Clã: digressão intimista "Dá O Que Tem" arranca a 26 de abril em Lisboa
Conversámos com Manuela Azevedo sobre o circuito de concertos que passa por oito salas emblemáticas em Portugal e Espanha.
Os Clã, que este ano celebram 30 anos de história(s), estão com um pé na estrada. A banda portuguesa vai andar em digressão por clubes e salas de espetáculo emblemáticas - um circuito de proximidade com o público que arranca a 26 de abril, no MusicBox, em Lisboa.
A tour "Dá o Que Tem" continua depois em Almada, Coimbra, Leiria, Viseu, Aveiro, Porto e Vigo (Espanha). Será uma série de "concertos informais e de palco aberto ao imprevisto" com o propósito de enaltecer a cumplicidade com o público. A banda - que vai mostrar "Véspera" (o disco mais recente) - promete ainda surpreender os que estiverem em cada uma das salas com canções mais antigas e novas versões de outros artistas. A ideia é que cada concerto tenha uma existência própria, especial e irrepetível.
Esta digressão é intimista, de proximidade. Estavam mesmo com saudades de estar perto do público...
Sim. Sem dúvida. Ter saudades do público é algo que deve atravessar todos os artistas de palco. Não só os músicos mas também os bailarinos ou as gentes do teatro que, durante os anos de pandemia, ficaram privados do privilégio regular de estar em contacto, de uma forma natural, com o público. Quando lançámos o "Véspera", antes de sermos apanhados pela pandemia, tínhamos a ideia de começar a apresentação do disco em salas mais pequenas. A pandemia trocou-nos as voltas e tivemos de guardar essa ideia para quando fosse possível. Nas salas mais pequenas e neste tipo de clubes há uma proximidade física, real e de cara a cara que serve para testar se as canções estão a chegar às pessoas da forma como queremos. Além disso, o público que frequenta estes sítios costuma ser amante da música ao vivo. É um público fiel, exigente e com um olhar crítico para o que se leva a palco. São ingredientes excelentes para quem está a atuar no palco. É excelente para quem gosta de ter à frente gente cúmplice e atenta.
Há outra coisa que nos está a agradar imenso nesta digressão. De alguma maneira, estamos a prestar a nossa pequena homenagem a salas que são muito relevantes para a saúde da música portuguesa. É um circuito muito importante para bandas que estão a dar os primeiros passos ou para artistas que estão a apresentar o primeiro trabalho. São salas que foram muito prejudicadas com as regras sanitárias [de combate à Covid-19]. A resistência destes espaços foi testada a um nível muito exigente. É a nossa homenagem a essa resistência, a essa resiliência.
É para dar tudo o que têm...
É isso mesmo. Dar sem filtros. Não é que a gente costume subir ao palco com filtros, mas tocar numa sala mais formal ou num palco de festival, mais distante das pessoas, permite que haja alguma defesa. (risos) Estamos mais protegidos pelas luzes. Nestas salas mais pequenas vamos estar mesmo muito perto das pessoas. Vamos estar tão perto que até o suor se vai notar. É muito importante dar tudo o que temos. Não há como fingir, se a coisa não for bem feita. (risos)
Não é que precisem de proteção...
Por mais anos que andemos na estrada não há como evitar essa sensação de vertigem sempre que subimos ao palco. A vertigem perante o desconhecido. Nunca temos o público dado como garantido e nunca damos um concerto a achar que já dominamos tudo. É sempre uma vertigem. É sempre um risco. É isso que nos dá prazer quando atuamos ao vivo.
Este é o ano em que estão a celebrar 30 anos de estrada. Como é que se escolhe um alinhamento para também assinalar este marco?
Não é fácil. (risos) Andámos a "bater com a cabeça nas paredes" para decidir. O que facilita a escolha é o facto de, mesmo com 30 anos de carreira, sabermos que queremos celebrar a olhar para o futuro. É por isso que estes concertos vão ter como prato forte o nosso último disco. Temos urgência em mostrar essas canções às pessoas, mas também fomos ao nosso repertório procurar temas mais antigos que têm a ver com esse espírito. Não só com o novo disco mas também com aquilo que nos inquieta e que nos anima a fazer música neste momento. Tem sido esse o nosso foco para escolhermos as canções que farão parte desta digressão. Também queremos experimentar canções de outros autores, temas que não são nossos mas dos quais gostamos muito. É uma forma de homenagear parceiros com quem trabalhamos. É uma ocasião para aprendermos outro repertório e descobrir outras canções que não as nossas.
A nossa vontade é que cada concerto seja diferente. Não vamos ter alinhamentos completamente diferentes de uma sala para a outra mas queremos guardar algo único para cada um dos clubes. Estamos a reunir material para alargar o nosso leque de escolha e conseguirmos variar de espetáculo para espetáculo.
O que é que guardas, de forma mais nítida, do início dos Clã?
É estranho. Não sinto que tenha havido uma grande diferença na relação que temos com o público. É certo que no início não tínhamos tanta gente a conhecer o nosso trabalho. Éramos mesmo novatos. A sensação de subirmos ao palco na condição de desconhecidos era real. Era mesmo assim. Agora é diferente. As pessoas já nos aplaudem quando subimos ao palco. Mas a sensação de estar a começar de novo atravessou a carreira dos Clã.
O facto de querermos experimentar coisas diferentes em cada disco ou de encontrarmos novos parceiros que nos levaram para outros caminhos artísticos. Tudo isso acaba por nos trazer, em cada etapa, o frisson de estarmos a começar de novo. Acho que foi algo que nos manteve saudáveis, em termos criativos, durante este tempo todo. Não só porque havia a frescura de estarmos a fazer algo que nos animava, que sentíamos que era urgente por não ser uma lição repetida, como também pela humildade de não darmos o público como garantido. De não darmos o sucesso como algo garantido. Tivemos de continuar a trabalhar. Continuámos a ensaiar muito para subir a palco e merecer os aplausos. Mas de facto, quando começámos, a adrenalina era tanta que, no final dos concertos, sentia-me tão cansada que, por vezes, nem conseguia falar. (risos) Ficava mesmo de rastos em termos vocais. No dia a seguir estava toda partida. Eram dores boas, claro. Com o tempo e com a experiência fomos ganhando algum endurance. (risos)
Datas da digressão "Dá o Que Tem":
26 de abril - MusicBox, Lisboa
27 de abril - Cine-Incrível, Almada
28 de abril - Salão Brazil, Coimbra
29 de abril - Stereogun, Leiria
30 de abril - Carmo 81, Viseu
4 de maio - GreTUA, Aveiro
5 de maio - Maus Hábitos, Porto
6 de maio - La Fábrica de Chocolate Club, Vigo
