Cimeira ibero-americana no Marés Vivas
O colombiano J Balvin, o espanhol Pablo Alborán e as cantoras portuguesas Carolina Deslandes & Bárbara Tinoco e Cláudia Pascoal (na foto) compuseram o cartaz deste segundo dia.
J Balvin impôs a velocidade estonteante do reggaeton no arranque do seu concerto, com um espetáculo mexido, musicalmente assente em programações de eletrónica e muito ginasticado pela meia-dúzia de dançarinas em palco.
J Balvin surge em cima de um aparatoso veículo espacial, ou algo assim do género, aparecendo a cantar com um gorro que lhe cobria a cara, como se fosse um terrorista. Mostrou logo à segunda música o nome do seu principado musical, 'Reggaeton', e mereceu depois encontrões de rabos com a sexualizada corte de dançarinas.
O artista colombiano foi mostrando simpatia com os portugueses, quer nas referências a Cristiano Ronaldo, quer quando chama a palco três fãs para se sentarem com ele para interpretarem em grande esforço 'La Canción'. Balvin não ficou indiferente às várias bandeiras da Colômbia nas filas da frente e foi enviando mensagens às comunidades colombiana e venezuelana a residirem na Europa.
Antes, o concerto de Pablo Alborán teve hora e meia de duração e um surpreendente encore, mesmo que diante de alguma indiferença do público. Pablo Alborán parece ter adorado ter estado ali em palco. Era talvez o mais feliz de todos naquela hora e meia em que atuou.
Acompanhado por mais quatro músicos, um deles, o homem da guitarra elétrica, com grande queda para solos, Pablo Alborán foi cantando um pop-rock à espanhola, com o flamenco sempre a assomar, ora no canto, como se ouviu em 'No Vaya a Ser'.ou na lamúria dramática de 'Si Hubieras Querido', ou no acompanhamento rítmico do seu baterista.
Pablo Alborán também descai para a canção latina mais sentimental, como o caso de 'Tu Refugio'. E vai mais a fundo no intimismo, com ele próprio ao teclado em 'Prometo'.
Pablo Alborán canta num castelhano muito aportuguesado, por vezes parece mesmo estar a cantar em português como uma operação de charme, como nos últimos versos de 'Tu Refugio'.. "Portugal é a minha segunda casa", diz mais tarde Alborán antes de cantar aquela que diz ter sido a sua primeira música de sempre, 'Solamente Tu'. Chegou a agarrar-se a uma bandeira portuguesa enquanto cumpria o seu ofício de cantor. E apresentou um tema inédito que diz só cantar em locais especiais, 'Si Quisieras'. Simpatia não lhe faltou.
O concerto das amigas Carolina Deslandes e Bárbara Tinoco fez-se de muitos abraços e de encostos entre cabeças, entre as duas, e com o desabafo de Carolina Deslandes para Bárbara Tinoco já na parte final dos agradecimentos: "obrigado Bárbara, sou muito mais feliz contigo". E abraçaram-se outra vez.
Como se esperava, as duas cantoras nacionais trouxeram o mesmo espetáculo apresentado no Alive, com a mesma concepção de palco, com mais seis músicos, duas figuras de cavalos e nuvens de algodão suspensas lá no alto. O alinhamento foi, basicamente, igual, com uma partilha equitativa das canções de Deslandes e de Tinoco. Com um público muito acolhedor para elas, houve canções que criaram especial adesão, como o caso evidente de 'Vida Toda', de Carolina Deslandes.
O concerto foi uma constante troca de confissões das duas cantoras. Por exemplo, Carolina Deslandes declarou-se uma “betinha do Restelo nascida na Lapa”, quando Bárbara Tinoco se preparava para rappar a sua autobiográfica 'Linha de Sintra' onde vive.
O dia no palco principal começou de forma rosada com a pop cheia de genica de Cláudia Pascoal, com um jeito natural para se expressar em palco com graça. Além de boa performer, Cláudia Pascoal é uma esteta visual. Apesar de demasiado aclarado pela luz do sol, que fez a cantora sentir-se a fazer a "Fotossintesse", a cantora conseguiu mostrar um concerto ambicioso no conceito e no pormenor, num cenário repleto de objetos, como se fosse um museu particular da cantora: o cavaquinho de Pascoal (por vezes preso às suas costas), o telefone antigo de placa giratória com que fez a simulação de chamada telefónica a Manuela Azevedo em 'Precaução', numa mesinha com uma telefonia antiga e um candeeiro, além das fitas de arraial, do cão dálmata em loiça, e até de uma cortina que parece de chuveiro.
Marante foi o convidado surpresa em dia do seu aniversário para cantar o dueto de 'Onde Vais Amanhã?'. Teve direito ainda ao seu momento individualizado para cantar o seu tema mais célebre 'Bela Portuguesa'. E ainda lhe cantaram os parabéns, com direito a invasão surpresa dos seus familiares e de um dos seus músicos, com um bolo de aniversário.
Após o "momento" Marante, Cláudia Pascoal retomou as suas canções, sobretudo as mais simples e populares do seu reportório. Aproveitou a presença da mãe nas filas da frente para cantar, claro, 'Mãe', com Cláudia Pascoal a dar uma palmadas no adufe. Infiltrou a Oliveirinha da Serra no seu tema 'Nasci Maria'. E tornou-se maestra da multidão em 'Música de um Acorde'.
Houve uma falha técnica que a levou a desistir de cantar 'Espalha Brasas'. Essa contrariedade não obstruiu fatalmente um espetáculo condenado ao sucesso. Quase no final, comoveu-se com um concerto que era especial para ela, na sua estreia no palco maior do Marés Vivas, tal como assinalou.
