Carolina Deslandes: "este é o meu único disco com heterónimos"
Está cá fora o novo álbum "Chorar no Club", com 24 canções, uma por hora.
Saiu nesta quinta-feira aquele que é talvez o álbum mais ambicioso de Carolina Deslandes, “Chorar no Club”, com uma bula farmacêutica que receita 24 canções, uma para cada hora diferente. Em entrevista à nossa rádio, a cantora portuguesa explica que “o disco não começou pela ideia, foi uma consequência e foi a primeira vez que eu fiz isso assim. Normalmente, à segunda canção, consigo perceber para que temática me estou a dirigir e o resto do disco é pensado dessa maneira. E neste disco não foi isso que aconteceu. Eu juntei-me com produtores diferentes, foram-me saindo coisas diferentes, mas que eu sentia que pertenciam todas ao mesmo universo. Apesar de falarem de coisas completamente opostas e com produções que não têm nada a ver, continua tudo a ser eu e é tudo escrito e composto por mim e esse seria o fio condutor do disco. Então eu pensei, ‘como é que eu ponho a funcionar 24 canções?’, que não eram 24, eram mais na altura, que não têm nada a ver. Comecei a pensar que cabiam todas dentro de um dia, em que pode acontecer todo o tipo de coisas e tu podes te sentir de mil maneiras diferentes. E então veio esta ideia, quando ficámos com 24, de ficar uma por hora e de ter um horário à frente de cada canção para dar uma canção por cada hora do dia. E é recomendado o consumo dentro daquelas horas e tem também uma bula do disco que explica os efeitos secundários do disco e como é que se deve tomar o disco, com os componentes químicos, entre aspas, de cada canção. Foi o conceito de receitar canções em vez de se receitarem remédios”.
Todo o processo de “Chorar no Club” durou "quase dois anos. Eu não usei nada daquilo que já tinha porque acabas eventualmente por ficar com canções por usar nos projetos. Acaba por ficar uma de fora, ou duas. E este foi o disco que deixei mais canções por usar até agora. Mas como eu nunca tinha trabalhado num disco com vários produtores, sempre tive um produtor por disco e no máximo um co-produtor que ajudava o produtor. Senti-me muito estimulada criativamente por estar a trabalhar com pessoas tão diferentes e isso trouxe muitas coisas em mim. O que eu fazia era um álbum por produtor, que era aquilo que eu estava habituada a fazer. E foi mesmo muito divertido. A parte mais difícil para mim foi reduzir para 24 canções. Foi mesmo complicado”, reconhece a cantora.
Mas houve mais mudanças na metodologia de Carolina Deslandes. “Neste disco criei personagens, como não é costume. Foi muito divertido puxar-me para temáticas que não são necessariamente autobiográficas. O ‘Café Negro’, que é uma canção que até tem um sample de funk, não é autobiográfico. Aquilo foi mesmo um exercício de diversão. E depois, como eu gosto muito de jogar com as palavras, também me tenho desafiado a criar histórias fictícias que me ajudem a criar um jogo interessante de palavras a nível fonético e de escrita também. Este é o único disco com heterónimos porque, efetivamente, eu consigo ver traços meus em todas as canções, mas não são todas autobiográficas’.
O álbum pode não ser autobiográfico, mas o título sim. “Chorar no Club” é algo que aconteceu muito a Carolina, que tem um longo passado profissional ligado à noite e ao entretenimento entre a meia-noite e as cinco horas da manhã em muitas festas. “Eu acho que as pessoas quando trabalham na noite percebem: as discotecas são muitas solidões somadas em que muitas vezes vais para ali para te esqueceres de coisas que se estão a passar em tua casa. Ninguém sabe de onde é que as pessoas vêm quando chegam todas ao mesmo sítio. E fui sair muitas vezes triste, com desgosto de amor, com problemas de família, a ter um dia mau e chorei muito no clube. Quem nunca? E quem nunca entrou toda divertida e de repente toca a música errada e tu estás com saudades de uma pessoa e bate uma lagriminha? Toda a gente sabe o que isto é”.
A digressão ao vivo de “Chorar no Club” começou antes do próprio álbum sair. “Este disco como desafiou todas as coisas que eu já tinha feito e me tirou completamente da minha zona de conforto, eu já o estreei. Nós começámos a tour antes do disco sair e eu pensei, não vamos estar a fazer dois concertos, um sem músicas novas e outro com as músicas novas. Eu quero mostrar às pessoas, faço música para as pessoas, eu quero ver a reação das pessoas. Há músicas na internet que não têm assim tantos números e eu chego aos fãs do Douro e vejo as pessoas a cantar. E isso para mim é que é uma música que cumpriu o seu propósito, não necessariamente o que o algoritmo me está a dizer. Portanto, nós fomos testando e fomos vendo e fui tendo agradáveis surpresas de achar que uma música ia ser mais orelhuda e as pessoas, afinal, estão a cantar mais outra. Lembro-me de achar que aquela música ia ser mais impactante e as mensagens que eu recebo é sobre uma outra que eu não estava à espera. Agora, o nosso palco simula o interior de uma discoteca, com bolas de espelhos. Gravámos conteúdos novos, os próprios arranjos são assim mais a puxar ao ‘disco’. Agora o que vai acontecer é que as pessoas vão ver os concertos e já podem ouvir as músicas antes em casa, em que podem vir cantar connosco, que também vai ser divertido”, enquadra Deslandes.
‘Armas e Rosas’ é a faixa que abre o disco de Carolina Deslandes, que evoca os Guns N’ Roses, citando o refrão da versão da banda de um original de Bob Dylan, Knockin' On Heaven's Door’. “Gosto de Guns N' Roses. É um clássico mas não sou assim uma grande conhecedora da obra. Achei sempre fixe este trocadilho do ‘Knock Knock Knockin' On Heaven's Door’, porque é uma coisa associada ao prazer sexual, de se atingir o nirvana, o paraíso. Achei que era giro esse trocadilho de estares com uma pessoa e atingires o clímax. Todos os fãs de rock vão pensar: ‘o que é que esta gaja está a fazer, a apropriar-se do nosso estilo de música preferida?’. Até aqui esta pessoa vem contaminar’”.
