Caso BES: Salgado "não tem consciência" de que está num julgamento
Advogado do antigo banqueiro diz que foi aberta uma "página negra na justiça portuguesa".
O advogado de Ricardo Salgado garantiu esta terça-feira, no Campus de Justiça, em Lisboa, que o antigo banqueiro "não tem consciência" de que esteve no início de um julgamento.
O caso BES começa hoje a ser julgado e Salgado entrou pela porta principal do tribunal visivelmente debilitado, sendo ajudado pela mulher e pelo advogado a deslocar-se para o interior do edifício. Neste percurso, foi confrontado por pelo menos um dos lesados do antigo Banco Espírito Santo.
Ricardo Salgado foi depois identificado no interior do edifício para dar início aos trabalhos do julgamento e, já à saída, o advogado Francisco Proença de Carvalho lamentou o que diz ser uma "justiça que humilha".
“Abriu-se uma página negra na justiça portuguesa diante de todo o mundo, porque isto não é só um caso que interessa a Portugal”, afirmou, lembrando que o relatório médico é “perfeitamente claro relativamente à dependência quase total de Ricardo Salgado para as tarefas mais básicas”, nomeadamente a higiene.
“Sabemos como este tipo de casos, com este tipo de pessoas com estas doenças são tratadas no mundo civilizado e ficámos a saber como são tratadas no mundo incivilizado, em que eu achava que Portugal não estava”, lamentou.
Questionado pelos jornalistas no local sobre se Salgado - diagnosticado com doença de Alzheimer - sabia que estava em tribunal, Proença de Carvalho respondeu negativamente.
"Reconfirmámos todos que não, não tem consciência, porque tem a doença que tem e os efeitos são os que são", notou o representante da defesa, que disse já ter apresentado "todo o tipo de relatórios" médicos ao tribunal. No interior do tribunal, Salgado terá conseguido apenas "responder ao nome", errando "a morada e o nome da mãe, tudo bastante ao lado, e a data de nascimento não sabia".
Sobre se Ricardo Salgado voltaria a sair do edifício pela porta principal, o advogado indicou inicialmente que o antigo banqueiro "sairia como entrou", mas tal acabou por não acontecer.
A defesa pedira a dispensa de Ricardo Salgado no julgamento devido ao diagnóstico de doença de Alzheimer, mas o tribunal recusou na semana passada o pedido nos moldes em que foi apresentado, pelo que Ricardo Salgado teve mesmo de comparecer em tribunal.
Hoje, Proença de Carvalho reforçou que a presença do ex-banqueiro no tribunal, segundo o relatório, “seria irrelevante, porque não tem capacidade” cognitiva.
O advogado pediu hoje no início do julgamento do processo BES/GES para que o tribunal faça já a sua identificação formal, dispensando-o de seguida de ficar presente na sessão e de comparecer nas seguintes.
“Gostaria de requerer que procedesse à identificação e que a seguir o dispensasse de ficar na audiência e de comparecer nas seguintes”, afirmou o advogado Francisco Proença de Carvalho.
O antigo presidente do BES, que veio acompanhado pela mulher Maria João Salgado devido ao seu diagnóstico da doença de Alzheimer, é um dos arguidos presentes na sala de audiência, que se encontra praticamente completa com advogados, arguidos, comunicação social e público.
A presidente do coletivo de juízes, Helena Susano, perante a falta de oposição de Ministério Público e assistentes, autorizou o ex-banqueiro a deixar a sala de audiência pelas 10h25.
Entretanto, vários advogados pediram também que os seus clientes fossem julgados na sua ausência.
