Cem músicas sem medo

Imaginamos o global cancioneiro a descer a Avenida da Liberdade, em que quase cada verso é um slogan que merece uma faixa.

O mundo musical é, por tendência, um ecossistema de liberdade. Há muitos criadores que se debruçaram sobre o assunto, logo de raíz. Mas há outras canções que foram tomadas pelos acontecimentos e cresceram para uma missão maior. 

Selecionamos cem canções (na verdade, mais que cem canções) em cem mil possíveis, num património sem fim, porque é sem fim o desejo pela liberdade. Estas canções estão prontas a descer a Avenida da Liberdade e a percorrer as várias ruas do país no 25 de Abril.    
 
Canções universais pela liberdade
"Acendei de almas e de sóis este mar sem cais"
 
Tudo o que se rebela raramente se torna oficial. O tema polifónico de Fernando Lopes Graça, 'Acordai', tornou-se um hino oficioso pela liberdade, sem estatuto oficial. A música foi primeiramente publicada nos anos 40 (em 1946), quando a ditadura salazarista mal ia a meio. O poema de José Gomes Ferreira tornou-se um catalisador de almas para esse imenso sopro, num grito poético de socorro pela liberdade. Em períodos revoltos da nação, esta música desperta para ajudar a terminar o sono coletivo, em busca da luz que é a liberdade. Também da penumbra da ditadura do antigo regime se ergueu clandestinamente a moda alentejana 'Grândola Vila Morena' (de 1971), inventada por José Afonso, que a censura não percebeu e deixou passar num espetáculo no Coliseu dos Recreios, pouco tempo antes do 25 de Abril. O tema decorou-se de cravos quando se tornou numa senha radiofónica para o início da revolução democrática. Como os grandes, José Afonso fez uma canção com mais sobrepoderes que ele, tornando-se omnipresente sempre que se contesta ou se festeja a liberdade. Hoje canta-se 'Grândola, Vila Morena' como um hino... um hino oficioso.
 


 
"Só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação"
 
Nos meses seguintes ao 25 de Abril, sob o calor do ativismo associativo, propaga-se um dos temas mais populares de Sérgio Godinho, 'Liberdade', em que o cantor reinvindica as condições para essa tal liberdade: paz, pão, habitação, saúde, educação. Num período de emoções, que a canção ajuda a inflamar, o alerta racional de Godinho fica a metralhar na consciência. Mais esquecida mas pintada nos murais cancioneiros de 1974 está 'Pró Que Der e Vier' de Fausto (com letra de António Pedro Braga), armada de espírito revolucionário incondicional e bravo, preparado para tudo na época ainda das incertezas. Com a capacidade de universalidade para descer uma avenida pela liberdade, está o desfile de samba de Chico Buarque, 'Vai Passar' (de 1984), um pressentimento otimista de dias melhores - que aconteceriam com a instauração da democracia no Brasil em 1985 - em que conjuga no passado os verbos manchados de opulência e de sangue. O Carnaval estava para deixar de ser apenas "uma alegria fugaz". Bob Dylan acelerou as mudanças e antecipou as várias correntes dos anos 60, compreendo-as antes das mesmas acontecerem, na sua fase mais interventiva de cantor folk. 'The Times They Are a-Changin'' foi uma das suas canções-bandeira, com um impacto planetário que tem feito ricochete até aos dias de hoje. Mas não foi só do chamado mundo desenvolvido que voaram misséis para os nossos ouvidos e mentes. Do Terceiro Mundo veio outra canção-bandeira do guru espiritual da ilha caribenha da Jamaica, Bob Marley: o tema 'Get Up Stand Up', composto a meias com outro ícone do reggae, Peter Tosh. O lema é simples, repetido e urgente: "Stand up for your right", "Don't give up the fight". O público branco e idealista da Babilónia converteu-se a esta prece do rastafari Bob Marley. A partir dos subúrbios do Primeiro Mundo, o hip hop é um viveiro de temas que anseiam pela liberdade. Mas o mais carismático é muito provavelmente 'Fight The Power' dos Public Enemy de (1989). Juntam-se dois ativistas como o cineasta Spike Lee e o rapper Chuck D e temos um cocktail molotov como 'Fight the Power' que serve o filme "Do the Right Thing" e é lançando contra o poder, sobrepondo a questão de berço da segregação racial, mas nunca a esquecendo. O videoclipe é uma marcha de rua, a reclamar dignidade, numa avenida de Brooklyn.
 


