Cientistas receiam perigos na verificação de idade por IA
Estimativa de idade depende de inferências baseadas em Inteligência Artificial (IA), que são conhecidas por apresentarem altas taxas de erro.
Mais de 400 cientistas e investigadores de segurança e privacidade, numa carta aberta, alertam para os danos de introduzir tecnologia de verificação de idade para acesso a serviços de internet, sem um estudo dos riscos tecnológicos e do impacto social.
"Concluímos que a avaliação de idade apresenta um risco inerentemente desproporcional de graves violações de privacidade e discriminação, sem garantias de eficácia", escrevem na declaração conjunta de cientistas e investigadores de segurança e privacidade de todo o mundo, entre os quais oito portugueses, enviada como contributo ao parlamento português.
Embora compartilhando preocupações sobre os efeitos negativos que a exposição a conteúdo prejudicial online tem sobre as crianças, os cientistas e investigadores temem que se a verificação de idade for implementada sem uma consideração cuidadosa dos riscos tecnológicos e do impacto social, possa causar mais danos do que benefícios.
Na sua opinião, é previsível que um aumento na implementação da verificação de idade resulte numa crescente disponibilidade de mecanismos de evasão, reduzindo a sua eficácia.
Também consideram as tecnologias de estimativa e inferência de idade altamente invasivas à privacidade, por dependerem da recolha e do processamento de dados sensíveis e privados, como dados biométricos, e que a implementação desses métodos de garantia de idade em larga escala facilita a recolha e a exploração de dados (de crianças).
Além disso, consideram essas tecnologias notoriamente pouco confiáveis e lembram que a estimativa de idade depende principalmente de inferências baseadas em Inteligência Artificial (IA), que são conhecidas por apresentarem altas taxas de erro e por serem tendenciosas em relação a certas minorias.
A execução dos serviços de verificação vai recolher quantidades crescentes de dados, introduzindo mais riscos em relação ao rastreamento e à criação de perfis, alertam, explicando que, como mais serviços vão implementar verificações, a desigualdade e a discriminação também vão aumentar.
Os especialistas destacam que a centralização da tomada de decisões, imposta por regulamentações relacionadas com a verificação de idade, é contrária ao princípio de que as decisões de aplicação, em particular as de segurança, devem residir nos dispositivos finais.
E que a verificação de idade, por definição, impõe regras de controlo de acesso a esses dispositivos finais, ameaçando a descentralização da internet e comprometendo a criação de tecnologia soberana.
Além das questões técnicas, alertam que não há evidências científicas que sustentem a suposição de que proibir menores de acesso a serviços teria um efeito positivo na sua saúde mental e desenvolvimento.
Dado os riscos potenciais e as alternativas disponíveis, implantar uma tecnologia com um impacto tão amplo sem compreender as implicações para a segurança e privacidade online de indivíduos, comunidades e sociedades não pode ser considerado uma solução proporcional, argumentam.
Enquanto isso, incentivam a exploração de medidas alternativas para impedir que os utilizadores sejam expostos a conteúdo prejudicial, como regular as práticas algorítmicas das redes sociais ou dedicar recursos para melhorar o suporte aos pais para que possam impedir localmente o acesso a conteúdo ou aplicativos inadequados para a idade, sem que o controle baseado na idade precise ser implementado pelos provedores de serviços.
Em meados de fevereiro, o parlamento aprovou na generalidade um projeto de lei que estabelece medidas de proteção de crianças em ambientes digitais, proibindo o acesso livre às redes sociais a menores de 16 anos, projeto que está em fase de discussão na especialidade.
