"Casa Pequena": subida finda para os Capitão Fausto

Banda estreia-se na ficção cinematográfica, com o velho cúmplice Ricardo Oliveira na cadeira de realizador.

O cineasta Ricardo Oliveira prossegue a sua sequência de colaborações com os Capitão Fausto. Depois de vários videoclipes, dois filmes-concertos e um documentário, Ricardo Oliveira filma a banda amiga agora como participante ativa numa ficção, “Casa Pequena”, desde hoje em exibição nas salas de cinema.

Nesta longa-metragem, os Capitão Fausto almejam uma polivalência quase ao nível de Charles Chaplin (que fazia tudo e mais alguma coisa em alguns dos seus filmes): a banda coassina o argumento, trata da produção, representa e ainda compõe a música. A cadeira de realizador foi das poucas onde os Capitão Fausto não se sentaram.

A trama é rodada na Serra da Estrela. Mas a estrela é a casa isolada. Como parte integrante da paisagem austera, está o rochoso e misterioso anfitrião, o Lúcio, encarnado pelo lendário cantor micaelense Zeca Medeiros, que do seu amado Pico (e o seu fascínio pelas sagas dos baleeiros) sobe para o pico continental, nas Penhas Douradas.

São montanhas de fantasmas numa lindíssima “Casa Pequena” onde os espanta-espíritos não fazem o seu trabalho, deixando-a à mercê de forças estranhas. Apanhámos os Capitão Fausto bem sedentarizados na morada atual da editora Cuca Monga (a poucos metros da Avenida de Roma). O amigo Ricardo Oliveira apanhou-os nomadizados e ainda como os Fab Five de Alvalade. Nesta conversa, Ricardo Oliveira passa também para o lado das luzes da ribalta.

Como é que surgiu a ideia para este filme? 
Tomás Wallenstein - Já foi há muito tempo. Há que dizer que o Ricardo e os Capitão Fausto têm uma relação de trabalho e de amizade muito antiga. O Ricardo fez quase todos os nossos videoclipes. Já tínhamos feito outros tipos de colaborações. Fez um documentário sobre “Os Capitão Fausto Têm os Dias Contados”, o nosso disco. Fizemos um filme-concerto, que é o “Sol Posto”, em 2020. Na altura da pandemia, fomos filmar a Melides. Há o concerto do Campo Pequeno com orquestra. Portanto, é uma relação que nós podemos intitular de prolifera. Já havia esta ideia no ar há algum tempo e se não me engano, começamos a reunir para ter ideias sobre isto ainda em 2020. Antes disso tudo, há um desafio do nosso manager, Paulo Ventura, uns anos antes, que nos desafia que devíamos fazer um filme e que devíamos imaginar o que é que seria o filme dos Capitão Fausto e com quem é que o faríamos.

A narrativa partiu de quem? 
TW - Nós juntámo-nos no início para discutir um bocadinho a história. Acho que houve uma vontade que fosse alguma coisa que nos representasse a cada um individualmente e como banda, mas também que nos pudesse também afastar da realidade. Ou seja, eu acho que o filme tem uma componente um bocadinho biográfica e bastante ficcionada ao mesmo tempo.

Está aqui um bocadinho da realidade da banda? 
Ricardo Oliveira - Quem for ver o filme vai perceber que há ali uma ligação desta casa, onde filmámos, com o Afonso Costa, que foi um político da Primeira República, que é real. Ou seja, há ali muitas coisas que vêm do real e não exclusivamente da vida da banda. Foi muito interessante, porque era importante que houvesse aqui uma ligação emocional, artística e criativa da banda com o filme. E, portanto, o processo de criação foi feito na intimidade, quase como uma espécie de trabalho de grupo escolar. “Tragam ideias”. “O que que tu achas que este filme pode ser?” “O que que achas que esta história?” “O que te anda a preocupar?” E a certa altura, a coisa foi afunilando. As coisas foram sendo contaminadas.

Acham que a natureza e o ambiente à volta do filme também moldaram um bocado o guião e a história do filme. 
RO - Era intenção à partida filmar na Serra da Estrela, nas Penhas Douradas. Não o iríamos fazer se não fosse para absorver alguma carga dramática da própria natureza, no próprio cenário natural envolvente. Mas depois, em termos práticos, também acabou por influenciar bastante, porque não controlamos a meteorologia e, portanto, há cenas a que não chegamos. Mas foi giro ver o filme também a ganhar ali uma dimensão que eu acho que só acontece numa rodagem cinematográfica: “esta cena era com sol, agora vai ser à chuva”.

A casa do filme, que é lindíssima, parece ser escolhida a dedo. 
Domingos Coimbra - Aquela casa está ligada à família do Tomás. E depois também há aqui uma relação simbólica, não só a relação que o Tomás tem com a casa, mas muitos de nós já lá passámos férias também. Eu já lá passei muitas férias com ele e com a sua família. Aquela casa e aquela paisagem estão também ligadas à capa do último álbum dos Capitão Fausto, “Subida Infinita”. Portanto, a imagem que se tem da casa do Fragão do Corvo é a capa do nosso álbum. Eu acho que foi sempre um ponto comum, não sabíamos exatamente quando nem em que contexto que gostaríamos de fazer alguma coisa naquela casa, porque essa casa já é uma das mais elevadas no país. A casa é inacreditável. E, portanto, quando começou a haver também esta ideia de que vamos filmar, que vai ser uma ficção, que vai envolver uma banda, começámos a perceber que podia ser naquela casa, com o contexto de que é uma casa isolada, de que maneira é que isso podia também dar alguns contornos à história que estávamos a construir. 
TW - Na verdade, o filme é completamente escrito para aquela casa e é uma resposta a uma questão de produção. Como é que nós vamos fazer um filme, para onde é que o vamos rodar com os fundos que temos disponíveis, que são limitadíssimos. E, portanto, fomos encolhendo. “Olha, por acaso podemos tentar fazer na casa da minha família, onde eu passo férias” e tal. A ideia vai se moldando a partir desta decisão.