 
"Eles têm medo de que não tenhamos medo"
 
Um dos muitos manifestos da rapper portuense Capicua, 'Medo do Medo' (de 2012), é uma enumeração de receios e de paranóias, que envolvem segurança e saúde e afetam as nossas liberdades. O tema tem uma transversalidade latente e é mais do que um retrato dos tempos, por um mundo melhor, com menos condomínios fechados e mais confiança no próximo. O ser só é livre se a comunidade o for. A liberdade só se vive em sociedade, não pode ser mais de uns do que de outros. 'People Have the Power' (de 1988) é um dos temas mais icónicos de Patti Smith (escrito a meias com o seu marido, o guitarrista Fred "Sonic" Smith), de crença otimista na mudança para um mundo revirado e melhor, onde os desertos dão lugar às fontes e em que o povo passa a ter o poder. E o povo habituou-se a cantar com Patti Smith de punhos cerrados no ar e largo sorriso 'People Have The Power', uma ode à felicidade coletiva. Outro tema rock da América do Norte de impacto universal é o 'Rockin' In The Free World' (de 1989) de Neil Young. Nos versos, o guitarrista canadiano foca-se nos sem-abrigo, mas o refrão e o título são um alento para o tal mundo livre, no meio daquele temporal elétrico da música.
A canção italiana 'Bella Ciao' é hoje uma música apropriada pelo mundo. Começou no século XIX como um tema de protesto contra as más condições laborais dos trabalhadores dos arrozais no norte de Itália e cresceu para missões de libertação da própria Itália - contra o fascismo de Mussolini e o nazismo alemão - e do próprio mundo - das manifestações de rua pelo mundo ao longo dos anos 60 em diante. A música renovou o seu público, ao ser utilizada em várias cenas fulcrais da série de TV espanhola "Casa de Papel". Na versão partigiana, há um mártir para a libertação final, que se consome nos versos finais.
 


 
Pela paz

"All we are saying is give peace a chance"

 

O mais politizado e reivindicativo dos Beatles, John Lennon, fez o seu tema mais interventivo de todos fora dos Fab Four, 'Give Peace a Chance' (de 1969), mundialmente conhecido mas com foco temático no pedido do fim da Guerra do Vietname e, na verdade, das guerras. A música foi criada e gravada quase de forma instantânea, com a sua mulher Yoko Ono, durante a mediática lua-de-mel num hotel de Montreal - celebrizada pela conferência de imprensa numa cama de um quarto de hotel a favor da paz. A forma rudimentar como o tema foi gravado torna-o ainda mais agregador, com batida simples e muita alma coletivista a cantar e mesmo, no caso de Lennon, a vociferar. A canção está destinada à eternidade, ciclicamente a ser reavivada. Outra canção pensada contra a Guerra do Vietname e que cresceu para outras lutas é 'El Derecho De Vivir En Paz' (de 1971), escrita e cantada pelo músico chileno Victor Jara (fuzilado durante o Golpe de Estado chileno de Pinochet em 1973). O hino gospel 'We Shall Overcome', ligado aos movimentos pela igualdade racial nos Estados Unidos, é um evidente pedido de paz, como base para um mundo mais feliz e solidário. A música foi sendo apropriada pelos grandes artistas norte-americanos, incluindo a lenda folk Pete Seeger que tocou 'We Shall Overcome' duas vezes num célebre concerto em Lisboa, no Pavilhão dos Desportos (atualmente, Pavilhão Carlos Lopes), em 1983.
 


