Casa Capitão, o novo viveiro cultural de Lisboa

Abre esta sexta-feira o espaço multi-disciplinar com um festival gratuito de três dias. Entrevista ao diretor Gonçalo Riscado.

Mais do que uma reabertura, hoje é mesmo o dia de abertura em pleno da Casa Capitão, no Beato, em Lisboa, como um espaço de quatro pisos que ambiciona ser um viveiro de cultura multi-disciplinar, que vai da muita música às artes plásticas, ao teatro, à literatura, e não só.

Em entrevista à nossa rádio, o diretor da Casa Capitão, Gonçalo Riscado, conta “com um espaço cheio de programação cultural e com imensa vontade de receber pessoas para que, à volta de programas de cultura, se encontrem e ocupem o espaço como se fosse uma casa. E sexta-feira, dia 19 [hoje], é o tiro de partida para esta aventura de um minicentro cultural que queremos muito participado na cidade de Lisboa”. 

Gonçalo Riscado

A equipa da Casa Capitão e os equipamentos transferem-se do clube de boa e recente memória Musicbox, tal como contextualiza Riscado: “a nossa estrutura está muito habituada a fazer programação cultural, essencialmente na área da música. Mas, ao longo do tempo, temos feito muitos projetos que vão ao audiovisual, à literatura, à performance e procurávamos um espaço onde pudéssemos concentrar tudo, juntar diferentes públicos, trabalhar de dia e de noite. E esta ideia de projeto de um espaço sempre presente na cidade de Lisboa está a germinar já há oito anos. E, por isso, toda esta estratégia de programação cultural e de abertura à participação das pessoas tem sido pensada há muito tempo e acreditamos muito que vai funcionar. Temos vários espaços de pequena e de média dimensão. Iremos da nossa sala principal para quatrocentas pessoas, no sótão um concerto tem capacidade para cem. O pátio pode ter uma atividade pra vinte. O terraço para algumas mais. E é muito interessante, estas várias pequenas escalas que nos permitem estar muito próximos daquilo que é a cultura de base, que é o nosso terreno principal de pesquisa e de envolvimento com as pessoas". 

Gonçalo Riscado

Os quatro pisos e os vários espaços sustentam esta convicção de uma espécie de centro cultural. “Temos muito espaço e muita programação. Não são espaços gigantes. Quando falamos de um centro cultural, normalmente falamos em auditórios muito grandes e espaços deste imaginário. A nossa ambição é contribuir para provar que estes espaços independentes, de estruturas e de construção alternativas, próximos da cultura de base são essenciais e têm muita participação das pessoas. E a ambição é que estes espaços se possam replicar, porque eles são muito necessários em todas as cidades. Quanto maior for uma cidade, mais espaços destes precisa. Não têm todos que ter a escala que nós temos, mas, no fundo, queremos ser grande contributo para provar que politicamente é preciso incentivar e apoiar espaços com estas características. Se temos a ambição de fazer um bom trabalho e de conseguir juntar pessoas e isso ser relevante culturalmente, sim, temos essa ambição”. 

A Casa Capitão já tinha uma existência mais modesta e longe do seu uso pleno. Por essa razão, Gonçalo Riscado defende que o dia de hoje de é abertura da Casa Capitão e não de reabertura. “É abertura porque a existência da Casa Capitão foi um pop-up imprevisto, porque aconteceu uma pandemia. E na altura, o espaço já nos tinha sido atribuído. Estávamos num processo de trabalhar a parte de arquitetura e de adaptação deste espaço, que eram casas. Quando acontece a pandemia, tínhamos ali o terraço. Só era possível fazer coisas ao ar livre. Os espaços culturais estavam fechados. E então, numa decisão quase instantânea e unânime entre a equipa, resolvemos tirar os equipamentos de dentro do Musicbox, colocá-los na rua e conseguir dar continuidade à programação cultural. Portanto, chamamos pop-up àquela existência que no fundo foram dois verões da pandemia. No segundo ano, em 2021, começou na primavera. Mas aquele não era o projeto inicial. E aliás, nós tínhamos alicerçados um restaurante de churrasco, com palco no fim das mesas. Permitiu-nos fazer muita coisa. No segundo ano, foram permitidas fazer algumas coisas no interior, e pudemos exercitar muita da programação que queremos fazer e trazer agora para a casa, que já estávamos a pensar, a nível dos workshops, de debates, de artes plásticas, da performance, teatro. Mas não deixou de ser um pop-up. Portanto, nada do que ali se passou tinha o formato final que é aquilo que trazemos agora. Entretanto, terminou a pandemia, tivemos que completar o projeto, tivemos que o conseguir financiar, porque, é no pós-pandemia. Como sabemos, os custos de construção aumentaram muito consideravelmente. E este agora é o projeto que nós começámos a pensar há oito anos, que teve a infelicidade de ter que fazer um pop-up porque aconteceu uma pandemia, mas, por outro lado, a felicidade de já ter experimentado um contacto com o público e exercitado aquilo que queríamos fazer em termos desta programação”. 

A festa de abertura é, em bom português, de arromba e de graça. “Vamos começar com os concertos de G Fema e Capicua e é a primeira vez que o nosso palco principal vai, vai funcionar. Mas também olhando para sexta-feira, temos a inauguração de um projeto pelo qual temos muito carinho, que é o nosso quiosque, que é o nosso espaço de programação através de livros. E a primeira curadoria da Mesa de Cabeceira, que é a rubrica de seleção de livros, organizada pela Joana Guerra Tadeu. E na sexta-feira faremos a inauguração desse espaço também. Aliás, estamos a inaugurar todos os espaços da casa. Vai ser interessante as pessoas poderem experimentar concertos às onze da manhã. A ideia é que a casa funcione de dia e de noite. Temos vários workshops, temos uma instalação, temos muita música. Vamos ter cinema, ou melhor, projeção de vídeo, porque não temos projetor de cinema, mas teremos boa qualidade de projeção de vídeo. Acho que vai ser uma ótima oportunidade para conhecer todas as valências da casa e percebermos que, acho que nela nos vamos sentir muito bem, e será mesmo um espaço de encontro e de encontros, na cidade de Lisboa”. 

A Casa Capitão é um espaço municipal de Lisboa, cujas obras de requalificação foram asseguradas pela estrutura co-dirigida por Gonçalo Riscado, cujo investimento funciona como abate no pagamento da renda.

Capicua, Luca Argel, Afonso Cabral (dos You Can’t Win, Charlie Brown), Vaiapraia ou os Conferência Inferno são os nomes musicais sonantes desta festa de abertura, que mostra logo o carácter multidisciplinar e até intergeracional da Casa Capitão, incluindo a formação de públicos, através de workshops para crianças, como o caso da encadernação artesanal sob a batuta da Nómada Notebooks.

A programação musical da Casa Capitão da restante temporada prossegue nos meses seguintes com nomes como Eu.Clides, David Bruno, Water from your Eyes, The Hidden Cameras e Destroyer

Podem ver no site oficial a agenda completa da programação completa da Casa Capitão.