Chefs Of Fire chega a Madrid

Depois da 6.ª edição em Cascais, que decorreu em setembro, o festival de gastronomia no fogo estreia-se em Madrid, a 5 e 6 de outubro.

Nos dias 20, 21 e 22 de setembro, a 6.ª edição do Chefs On Fire "ocupou" a Feira de Artesanato do Estoril, com um cardápio recheado de chefs de renome e vários artistas musicais para acompanhar as degustações. Tatanka e Miguel Araújo, iolanda, HMB, Capitão Fausto, Buba Espinho ou Bárbara Tinoco foram alguns dos nomes que animaram os visitantes que passaram pelo evento. Em Cascais, o famoso festival de gastronomia no fogo contou com 27 chefs nacionais, 8 dos quais com estrelas Michelin, e 3 internacionais, como Ana Ortiz (Equador), Louise Bourrat (França) e Helt Araújo (Angola)

Amanhã, 5 de outubro, o festival criado por Gonçalo Castel-Branco (da LOHAD), abre as portas pela primeira vez no Real Jardín Botánico Alfonso XIII da Universidade Complutense, em Madrid, Espanha, onde fica até dia 6. No evento que se estreia na capital espanhola 16 chefs internacionais vão juntar-se aos 4 chefs portugueses que vão representar o Palco Portugal, como é o caso de Henrique Sá Pessoa (Alma), João Rodrigues (Projeto Matéria e Canalha), Vasco Coelho Santos (Euskalduna Studio) e Carlos Fernandes (Le Cordon Bleu Madrid).  

Depois de Madrid, o festival regressa a Portugal e viaja até Foz Côa "para repetir o sucesso da edição do ano passado", como refere o comunicado da organização. "Numa edição aumentada, entre os dias 19 e 20 de outubro, surge um cartaz de luxo para uma experiência ainda mais intimista e ligada às nossas raízes primordiais de utilização de fogo".

No dia 19, o Chefs On Fire, que vai ter lugar nos jardins do Museu de Foz Côa, conta com os chefs Lídia Brás (Stramuntana) e David Jesus (Seiva) e com as atuações de Margarida Campelo (almoço) e de Milhanas (jantar). A 20 de outubro, será a vez dos chefs Alexandre Silva (Loco e Fogo) e Vitor Adão (Plano). A música vai estar a cargo de S. Pedro (almoço) e de Joana Espadinha (jantar). 


Antes de falarmos sobre a expansão do Chefs On Fire para Madrid, proponho darmos um pulo à criação deste evento. Como é que surgiu a ideia? 

Para os que ainda não conhecem o conceito do Chefs On Fire, posso dizer que começou por ser um pequeno festival/boutique. Em Portugal, há uma tendência para festivais em grande escala, mas creio que lá fora há cada vez mais procura de festivais mais pequenos. Isto acontece até por uma questão de sustentabilidade. O Chefs On Fire foi criado em Portugal há cerca de sete anos e entretanto transformou-se no maior festival gastronómico, em matéria de área, do fogo da Europa e um dos festivais mais sustentáveis do mundo na área da gastronomia. O conceito é muito simples. Convidamos os melhores talentos nacionais e internacionais para virem cozinhar só com o fogo. Nem cozinhas temos. Os visitantes, esses, podem comer, ouvir música, beber um bom vinho e divertirem-se. O que fazemos é replicar a experiência de um churrasco em casa de amigos mas com a dimensão de um festival. (risos)

E qual é o balanço que faz da edição em Cascais? 
Não diria que foi a maior edição de sempre mas seguramente foi a melhor. Tivemos uma afluência de quase 10 mil pessoas. Acima de tudo, a edição deste ano foi muito madura. O trabalho muito estável. Quando apostamos tanto na qualidade é importante que nada falhe. O nosso standard de qualidade é diferente de outros festivais em Portugal. Trabalhamos durante o ano inteiro para garantir que entregamos um produto fantástico. Posso dizer que na reta final [da preparação] a nossa equipa chega às quase 300 pessoas. Este ano, voltámos a apostar na colaboração entre chefs internacionais e nacionais, com os quais trabalhamos anualmente. Na edição de 2024, tivemos um palco Angola, com o chef Helt Araújo, um palco França, com Louise Bourrat que foi a vencedora do Top Chef França em 2022, e um palco Equador com a Ana Ortiz. Queremos fazer este cruzamento de culturas gastronómicas. Cozinhar no fogo é diferente de país para país. E a forma como a cozinha no fogo evoluiu também. É interessante alimentar esta "conversa" entre chefs. 