A casa não é assim tão pequena, como no título, não é? 
TW - É, é muito pequena, mas tem muitas divisões. 
Manuel Palha - Projeta uma grandiosidade que não tem lá dentro. 
TW - A própria casa é o ponto de partida. Como todos nós tínhamos ficado sem o estúdio onde estávamos, estávamos sem sítio para trabalhar. A Cuca Monga, a editora que estava na altura a começar a crescer, ficou um bocadinho estrangulada com isso. E, portanto, esta sensação de estarmos nómadas, de estarmos também nós próprios a mudar de casa e tínhamos estado a viver todos juntos. Portanto, o conceito da pertença e do nosso lugar era uma questão muito, muito presente para todos e acabou por fazer muito sentido explorarmos esse tema.

Vocês voltam a ser um quinteto, embora fictício. A vulnerabilidade auditiva da personagem do Francisco Ferreira, o vosso ex-teclista, tem qualquer coisa de real?
TW - Para clareza total… e eu acho que isso também enriquece muito este filme é a própria produção e a própria rodagem. E como nós ainda não controlamos a meteorologia, nós não conseguimos acabar o filme na primeira rodagem. Tivemos um mês e tal a rodar e não o conseguimos acabar. A ideia original era que o filme fosse a prequela da “Subida Infinita”. Mas, na verdade, como não o conseguimos acabar, filmámos mais uma vez no ano a seguir e estivemos a trabalhar na banda sonora e, portanto, ele acaba por surgir agora. Está ligado à “Subida Infinita” como a sua prequela e não como uma sequela. Portanto, o Francisco ainda não tinha saído e não volta a juntar-se.

Como é que surge a aposta em Zeca Medeiros, o lendário cantor dos Açores?
MP - Nós já tínhamos trabalhado e partilhado palco com o Zeca Medeiros. Relembra-me onde foi? 
DC - Foi numa celebração de 25 de Abril, no Terreiro do Paço [em Lisboa]. Foi uma experiência para nós, miúdos, incrível, talvez nos quarenta e cinco anos [da liberdade]. Ficámos com uma amizade que apesar de não falarmos assim diariamente, nem pouco mais ou menos, criámos uma grande amizade. O Zeca é um contador de histórias e uma pessoa interessantíssima. E foi sempre uma pessoa que nos marcou e que ficou connosco. E quando estávamos a construir o personagem, muito rapidamente chegamos ao nome do Zeca Medeiros e ao sonho de “será que ele quer fazer isto connosco? Ia ser incrível”. A escrever, já estávamos com esta ideia de que o Lúcio ia ser o Zeca Medeiros e acho que não havia outra pessoa no nosso imaginário que pudesse fazer aquele personagem.

O carisma dele é incrível. 
DC - Sim. E a voz incrível. É um grande profissional, um grande, grande amigo e uma grande companhia.

E dá aquele peso sombrio ao filme. 
DC - É que eu acho que ele tanto consegue carregar um peso enorme, como depois consegue ser gentil e leve.

Há quase que uma afinidade entre ele e o Francisco, no sentido em que parecem ser as personagens mais misteriosas do filme. Concordam? 
RO - Acho que há ali uma ligação entre aquelas duas personagens, mesmo que seja só, numa primeira fase, um bocado circunstancial. Há ali um momento em que eles os dois ficam sozinhos em casa e há uma ideia de cena que eu gosto muito que é haver ali um assobio que surge e que depois é transformado numa música, ou que começa a ser trabalhado como uma ideia para uma música. Em relação ao mistério, eu diria que é um bocado um mistério, em relação a quase todas as personagens do filme, não apenas em relação à personagem do Zeca e do Francisco. Digamos de um ponto de vista melodramático, o Zeca é aquele eixo central para onde os mistérios do filme vão gravitando.

Como é que se sentiram a compor para a banda sonora do filme “Casa Pequena”?
DC - O processo foi giro, montámos uma tela improvisada e os instrumentos em meia-lua, muitas vezes para acompanhar as imagens. E nós estamos muito habituados nesta coisa de fazer canções, delas serem uma finalidade em si. E eu acho que a escrita, a composição para cinema tem uma outra dimensão, que é a dimensão do complemento, de haver uma função utilitária, de servir não só o filme, como a sua estética, a sua linguagem. E, portanto, eu acho que isso nos fez às vezes sair das normas mais conservadoras da escrita, em termos de estrutura, da composição. Deu-nos para ser mais camaleónicos e se calhar experimentar mais. Portanto, nesse sentido foi um processo divertido. 
RO - Foi das melhores prendas que se pode dar a um realizador, é uma grande banda sonora. Supera as expectativas muito altas que já tinha. É um trabalho musical incrível que os Capitão Fausto fizeram. 
TW - Agradeço a tua gentileza, Ricardo, e acho que estás a ser modesto, porque não estás a falar da parte das dores todas. O processo foi muito interessante para nós, mas também estávamos a aprender a fazê-la. E acho que é, sem dúvida, o trecho musical mais longo que nós já tivemos de compor. Olhando um bocadinho para trás, nós demorámos muito tempo a perceber onde começar, basicamente. Eu lembro-me que só na segunda rodagem é que nós começámos a dizer: "É pá, se isto fosse um bocadinho mais para esta coisa das guitarras acústicas ". E só aí é que apareceu uma imagem do que é que podia ser a banda sonora, e depois ela foi-se construindo por si própria.