 
"Por mais que seja santa, a guerra é a guerra"
 
Para se cantar pela paz, é preciso chamar a guerra pelo seu nome, sobretudo nos refrães. Fausto faz isso em 'A Guerra É a Guerra' (de 1982), a sua viagem no tempo à época dos Descobrimentos no século XVI, inspirado pelas crónicas de Fernão Mendes Pinto. O relato do horror do combate de fogo entre embarcações basta para o tornar um tema de defesa da paz, apesar da folia folclórica que o ambienta. Os U2 também chamam a guerra pelo nome no seu álbum mais político de 1983, "War", que acolhe o bem interventivo 'Sunday Bloody Sunday'. Se Bono canta a guerra pelo seu nome no refrão de 'The Refugee', o baterista Larry Mullen também baqueteia a guerra pelo seu som, com bombadas nos tambores, num tema de guerrilha rock que traça o drama de uma criança refugiada na América, fllha de um soldado perdido que já não a vai levar à Terra Prometida. É também chamando o boi pelos nomes com que a editora Motown se afasta da bem sucedida inocência amorosa e se politiza pela primeira vez, através da canção de 1970, 'War', composta por Norman Whitfield e Barrett Strong, primeiramente cantada pelos Temptations mas verdadeiramente encorpada e mitificada pelo fôlego furibundo de Edwin Starr, contra a Guerra do Vietname. Nessa nova onda mais interventiva dos artistas da Motown, o cantor soul Marvin Gaye era a voz mais lugúbre dos mais pessimistas anos 70 em 'What's Going On' (de 1971), um lamento melancólico dos efeitos da Guerra do Vietname. Mais animada é a música reggae do jamaicano Jimmy Cliff sobre a temática, 'Vietnam' (de 1970), mas a letra é uma história com destino fatal para o soldado americano, que já não foi a tempo de voltar vivo do seu serviço militar pela nação. O "soldadinho" também não voltou "do outro lado do mar" no tema 'Menina dos Olhos Tristes' de alguma guerra lá longe. Quando Reinaldo Ferreira escreveu o poema, a Guerra Colonial ainda não decorria mas eclode em cheio na canção primeiramente interpretada por Adriano Correia de Oliveira (em 1964) e, de forma ainda mais dramática, por José Afonso (em 1969), que choram a vinda do soldadinho "numa caixa de pinho". Em 2007, Valete dá o retrato mais profundo do continente onde morreu o soldadinho, com a batucada e os c(h)oros da terra quente. A partir desta versão de Valete, pensamos em todas as guerras que flagelaram a África Lusófona e não só na Guerra Colonial. É talvez a grande música portuguesa anti-guerra dos anos 60, década frutífera em canções pela paz como o caso de 'For What It's Worth' dos Buffalo Springfield (de 1966), um sinal inequívoco do tempo de contestação contra a Guerra do Vietname - "Hey, what's that sound? Everybody look, what's going down?" - assinado por Stephen Stills.
 


 
"Quantas crianças massacradas, quantas opiniões enterradas, quantos olhos em lágrimas"

 

Emel Mathlouthi, a grande cantora de intervenção da Primavera Árabe de há mais de dez anos, é o anjo a voar sobre um tapete eletrónico em 'Kaddesh' (de 2018), em que canta sobre os danos transversais da guerra de um ponto vista planetário. A banda de Liverpool, ligada ao movimento de Madchester, The Farm, lembrou-se em 'All Together Now' (de 1990) do armistício natalício e espontâneo de 1914 que ligou em confratenização e trocas de prendas os exércitos inimigos da Alemanha e do Reino Unido no No Man's Land, durante a Primeira Guerra Mundial. Os Farm celebram no tema a paz fora das trincheiras e lamentam que nada se aprendeu, num recado para outras épocas, como as de hoje. "Quantos mares tem a pomba branca que sobrevoar para poder dormir no areal?", pergunta Bob Dylan no hino universal 'Blowin' in the Wind' (de 1963), um tema pacifista adotado e adorado pelos afroamericanos, que se reconheceram logo na pergunta do primeiro verso: "How many roads must a man walk down, before you call him a man?"
 