Além disso, tivemos algumas novidades interessantes, como a criação de um sistema de navegabilidade do espaço, algo inédito em Portugal. Desenvolvemos este sistema especificamente para o Chefs On Fire e colocámo-lo no nosso bilhete digital, sendo que esse bilhete já tinha sido uma inovação quando começámos a usá-lo há cinco anos. Com o novo sistema, que criámos com o nosso parceiro 3cket, as pessoas conseguiram consultar, em tempo real, o número de lugares sentados que havia no recinto bem como o número de doses disponíveis de cada chef convidado. Era algo que ainda não existia. Isso ajudou os nossos clientes não só em matéria de navegabilidade como na escolha dos pratos. É isto que nos permite continuar a trabalhar de forma sustentável, com o mínimo desperdício, garantindo também que os clientes conseguem provar o que querem e pela ordem que querem. 

E como é que "montam" o cartaz de cada edição?
É tal e qual como um festival de música. O programador de um festival de música passa o ano a ver concertos para perceber quais são os artistas que fazem sentido no festival. E eu, como curador, passo o ano inteiro a comer. Só este ano fiz 352 refeições fora de casa. Seleciono os chefs não só pelo talento, mas também pela capacidade e experiência que têm a trabalhar com o fogo. É importante que tenham essa estética gastronómica. Também têm de ter uma máquina capaz e profissional para agarrar o desafio. Estamos a falar de 1.500 doses de comida feita no fogo em tempo real e sem rede de segurança. Isto tudo num festival que é controlado ao segundo. Tal como uma banda não se pode atrasar a entrar em palco, os pratos também não podem demorar a sair. 

E é também um desafio e uma experiência importantes para as equipas que acompanham os chefs… 
Sem dúvida. Acho que conseguimos criar um festival em que as pessoas do meio se sentem em casa. Sentem-se acarinhadas. Os chefs pedem para ir ao festival e muitas vezes ajudam-se entre si. Isso acontece, por exemplo, quando não podem tirar as equipas dos restaurantes para os ajudar no festival. Isso é algo que nos orgulha. Sentem-se em família. 

Chefs On Fire, "mais do que fumo há amor no ar"

Imagem: Henrique Isidoro

E como é que surgiu a oportunidade de levar os Chefs On Fire até Madrid? 
Foi uma expansão natural. Não posso dizer que tenha sido uma expansão esperada porque quando criei o Chefs On Fire só queria criar uma coisa divertida. Queria criar um lugar onde as pessoas fossem bem recebidas. Na altura, não almejava que o Chefs On Fire fosse uma das maiores marcas portuguesas de gastronomia. Mas a verdade é que acabou por fugir um pouco do controlo e transformou-se numa marca tremendamente respeitada a nível internacional. A partir do momento em que temos o maior palco de talento gastronómico português construído, o melhor que temos a fazer é levá-lo para a estrada. A nossa ideia é ter cinco ou seis Chefs On Fire diferentes, em países diferentes nos próximos anos.    

Chefs On Fire e a música

Madrid era o sítio mais óbvio. É aqui ao lado e é um centro de gastronomia europeu. Além disso, partilhamos raízes próximas com os nuestros hermanos gastronómicos. Em apenas cinco anos, conseguimos estar nas Maldivas e em Espanha, sendo que contamos estar em mais dois ou três lugares nos próximos anos. Creio que fomos um dos produtos do entretenimento português mais rápido a ser exportado. Porém, é um produto caro e difícil de exportar. Só é possível com o talento português e com o apoio do Turismo de Portugal e do Turismo de Cascais. É um apoio absolutamente fundamental para nós. São instituições que não só viabilizam o trabalho que fazemos no nosso país como nos dão as ferramentas para termos um palco Portugal, com chefs portugueses, numa edição do Chefs On Fire em qualquer parte do mundo. A máquina pública é muitas vezes criticada, mas acho que também deve ser aplaudida quando faz as coisas com coragem e convição.