China acusa "forças estrangeiras" de incentivarem jovens do país a "deitar-se e desistir"
Ministério da Segurança do Estado argumenta que há forças a "erodir o espírito" dos jovens chineses e a associar o trabalho à exploração, apresentando o ato de deitar como "justiça".
O principal organismo de contraespionagem da China alertou esta quarta-feira que “forças estrangeiras” estão a usar as redes sociais para promover entre os jovens a ideia de “deitar-se e desistir”, numa tentativa de minar o desenvolvimento do país.
O Ministério da Segurança do Estado da China afirmou, numa publicação na sua conta oficial, que entidades externas procuram amplificar a ansiedade social ao “promover continuamente noções negativas”, segundo as quais o esforço é inútil e o trabalho árduo não traz benefícios.
O objetivo seria “erodir o espírito de perseverança entre os jovens chineses e até minar os valores fundamentais da sociedade”, indicou o organismo.
De acordo com o ministério, organizações estrangeiras terão financiado órgãos de comunicação e centros de investigação críticos da China, contribuindo para difundir a narrativa de que quem trabalha arduamente no país está a ser explorado, sem identificar os envolvidos.
Essas entidades terão também apoiado influenciadores na produção de vídeos que promovem ideias como “deitar-se é justiça” ou que associam a rejeição do excesso de trabalho à oposição ou à exploração.
Ao mesmo tempo, acrescentou, os seus países de origem estariam a adotar políticas para revitalizar as economias e atrair talento global, sem especificar quais.
“Só esperam que os nossos jovens desistam e, assim, renunciem aos dividendos do desenvolvimento, às oportunidades estratégicas e ao futuro da nossa nação”, afirmou.
O ministério apelou ainda a que cada indivíduo procure oportunidades e “tome medidas práticas”, desde a investigação científica até ao empreendedorismo local.
A expressão “deitar-se e desistir” (lying flat) ganhou popularidade nas redes sociais chinesas em 2021, num contexto de abrandamento económico, tensões comerciais com o Ocidente e impacto da pandemia de Covid-19.
O conceito reflete o desencanto de muitos jovens com a chamada cultura laboral “996” – jornadas das 09h00 às 21h00, seis dias por semana – que, segundo críticas recorrentes, não garante estabilidade financeira nem equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
O tema mereceu então um aviso do Presidente chinês, Xi Jinping, que defendeu a necessidade de evitar a estagnação social, promover a mobilidade ascendente e criar oportunidades de enriquecimento para mais pessoas.
Nos anos seguintes, as autoridades lançaram campanhas para combater esta atitude, incluindo a exposição pública de funcionários locais acusados de “deitarem-se”.
Ainda assim, o fenómeno persiste num contexto de dificuldades no mercado de trabalho jovem. Em março, a taxa de desemprego urbano na China situou-se em 5,4%, enquanto o desemprego entre os jovens dos 16 aos 24 anos, excluindo estudantes, atingiu 16,9%, o valor mais elevado em quatro meses.
A escassez de oportunidades tem impulsionado um número recorde de candidaturas à função pública, tradicionalmente vista como um “emprego seguro”. No exame nacional do ano passado, cerca de 2,8 milhões de candidatos disputaram pouco mais de 38 mil vagas.
As autoridades chinesas têm, com frequência, atribuído a grupos estrangeiros a difusão de ideias consideradas indesejáveis, incluindo em áreas como os direitos das mulheres ou a proteção animal.