 
Contra o omnicídio nuclear

 

“Antes ser activo hoje do que radioactivo amanhã”

 

A tensão de uma guerra nuclear merece um tópico à parte, tão atual que continua a ser, tal como a letra que Luís Pedro Fonseca escreveu para a Lena D'Agua e a banda Atlântida, 'Nuclear Não, Obrigado' (de 1982), um SOS para espevitar almas por um futuro num planeta apostado nas energias renováveis. Para alertar reais perigos sentidos no agravar da Guerra Fria, os Orquestral Manoeuvres in the Dark (OMD) pegam mesmo num incidente histórico ocorrido, a bomba atómica de Hiroshima de 1945, 'Enola Gay', o nome da canção de 1980. O facto da bomba atómica ter sido batizada com o nome da mãe do piloto norte-americano encarregue da missão genocida no final da II Guerra Mundial não escapou ao espírito crítico do cantor do tema, Andy McCluskey - “Is mother proud of little boy today/Ah-ha this kiss you give/It's never ever going to fade away”. Já o coletivo de eletrónica Kraftwerk preferiu o minimalismo de slogans em 'Radioactivity' (de 1975) em vez de frases mais concretas, mas as radiações da mensagem dos Kraftwerk ficam no ar para nos pôr a pensar. Kate Bush é mais ficcional para poder dramatizar o perigo real de uma guerra nuclear, ao se pôr no lugar de um feto que se recusa sair da barriga da mãe por causa do inferno radioativo lá fora, na canção de 1980, 'Breathing'. O instinto de sobrevivência de só querer respirar faz o feto restringir-se ao único refúgio possível: a piscina amniótica maternal. Quando Morrissey canta 'Everyday Is Like Sunday' (de 1988), não está propriamente a falar do tédio, mas sim da tragédias das radiações que esvaziaram e tiraram vida a uma povoação costeira, agora mais cinzenta e nunca mais azul - inspirado no romance pós-apocalíptico de Nevil Shute, "On the Beach", sobre uma fícticia III Guerra Mundial, que não queremos real.
 


 
 
Em defesa do ambiente

 

"Buy the sky and sell the sky and tell the sky and tell the sky: don't fall on me"

 

O entendimento de que o progresso civilizacional implica maltratar o ambiente parece tão absurdo aos músicos, que estes tendem para o surrealismo quando cantam sobre o "problema". É o que fazem os R.E.M. em 'Fall On Me' (de 1986), onde imaginam um céu corroído à beira de se despedaçar sobre as nossas cabeças. Em 'Fake Plastic Trees' (de 1995), os Radiohead relatam o mundo natural a ser substituído pelo submundo do plástico, sejam plantas ou as próprias faces humanas. Mas David Byrne prefere reverter a cronologia da poluição terrestre no tema dos Talking Heads, '(Nothing But) Flowers', até ao paraíso pré-histórico. Usando a ironia, lamenta não encontrar mais carros movidos a gasolina, fábricas ou lojas da Pizza Hut, mas apenas flores. Louis Armstrong viaja também ao idílio em 'What a Wonderful World', e concentra-se nesse mundo encantado, sem ironias, nem comparações com o mundo poluído. Ouvimos Louis Armstrong a cantar esta música de sorriso largo e só queremos ir até à sua cabeça e ver as cores do tal arco-íris de que fala. Mas por trás do sorriso largo, Louis Armstrong quer-nos dizer algo mais quando descreve o desabrochar deste mundo florido. Onde anda esse mundo maravilhoso? Louis Armstrong prefere sugerir a pergunta em vez de a colocar, descrevendo o que é realmente bonito. Ou que era.
 


 
Igualdade, dignidade e orgulho para as mulheres

 

"Eu sou MC, eu sou Maria Capaz. No rap sou eu que reino, rapaz"
 
