou momentos antes. Ao lado de Diogo, cantou, claro, 'A Vida Toda', que lembrou ter sido composta numa altura em que "não tinham guito" mas andavam com os bolsos cheios de sonhos.  

 

Com 'Brincar de Ser Feliz', ainda com Diogo Clemente no palco, retornou a "Calma" para depois ir buscar ao alinhamento 'A Vida Toda 2'. "A próxima faz parte do álbum 'Caos' e serve para responder à pergunta 'então não era pá a vida toda?'", confidenciou Carolina ainda com Diogo ao lado. "Essa pergunta já é uma piada nacional", exclamou. "Esta canção é a resposta a essa pergunta. Uma resposta pedagógica. É uma das minhas canções preferidas", disse antes de dar voz ao tema com a arena agora "submersa" em tons avermelhados.

A delicada 'Nuvem', que compôs para o avô, foi cantada ao som do piano e no escuro que estava apenas alumiado pelas lanternas dos telemóveis. O momento rasgou o sorriso de Carolina que, enquanto cantava, olhava para a imensidão de gente que tinha aos pés com a mão ao peito e grata por este capítulo da história que continua a escrever. "Deve ser das coisas mais bonitas que fiz na minha vida", confidenciou, quase a sussurrar, no final da canção. 'Avião de Papel' - outra visita a "Casa" - meteu toda a gente na arena a balançar os braços. 'À Tua Porta' meteu em cena o rapper Van Zee. O madeirense foi o segundo convidado a subir ao palco lisboeta para cantar com Carolina o single de "do.mar", o álbum de estreia que o rapper lança hoje.

O interventivo 'Saia da Carolina' soltou-se para "cerrar o punho ao patriarcado" e homenagear a força vital das mulheres, a começar pelas que protagonizam a história da cantora que as homenageou com um vídeo projetado no ecrã e com a força das convicções que segura na vida, com a mão apertada.  

"Meu Deus do céu", exclamou. "Hoje é a primeira vez que uma mulher portuguesa a solo, fora do fado, enche a Altice Arena. Quem me dera que isto tivesse acontecido há mais tempo. Mas mostra que há uma geração que está a mudar as coisas", continuou, celebrando as "mulheres livres, capazes, que escolhem o que fazem com o corpo e com a liberdade".

Soraia Ramos entrou no palco para dar corpo, alegria e ginga ao dueto 'Olha Pra Nós' e, logo depois, 'Por Um Triz', só com Carolina, acalmou a arena que por essa altura voltou a estar iluminada com as lanternas dos telemóveis, a lembrar um céu coberto de estrelas.

"Para acabar a noite de hoje, quero dizer-vos que a coisa mais maravilhosa do mundo está aqui. É inacreditável estar aqui, acompanhada por amigos de há anos. É isso somado a milhares e milhões de átomos que se encontram em algum lugar. Nunca meti droga nenhuma mas deve ser alguma coisa parecida com isto. Obrigada por uma das noites mais bonitas da minha vida. Obrigada por me ouvirem e por me prestarem atenção", disse ao público que respondia, efusivo, com palmas e gritos de carinho.

A seguir à nota de agradecimento, Carolina cantou 'Coisas No Silêncio' ao lado da amiga e confidente Bárbara Tinoco. Uma onda de gritos eufóricos recebeu depois Diogo Piçarra que apareceu quase no final do concerto para partilhar o tema 'Anjos' com Carolina. Agir chegou para dividir o mais antigo 'Mountains' que, talvez por ser a grande relíquia do espetáculo, ficou guardado para o final antes do forte encore que deu espaço a três canções. 

Emocionada, sem segurar as lágrimas, Carolina cantou 'Trauma de Abandono' no meio do público. "Tudo o que vivemos hoje tem toda a minha alma e o meu coração", disse já perto do final. "Estou muito feliz, o meu nome é Carolina e é sempre um prazer".

O concerto acabou com Eco, o manifesto convicto sobre a urgência da empatia, e 'Não Me Importo'.