Coimbra foi a Paradise City dos gunners
Quase três horas de grande poderio ao vivo dos Guns n' Roses, especialmente de Slash.
Os Guns n’ Roses continuam um maquinão instrumental de alta cilindrada, com o guitarrista principal Slash ao centro dessa força suprema, em quase três horas e 29 músicas de demonstração de força no bem composto Estádio Cidade de Coimbra.
Welcome to the Jungle foi a porta de entrada ao ecossistema bravo dos Guns, um mato do melhor do grupo, num viveiro de acordes empáticos e de curvas vocais de Axl, com os gaguejos como vocação e não como distúrbio. Noutros tempos, era um xeque-mato. Mas em Coimbra ainda fez estremecer o público.
Axl Rose com cinco ou seis fios ao pescoço, calças e camisola escuras e um montão de pulseiras, surge de óculos escuros, repetindo as rotações de 360º com o suporte de microfone, o seu amparo para a ginga de anca e o jogo de pernas. A ginga é menos ágil e o microfone deixa de se ouvir a meio. Mas os Guns ligaram rapidamente a ignição assim que entraram em palco.
Axl Rose tem agora um ar de cavalheiro, longe dos tempos em que era um rebelde irascível. E elogia-nos: “What a great crowd, it’s good to see you”, afirma com convicção.
Logo a seguir, instaura-se a ‘Chinese Democracy’, uma amálgama de vários subgeneros de rock pesado numa só canção. Bad Obsession soa a uma rock & rollada com muito blues e uma vénia aos Rolling Stones, sob a batuta autoral de Izzy Stradlin, que, como se sabe, já não toca nos Guns. Slash faz uma homenagem à Little Richard com o jogo de pés veloz enquanto toca a sua guitarra. E Axl gesticula muito os seus braços e deixa-os suspensos, num estilo que lhe conhecemos há muito.
Logo após Out Ta Get Me, a brigada Gn’R mostra o que é uma armada hard-rocker em Mr. Brownstone, uma canção sobre o consumo de heroína de Izzy Stradlin: “I used to do a little but a little wouldn't do it/ So the little got more and more”, canta Axl Rose.
Isaac Carpenter, o novo baterista, com quem McKagan já tocou nos Loaded, está sempre em trabalhos naquele kit de pratos e bombos, assegurando a colagem entre as canções. A versão de Live and Let Die, dos Wings é uma montanha russa emocional, com Axl Rose a puxar pela voz da forma mais aparatosa e acelerando as suas rotações com o suporte de microfone, Duff McKagan faz os coros mais meigos que pode e Slash elabora um dos seus solos mais entranhados, numa homenagem grandiloquente a Paul McCartney.
Em Estranged, Dizzy Reed, de óculos escuros e um colete de couro, ganha margem para brilhar ao piano e ser a estrela maior dos Guns durante dois minutos, mesmo que lá atrás. Double Talkin Jive é barra pesada, com Slash cada vez mais poderoso nos vários malabarismos com a guitarra, ele é o dono disto tudo, com os dedões anelados a dançarem vigorosamente pelas seis cordas.
Knockin' on Heaven's Door é uma versão que se tornou tão famosa quanto o original, com a camuflagem militar do rock e os dons e trejeitos vocais de Axl, a tentar dar outra largura à canção. Em 2025, a interação de Axl com o público continua a vingar, ainda por cima com os duelos de solos de guitarra entre Slash e Richard Fortus. Axl está num esforço vocal hercúleo, enquanto o público ilumina o ambiente com as lanternas dos telemóveis.
O azedume amoroso da letra de You Could Be Mine é a combustão para a aceleração rocker. Até o baixo de Duff ganha mais quilos, tal o peso da canção. É um hard-rock vertiginoso onde não há tempo para Axl contemplar o que quer que seja. A conclusão é majestosa, com Axl a berrar os seus agudos, Slash a dedilhar a guitarra na vertical e o baterista Isaac Carpenter aos saltos no banco enquanto bombeia baquetadas.
A música Rocket Queen apanha Axl exposto no seu desgaste vocal. Para compensar a quebra de Axl, Slash faz uns efeitos vocais num microfone vocoder em parelha com o exercício manual na guitarra e ainda faz um slide com o seu dedal.
O baixista Duff McKagan gosta de interpretar as músicas dos seus ídolos. Em Coimbra, escolheu vocalizar New Rose, dos Damned, com os Guns em modo feroz e punk. O momento liga-se bem a It’s So Easy, em que a tareia continua, já com Axl de volta
O vocalista, visivelmente bem disposto, simula o esquecimento do nome do baterista até criar um suspense e dizer sem hesitação, Isaac Carpenter, durante as apresentações de cada um dos membros da banda.
Dantes, Slash tinha o chapéu medalhado de cartola enfiado na cabeça e uma vegetação capilar densa que lhe tapava a cara. O cigarro em chama era o seu único sinal de vida acima do pescoço. Hoje, o seu rosto vê-se melhor, nunca tira os óculos escuros e esse ar alheado nunca o prejudica no brio na guitarra elétrica. Faz o seu longo solo com muita agilidade de blues. Logo a seguir… bem logo a seguir reaviva outro monstro, Sweet Child o' Mine. O arranque é com aquele acorde de guitarra circular que dinamita logo o tema, que vai progredindo por vários recantos num caldeirâo mágico de riffs e solos orelhudos de Slash na guitarra elétrica. Axl, como sempre, puxa pelas cordas vocais, todo esganiçado. Entretanto, o público desperta do espanto e resolve participar vivamente. Axl Rose ressurge com muda de roupa feita, de camisa catita, um lenço caro, um casaco de veludo com brilhos e um novo par de óculos escuros.
É declarado o Civil War, um pedido de paz na intimidade amorosa que tem também pendor político Falhas na amplificação do microfone traem Axl num momento de grande projeção. O cantor vai depois buscar o seu casaco de cowboy excêntrico e Slash fecha o tema com um riff dos Thin Lizzy.
Chega depois a altura de November Rain, um lamento amargo de um amor mais desejado do que possível. Sem saber, Axl canta o tema a seis quilómetros da mítica Quinta das Lágrimas onde uma das grandes paixões da nossa história, entre D. Pedro I e Inês de Castro, termina abruptamente com o assassinato pela calada da jovem mulher. A canção homérica de Axl é um épico sentimental em modo de ‘piano man’ ao estilo do seu ídolo Elton John, com grandeza sinfónica e de visão, mesmo que com a voz sumida.
O concerto entra depois num pequeno periódo mais desanuviado, com Patience, num momento doce e acústico Axl Rose era o único de pé A balada Don't Cry é cantada ao lado do Mondego que cintila história e onde ecoa a Balada de Outono que José Afonso cantou: “Águas das fontes calai/Ò ribeiras chorai”. Don’t Cry uma grande balada chorosa no sentido clássico do termo. Axl tenta aguentar a voz, com Duff firme nos coros, que se revelam quase tão importantes quanto as vozes principais
Depois de I Used To Love Her, os Guns reentram no punk com a versão de Down on the Farm dos UK Subs, com Axl a vociferar e não tanto a cantar. Em Nightrain, é a vez de Slash dar voltas se 360°, mas com a guitarra elétrica.
Os acordes de Slash e a batida da bateria abrem as portas do Paradise City. Axl Rose usa um apito e lança-o ao ar antes dos Guns levantarem o Concorde num tema que vai a várias velocidades. O palco torna-se numa correria de músicos para cá e para lá, no fecho glorioso do concerto. Após a longa despedida da banda ao público, Slash é o último a sair do palco, lançando palhetas ao público sem parar.