A rapper Capicua apresentou-se em 2012 como 'Maria Capaz', uma mulher brava e inteligente num meio hip hop ainda muito masculinizado. Quem rappa assim, não derrapa. Foi só um aviso de um percurso extremamente ativista e também muito feminista e ista de outras coisas... instando tudo e todos através da palavra. Capicua é também ativista pelo 'Parto Sem Dor', tema de 2020 onde impera a condição feminina e materna, logo a metamorfose da natureza. "Como a pérola nasce da ostra, de mim nasce outra matriosca", clama Capicua, num 'Parto Sem Dor' semeado por outro 'Parto Sem Dor', de Sérgio Godinho. Homónimo no título, Capicua transfigurou-o no título, encaminhando-o para a sua mátria. Se Capicua pegou só no título e numa quadra de uma canção de Sérgio Godinho para fazer algo seu ao modo feminino, Aretha Franklin pegou no tema todo de Otis Redding, 'Respect'. Se Otis Redding só pedia respeito à mulher quando ele chegasse a casa, Aretha Franklin muda apenas o género e toda a perspetiva. É ela que pede respeito ao marido que chega a casa. O género subjugado cantou. Quando se toca a versão de 'Respect' de Aretha Franklin, o género feminino não se subjuga mais. Quem se recusa a subjugar em assuntos que envolvem a opressão de mulheres é Fiona Apple, que tem como uma das suas músicas mais fortes, 'Newspaper' (de 2020), sobre o homem na sua posição dominante de abusador, fragilizando e manipulando as vítimas femininas. Ao seu estilo, Fiona Apple deita tudo cá para fora, num fôlego áspero alimentado pela raiva e indignação. Se a cantora tem que ser pouco ortodoxa, é porque a realidade também o é. Se Morrissey não viu, pelo menos retratou de forma crua e direta o terror entre quatro paredes que se passa em muitos lares no tema dos Smiths, 'Sweet And Tender Hooligan': "He was a sweet and tender hooligan/And he swore that he'll never, never do it again/And of course he won't, oh, not until the next time". Morrissey consegue conciliar sarcasmo e ironia numa das suas críticas sociais mais ferozes e certeiras dos seus tempos áureos dos Smiths. Já José Afonso, omnipresente nas questões sociais, homenageia um dos grandes símbolos femininos de resistência à ditadura do Estado Novo, a camponesa Catarina Eufémia, no tema 'Cantar Alentejano' (estreado ao vivo em 1964). O drama do seu assassinato pelas autoridades policiais mancha de sangue a letra de José Afonso, num tema duro, publicado em disco (em 1971) ainda durante o Antigo Regime. A mulher mártir é consagrada em heroína por José Afonso, que lhe presta uma homenagem mais forte que qualquer estátua.


 
Espírito crítico

 

"Ai, Portugal, Portugal, enquanto ficares à espera, ninguém te pode ajudar"

 

