Chaka Khan: "a música não é um desporto de competição"
Concerto no Cool Jazz é nesta quarta-feira, em Cascais. Entrevista a esta figura maior da música.
Na certidão de nascimento de 1953, ela é Yvette Marie Stevens. Nos cartazes, nas capas de álbuns e para o mundo, o seu nome é Chaka Khan. Já lá vão mais de 50 anos de carreira e mais de 70 de uma vida muito intensa. A sua infância foi vivida num meio católico, mas a sua adolescência foi arriscada no movimento armado dos Black Panthers.
Em adulta, trocou de vez a religiosidade pela boémia, até a música a chamar. Quando se tornou cantora da banda de funk Rufus, a sua carreira cresceu em escalada. Depois, a solo, começou em grande com o êxito 'I'm Every Woman', em 1978, que a levou para o quadro de honra do disco sound, ao lado de nomes como Donna Summer ou Gloria Gaynor. Em 1984, um cozinhado do seu produtor Arif Mardin nos pratos de vinis, com o nome de Chaka Khan a ser repetido em loop, levou-a a inscrever acidentalmente o seu nome no boom do hip hop em 1984.
Essa música ziguezagueante abençoada de modernidade é ‘I Feel for You’ (a versão do original é de Prince) que dificilmente Chaka Khan não cantará nesta quarta-feira no festival Ageas Cool Jazz, no Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais, tal como I'm Every Woman.
A abrir os apetites para este concerto, ligámos a Chaka Khan. Após o gasto balístico a seco de perguntas de respostas demasiado sumidas, Chaka Khan manteve-se sentada no seu cadeirão de diva, mas estes dois seres humanos aproximaram-se e a prazerosa conversa estabeleceu-se a partir desta pergunta…
É verdade que odiou o arranjo influenciado pelo hip hop na sua versão de ‘I Feel for You’?
Não foi tanto ter odiado. Foi mais um choque. Numa noite gravei a canção, na noite seguinte, quando voltei [a estúdio], o meu produtor Arif Mardin tinha inserido um rap [protagonizado por Melle Mel]. Portanto, foi uma surpresa. Não estava muito dentro do hip hop ou do rap. Era uma cena nova à época. Mas fui-me habituando e hoje gosto.
E em relação ao sample em loop, a repetir o seu nome de Chaka Khan?
Foi isso que mais me irritou na altura. Mas depois habituei-me. Como tal, não é problemático.
Foi a primeira vez que ouvi a sua música, tinha eu oito ou nove anos. Esse sample com o seu nome marcou-me na altura.
Fico muito contente por o ter marcado para o resto da sua vida.
A canção original é do Prince. Lembra-se da primeira vez que o conheceu pessoalmente?
Vagamente, sim. Lembro-me da história e da sensação. Ele perseguiu-me e quando descobriu onde eu estava a dormir, telefonou-me. Ninguém me podia ligar, porque não era suposto alguém saber onde eu estava a pernoitar. Parecia que era o FBI a descobrir onde eu estava. Ele fez-se passar pelo Sly Stone, que era um grande amigo meu. Ele fingiu muito bem ser o Sly Stone e eu acreditei. Como pensei que era o Sly, fui para um estúdio onde não encontrei o Sly, mas sim o Prince. Foi assim que o conheci.
Imagino que tenha sido um choque positivo para si?
Bem, lembro-me que na altura não achei muita piada. Mas à medida que o tempo foi passando, tornámo-nos amigos muito próximos.
Qual foi a primeira vez que ouviu falar da sua coroação como “Rainha do Funk”?
Não fui eu que inventei esse rótulo. Esse não é o meu nome. Nunca me classificaria como rainha de alguma coisa. Até posso ser rainha de alguma coisa. Mas se tivesse que ser rainha, preferia ser rainha das pessoas que amo. Se quiserem coroar-me de rainha de um género musical novo, também não me importo. Ou se quiserem, posso tomar conta do reinado da Aretha [Franklin, aclamada como “rainha da soul”], agora que ela já cá não está. Ou então, não me chamem de rainha de coisa nenhuma. Chamem-me apenas pelo meu nome, seria simpático. Mas [chamarem-me de] rainha do funk restringe-me a uma só zona face ao que é a minha música. Portanto, não gosto de ser encaixada, prefiro ser livre. Chamem-me apena rainha, ponto final. Assim funciona.
Qual foi a maior lição que tirou enquanto membro dos Black Panthers durante os seus anos de adolescência?
As pessoas que conheci. Conheci pessoas lindas e maravilhosas. Aprendi a coragem, o amor, conheci pessoas capazes de morrer por uma causa. Não se conhecem muitas pessoas assim ao longo da vida que amem e acreditem tanto numa causa pela qual morram. Como tal, descobri imensas pessoas fantásticas, empenhadas, muito brilhantes e inteligentes e adoráveis.
Ainda vive dentro de si esse lado ativista?
Oh sim, completamente.
Como ativista que ainda é, como vê os Estados Unidos hoje?
Não os vejo.
Teme pelo futuro dos Estados Unidos?
Não. Já me visto de preto a toda a hora. Estou a fazer o luto do planeta. Se não corrigirmos o mal que estamos a fazer ao planeta, com toda estas porcarias nas águas, no ar, que estão a matar as pessoas e a mãe natureza, nada mais interessará, porque já não haverá pessoas. Portanto, o primeiro compromisso que temos que ter é com o bem-estar da Terra e da mãe natureza.
Tem toda a razão. O ecologismo é a grande causa. Só me sentirei um bom pai se zelar pelo ambiente e pelo futuro das próximas gerações.
O meu coração vai para vocês todos. Tenho vários netos e dois bisnetos. Temo por eles e pelo planeta que lhe estamos a deixar. É nojento. Precisamos de limpar toda esta porcaria.
Conheceu pessoalmente alguns dos maiores ícones musicais como o Stevie Wonder, o Prince ou o Michael Jackson. Qual foi o músico mais talentoso que conheceu?
O Miles Davis. Deus o abençoe. Éramos grandes amigos. Sinto muito a sua falta.
Tendo tido uma vida repleta de experiências como foi o seu caso, que conselhos daria a um talento musical promissor?
Sejam corajosos e livres, e respeitem o vosso talento. Não sejam competitivos, porque a música não é um desporto de competição, mas sim sobre expressão individual, porque todos somos diferentes. Se somos todos diferentes, para quê categorizar as pessoas? Todas as pessoas são diferentes e, por isso, devem expressar-se como são. Portanto, parem com esse lado competitivo. A arte é simplesmente a auto-expressão.
Este é o horário das atuações do Ageas Cool Jazz no dia 10:
Onoma: 20h00
Morcheeba: 21h00
Chaka Khan: 22h30
DJ set de Alex D’ Alva Teixeira: 0h00
