Conan Gray: o marinheiro chega ao último porto
Concerto de encerramento da digressão europeia na MEO Arena, em Lisboa.
O Parque das Nações, em Lisboa, é só por si um conjunto de reminiscências da vida no mar: torres de iluminação com as cores de faróis, um centro comercial que imita um grande paquete e a próprio MEO Arena tem o desenho arquitetónico de uma nau ao contrário. Nesta noite, a fauna humana de fãs de Conan Grey vinha a preceito com a zona oriental da capital e, acima de tudo, com o guarda-roupa do último álbum do cantor, “Wishbone". Via-se muita gente com os chapéus de marinheiros: uns de chapéu de oficial da marinha, com aquela pala rigida: muitos mais com aqueles chapéus redondos de lona. A insígnia metalizada da âncora não faltava. Alguns vinham mesmo com a farda completa.
Pouco passava das 20h30 quando a sala escurece drasticamente. Arrancava o I ato, “a wishbone never breaks even, com o marinheiro Conan Gray entra a pedalar uma bicicleta, num cenário de pradaria, com um moinho, para cantar ‘My World’. Lá atrás, próximo do casebre da imagem, tocava o septeto, também de farda completa de marinheiro. Dia e noite alternam-se no cenário, como se alternam as canções. Em ‘Never Ending Song’, fica noite estrelada, com Conan Gray a iniciar as suas passeatas pelas duas línguas de palco em V.
Ao terceiro tema, ‘Care’, o cantor de 27 anos dá mais uns saltinhos e umas reviravoltas, mas o público pula ainda mais. Conan Gray lembra que este concerto é o último da digressão, preparando-se para uma pausa, antes de interpretar ‘Wish You Were Sober, numa pop toda alegre da vida.
Segue-se o II ato, “I got the short end of the stick”. Conan termina o turno de marinheiro, veste o pijama e deita-se na cama. Durante o sonambulismo, Gray sai da cama e começa a cantar ‘Class Clown’, enquanto surge uma fumarada de nuvens, mais as nuvens do cenário e do ecrã. Os temas ‘People Watching’ e ‘The Cut That Always Bleeds’ são cantados pelo público com mais paixão e conhecimento do que o hino nacional do próprio país, enquanto dançam no ar luzes de telemóveis. Em ‘Nauseous’, Conan Gray solta o seu primeiro “obrigado” em português a meio da interpretação, de guitarra acústica à cintura. As luzes dos telemóveis continuam a abanar, não é só no cenário de palco que o céu está estrelado.
Por quatro minutos, a banda sai de cena. Conan senta-se na ponta da língua de palco, com um lume a crepitar e uma vegetaçãozinha simulados. “Sou uma rapaz vulgar do Texas”, diz ele, antes de uma interpretação mais acústica e a solo, com mais improviso e, porque não dizer, com mais ‘pregos’.
A abrir o III ato, “i took the long way to realization”, Conan Gray surge numa canoa, com um lago ao fundo, de camisa de folhos e colete. Quando se lança a ‘Romeo’, um manto de vozes esganiçadas e adolescentes faz um coro de grande marcação. ‘The Best’ é uma balada dedicada aos ex - “quem é que está com o seu ex?”, pergunta o cantor.
Depois de mais uma passagem pela cama em ‘Connell’, segue-se o ato IV, ‘I wished for love, and i found it’, ao som de ‘Actor’, em que o dia aclara e o cenário do campo volta à nossa vista. Depois, tal como recomendado, quando falta pouco para o final. segue-se um pico de energia coletiva e de exaltação, em ‘Maniac’ e em ‘Vodka Cranberry’, com Conan a vaguear pelas línguas de palco para cantar junto do seu incansável coro coletivo.
No encore. Conan Gray reaparece com uma vestimenta de marinheiro mais principesca, toda cintilante, para cantar ‘Memories’ e ‘Caramel’, debaixo de uma chuvada de papelinhos, ou melhor, de ‘wishbones’, no ponto final a hora e meia de espetáculo. Terra à vista, o marinheiro termina a sua euro-navegação.