Já em plena democracia, Jorge Palma fez o seu revisionismo histórico em 'Portugal, Portugal' (de 1982), lembrando que entre tantas conquistas e glórias, o país foi perdendo uma coisa muito importante: a liberdade. Num tema que foi sendo reformulado nos arranjos por várias vezes ao longo da sua carreira, Palma crítica o método impositivo do período da expansão portuguesa. Olhando para a história, o cantautor olha para o presente e para a alma da nação, reclamando um abanão. Outro músico que aproveitou bem a democracia para dar azo ao seu espírito crítico foi Cazuza que também puxou pelo nome do seu país, no caso o 'Brasil' (publicado em 1987), para o título e para o despertar, insatisfeito com uma corrupção que continuava a sugar-lhes, apesar de extinguida a ditadura militar. Joe Strummer, no cair do pano da existência dos Clash, voltou a ser uma consciência crítica do seu país, em 'This Is England' (escrito em 1983 e publicado em 1985), na era da governação de Margaret Thatcher, onde canta sobre uma crise social geral, que vai das más condições laborais a uma guerra sem sentido nas Maldivas, junto à costa da Argentina. Já em 'Democracy', é um canadiano como Leonard Cohen que olha para os vizinhos Estados Unidos, no rescaldo dos novos ventos da política internacional com o fim da Guerra Fria. Quando se dizia que a democracia estava a caminho do leste, Cohen inverte a ideia, cantando que a democracia está a caminho dos Estados Unidos, enquanto faz um levantamento dos problemas que afetam o país das terras de Tio Sam. 
Serge Gainsbourg chocou com o sistema francês só porque cantou numa versão reggae 'Aux Armes Et Cætera' (em1979), aquele que é o hino francês 'La Marseillaise', com algumas alterações na mensagem, que provocaram várias manifestações, incluindo de para-quedistas gauleses num dos seus concertos. Quem também enfrentou os pilares do sistema foram os G.N.R. (Grupo Novo Rock), metendo-se com os seus homónimos, a Guarda Nacional Republicana, em 'Sê um GNR' (de 1981). Para usarem o seu humor mordaz, bastou-lhes citar em parte o anúncio televisivo de recrutamento para a famosa corporação policial: "Tens 18 anos e a 4ª classe, és um jovem ambicioso, vem ser um GNR". Também com irreverência de debutantes, outro colosso do rock português, os Xutos & Pontapés, virou-se para outra instituição nacional, a igreja, recitando o terço em 'Avé Maria' (tema publicado no primeiro álbum da banda, "78/82"), numa linha tão perigosa quanto excitante, entre o profano e o sagrado. Ainda com poucos anos de democracia em Portugal, o compositor Luís Pedro Fonseca topou as manhas eleitoralistas dos políticos nacionais, numa canção que escreveu para a arrebitada Lena D'Água em 'Demagogia' (de 1982), quando era cortejada pela banda Atlântida. Mais de dez anos depois, Pedro Abrunhosa tornou-se um dos músicos nacionais com maior intervenção política. No single de 1995, 'Talvez F*der', perdeu todas as mordomias, num clássico ao vivo que já era cantado durante a euforia mediática da digressão do álbum de estreia “Viagens”, no ano anterior. 'Talvez Fod*r' tinha como destinatária alguma da classe política. A motorizar esta revista internacional à atualidade mundial, estava o funk afrodisíaco dos Bandemónio. Quem também costuma levar à música o seu espírito crítico de cidadão é Sting que, nos Police escreveu um dos seus temas mais politizados, 'Invisible Sun' (de 1981), ao sentir o encurralamento da questão da Irlanda do Norte e das prisões e greves de fome que envolviam militantes do I.R.A. (o movimento terrorista Irish Republic Army). Sendo um tema de uma banda global como os Police, 'Invisible Sun' extravasou a divisão das Irlandas e ganhou um sentido mais lato, abraçando outros conflitos enguiçados pelo mundo fora. Apesar do nevoeiro político que acabrunha as esperanças, Sting recorre ao otimismo: tem que haver um sol invisível que nos aqueça a todos.

 

Seguem-se outros tópicos, outras faixas, outros slogans (sejam originais ou versões), escritas de propósito ou não, e sempre devidamente apropriadas e reavivadas.
  
Contra a desigualdade social
Stone Roses - 'Elizabeth My Dear'
Sex Pistols - 'God Save the Queen'
Idles - 'Reigns'
The Jam - 'Eton Rifles'
Marianne Faithfull - 'Working Class Hero'
Jose Afonso - 'Os Vampiros'
 
Espírito crítico internacional
Caetano Veloso - 'Base de Guantanamo'
Dead Kennedys - 'Holiday in Cambodja'
 
Contra as ditaduras
Chico Buarque - 'Construção'
Elis Regina - 'O Bebâdo e o Equilibrista'
Rolando Alarcón - 'El Quinto Regiemento'
Manic Street Preachers - 'If You Tolerate This Your Children Will Be Next'
Soledad Bravo - 'Santiago de Chile'
Mercedes Sosa - 'Solo Le Pido A Dios' 
Jose Afonso - 'Era De Noite E Levaram'
Leonard Cohen - 'The Partisan'
Sonic Youth - 'Youth Against Fascism'
Primal Scream - 'Swastika Eyes' 
Manuel João Vieira - 'Ser Fascista'
Jose Afonso - 'A Morte Saiu À Rua'
Adriano Correia de Oliveira - 'Trova do Vento Que Passa'
Manuel Freire – 'Pedra Filosofal'
Caetano Veloso - 'Os Argonautas'
Chico Buarque - 'Fado Tropical'
Amália Rodrigues – 'Abandono'
Fernando Tordo - 'Tourada'
Kino - 'Changes!'
David Bowie - 'Heroes'
Pink Floyd - 'Another Brick on the Wall'
The Beach Boys - 'Break Away'
Frank Sinatra - 'My Way'
Arcade Fire - 'Haiti'
 
