Casa onde morou Hitler transformada em esquadra de polícia

Hitler viveu nesta casa, localizada na Áustria, durante três anos

A casa onde nasceu o ditador nazi Adolf Hitler na Áustria reabriu esta quarta-feira como esquadra de polícia, após uma renovação para despojar o edifício do peso simbólico e impedir que se tornasse um local de peregrinação para neonazis.

A partir de hoje, o edifício alberga o novo centro de polícia da cidade de Braunau am Inn e as instalações da Academia de Segurança, onde vão decorrer cursos de formação para polícias, incluindo disciplinas sobre direitos humanos.

Com a nova função, o Governo austríaco pretende integrar o edifício nas estruturas de um Estado democrático, visto que a casa estava associado ao nascimento de Hitler, o ditador que mergulhou o mundo na Segunda Guerra Mundial e foi responsável pelo Holocausto em que foram assassinados milhões de judeus.

A renovação transformou completamente a aparência exterior do edifício: o antigo revestimento amarelo, desgastado pela humidade e pelo tempo, foi substituído por uma fachada branca.

O projeto arquitetónico vencedor foi inspirado na provável aparência do edifício no século XVII, quando foi originalmente construído.

O edifício, com uma fachada simples e um aspeto funcional, possui doze janelas na parte frontal.

Ao instalar uma esquadra de polícia no local, as autoridades visam impedir que grupos neonazis o visitem para manifestar admiração por Hitler — um ato considerado crime na Áustria, país anexado pela Alemanha nazi entre 1938 e 1945.

Adolf Hitler nasceu na casa a 20 de abril de 1889, embora tenha vivido ali apenas durante os primeiros três anos, antes da família deixar Braunau, cidade que hoje tem 17.500 habitantes e que se situa a poucos quilómetros da fronteira alemã.

Reuniões de nazis — e, mais tarde, de grupos neonazis após a Segunda Guerra Mundial — tiveram lugar em Braunau am Inn desde a década de 1930.

Segundo noticiou na semana passada o semanário alemão Der Spiegel, pouco antes da reabertura do novo edifício, organizações envolvidas em crimes informáticos manipularam a aplicação Google Maps substituindo o número da morada na Salzburger Vorstadt 15 — onde se situa a casa — pelo número 88, um algarismo considerado um código nazi para "Heil Hitler", uma vez que a letra H é a oitava do alfabeto.

Ao buscar o número 88 nas aplicações digitais, abria-se um outro mapa identificado como "HH88" — sigla para "Heil Hitler 88".

O distintivo da polícia austríaca foi colocado sobre a entrada principal, enquanto o memorial pelas vítimas do nazismo instalado em 1989 permanece frente ao edifício.

O monumento tem a inscrição "Pela paz, liberdade e democracia. Fascismo Nunca Mais. Milhões de mortos servem de alerta".

A inauguração do posto de polícia encerrou décadas de debates sobre a utilização de um edifício carregado de simbolismo — um local que alguns intelectuais e historiadores austríacos citaram como exemplo da luta da Áustria para confrontar o passado nazi.

Desde a década de 1970 que o Estado austríaco alugava o edifício para evitar que se tornasse um local de glorificação do ditador nazi.

A casa estava vazia desde 2011, quando uma organização não governamental que utilizava o espaço há vários anos para cuidar de pessoas com deficiência intelectual desocupou o imóvel.

Após tentativas falhadas de se chegar a um acordo de compra com o antigo proprietário, o Estado expropriou a propriedade em 2016.

Uma comissão de peritos criada para determinar o futuro do edifício recomendou que se destinasse a uso social, de beneficência ou administrativo, argumentando que transformá-lo num museu dedicado a Hitler poderia aumentar ainda mais o apelo aos grupos extremistas, enquanto a demolição significaria apagar um período incómodo do passado.

As autoridades optaram por convertê-lo numa instalação policial — uma decisão anunciada em 2019 que exigiu um investimento muito superior às estimativas iniciais devido a atrasos na construção.

O custo do projeto, originalmente orçado em cerca de cinco milhões de euros, subiu para quase 20 milhões.

A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) provocada pelo regime nazi liderado por Adolf Hitler fez, segundo os historiadores, entre 70 a 85 milhões de mortes, incluindo o genocídio sistemático de seis milhões de judeus, ciganos, homossexuais e opositores políticos.