Contra a opressão religiosa
The Clash - 'Rock the Casbah' 
 
Pela igualdade racial
Stevie Wonder - 'Living For The City'
'America The Beautiful' (tradicional)
Billie Holiday - 'Strange Fruit'
Nina Simone - 'Mississippi Goddam'
Ray Charles - 'That Lucky Old Sun'
Sam Cooke - 'A Change Is Gonna Come'
James Brown - 'Say It Loud: I’m Black, I’m Proud'
Sly and the Family Stone - 'Don't Call Me Nigger, Whitey'
Rage Against the Machine - 'Killing in the Name of'
Stevie Wonder - 'Happy Birthday'
Bonga - 'Ai Ue Mama'
The Specials - 'Nelson Mandela'
Miriam Makeba & Belafonte - 'Beware, Verwoerd!'
Johnny Clegg & Savuka - 'Asimbonanga (Mandela)'
Peter Gabriel - 'Biko'
Simple Minds - 'Mandela's Day'  
 
Pela inclusão dos imigrantes
Charlotte Adigéry & Bolis Pupul - 'Esperanto'
The Clash - '(White Man) In Hammersmith Palais'
 
Pela auto-determinação dos povos
Bob Marley - 'Africa Unite'
Dino D’ Santiago - 'Africa Di Nós'
Cesária Évora - 'África Nossa'
Bonga - 'Ma Kongo'
Vitorino - 'Queda do Império'
Jose Afonso - 'Venham Mais Cinco'
Bjork - 'Declare Independence'
Beastie Boys - 'Bodhisattva Vow'
Bob Marley - 'Zimbabwe'
Trovante - 'Timor'
Rui Veloso & Nuno Bettencourt - 'Maubere'
 
Contra a opressão dos povos nativos
Violeta Parra - 'Arauco Tiene una Pena'
Neil Young & Crazy Horse - 'Pocahontas'
Legião Urbana - 'Índios'
 
Pela afirmação das minorias sexuais
Billy Bragg - 'Sexuality'
Frankie Goes To Hollywood - 'Relax'
Pop Dell' Arte - 'Querelle'
António Variações - 'Canção do Engate'
Cyndi Lauper - 'True Colors'
 
Pela libertação sexual
Madonna - 'Justify My Love'
Serge Gainsbourg - 'Je T'Aime... Moi Non Plus'
Donna Summer - 'I Feel Love'
Simone de Oliveira - 'Desfolhada'
 
Sensibilidade laboral
Billy Bragg - 'Which Side Are You On?'
Jose Afonso - 'Ronda das Mafarricas'
Legiao Urbana - 'Fábrica'
Tubarões - 'Alto Cutelo'
Kraftwerk - 'The Robots'
Highwayman - 'Highwaymen'
Fausto - 'De um Miserável Naufrágio Que Passou'
 
Contra a miséria
Bruce Springsteen - 'The Ghost of Tom Joad'
Jose Afonso - 'Vejam Bem'
PJ Harvey - 'The Wheel'
 
Contra a pena de morte
Michel Polnareff - 'Le Bal des Laze'
Johnny Cash - 'The Mercy Seat'
 
No encanto da revolução ou no sonho
Jose Mario Branco - 'Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades'
Beatles - 'Revolution'
Paulo de Carvalho - 'E Depois Do Adeus'
Sergio Godinho - 'Maré Alta'
Jose Afonso - 'Traz Outro Amigo Também'
Stereolab - 'Au Grand Jour'
GAC - 'A Cantiga É uma Arma'
Mao Morta - 'Charles Manson'
George Moustaki - 'Métèque'
 
Canções de desencanto
Chico Buarque - 'Tanto Mar'
Jose Mario Branco - 'Eu Vim De Longe, Eu Vou P'ra Longe' ('Chulinha')
Gil Scott-Heron - 'The Revolution Will Not Be Televised'
Paul Simon - 'American Tune'
Bruce Springsteen - 'The River'
Sergio Godinho - 'O Primeiro Dia'

Pela resistência
Francé Gall - Résiste

Artigo de opinião sujeito a permanente e eterna atualização