CR7: "If man is five... then god is seven"
Seleção de dez exibições de outro mundo para celebrar os seus 40 anos de vida.
Numa das músicas mais célebres dos Pixies, ‘Monkey’s Gone To Heaven’ (de 1989), Black Francis canta os famosos versos “if man is five and devil is six, then god is seven”. Cristiano Ronaldo é também um nº7 e tem sido uma espécie de deus greco-romano, um todo-o-poderoso dos relvados que resiste à idade e para quem só o céu é o limite.
No dia em que o camisola 7 faz 40 anos, destacamos dez das suas mais colossais exibições. Cinco das dez exibições selecionadas foram pela equipa de Portugal, as outras cinco pelos clubes que mais representou enquanto jogador de topo, sobretudo o Real Madrid, onde a sua produtividade foi para além do explicável.
30 de junho de 2004
Portugal - Países Baixos (Europeu)
No Europeu de 2004, aos 19 anos, Cristiano Ronaldo ainda não era um 7, mas um 17. Não tinha o estatuto de Figo, nem a sua exuberância. Não lhe davam 90 minutos. Era ainda um leão a aprender a rugir, um franzino longe do porte físico de mais tarde. Era um traquinas que endiabrava pelas alas, quando dava mais golos do que marcava. Mas o Euro 2004 em Portugal foi o momento em que apareceu para dizer que já estava ali. A colmatar um Pauleta em baixo de forma, CR17 apareceu para faturar quando foi preciso, como na importantíssima meia-final contra a Laranja Mecânica. Num canto, a meio da primeira parte, saltou mais alto o madeirense, com uma cabeçada afirmativa para as redes de van der Sar. Portugal ganharia por 2-1 e apurar-se-ia pela primeira vez para a final que perderia para a Grécia. Ficou eternizado o choro de Ronaldo. Ele queria mais. E teve, mas só 12 anos depois.
5 de maio de 2009
Arsenal – Manchester United (Liga dos Campeões)
Cinco anos depois, Cristiano Ronaldo era já um nº7 carismático e um todo-o-poderoso no relvado. Um dos melhores do mundo. Ou melhor, um dos dois melhores do mundo (alô, Messi!). O Manchester United tinha hegemonia na Premier League, com Alex Fergusson como técnico principal. E a rivalidade com o Arsenal treinado por Arsène Wenger ainda fazia muita faísca. Eram um duelo entre gigantes que chegava a palcos internacionais como a meia-final da Liga dos Campeões. A primeira-mão, com uma vitória caseira por 1-0 do Manchester United, deixava tudo em aberto para a segunda-mão, na catedral do Arsenal, o Emirates Stadium.
Do lado do Manchester United United, jogavam Ferdinand, Evra ou Rooney; do lado do Arsenal, corriam Fàbregas, van Persie e Adebayor. Só se diria que se tratava de um confronto equilibrado, se nos esquecêssemos de Cristiano Ronaldo. Naquele dia de 5 de maio de 2009, CR7 estava possuído, inspirado e demolidor. Invadiu a grande área do Arsenal e assistiu o Park Ji-sung ao 8º minuto. Aos 11 minutos, Cristiano Ronaldo sofre a falta para o livre direto que ele próprio marcou, numa bomba a longa distância que deixou o guarda-redes Almunia atónito. Foi desfazendo a defesa do Arsenal e acabrunhou o rosto tenso de Wenger, que pouco mais podia fazer que observar um jogador adversário em noite arrasadora. Aos 60 minutos de jogo, com um toque de calcanhar no meio-campo defensivo, Cristiano Ronaldo inicia uma ofensiva supersónica com Park Ji-sung e Wayne Rooney, que em cinco toques na bola e 80 metros galopados em pouquíssimos segundos, termina no pé direito de Ronaldo e num tiro para o canto superior da baliza.
15 de junho de 2012
Portugal – Países Baixos (Europeu)
Se dizem que Deus está em todo lado, então devemos estar a falar de Cristiano Ronaldo neste encontro em específico. O nº7 aparecia pelas alas da direita e da esquerda, recuperava bolas, pegava no esférico para os lançamentos laterais, fazia assistências e rematou que se fartou. O guardião neerlandês Stekelenburg teve um trabalhão entre os postes por causa do possuído Ronaldo. Uma bola forte ainda bateu no poste e outras duas foram para o fundo das redes, pelo suspeito do costume. Com a vitória por 2-1 contra a seleção laranja, a equipa das quinas apurava-se para os quartos-de-final. A seleção nacional era quase Cristiano Ronaldo e mais 10. CR7 pode ter um brilhante histórico nos Europeus de Nações, mas nunca teve uma exibição como esta na mediática competição.
19 de novembro de 2013
Suécia – Portugal (Apuramento para o Mundial)
Tratava-se da segunda mão do play-off de apuramento para o Mundial de 2014. Portugal tinha ganho por 1-0 na Luz. A eliminatória ainda estava em aberto para o jogo na Suécia. Dias antes deste jogo, Blatter tinha feito uma triste figura de zombaria a Ronaldo, imitando as suas poses para o desmerecer na comparação com o seu "preferido" Messi. Mas se o astro argentino era o melhor futebolista com os pés, CR7 era o melhor atleta ao serviço do futebol. E foi isso que mostrou em Solna, a 19 de novembro, com três golos marcados em contra-ataque, em três provas de velocidade do imparável nº7, em remates de fúria “picados” pela troça recente do Presidente da FIFA. Cristiano Ronaldo esteve muito próximo de um poker, tão inspirado e insaciável que estava naquela noite.
Portugal venceu a Suécia por 3-2 em Solna, num saldo geral de 4-2 dos dois confrontos: quatro golos de Cristiano Ronaldo contra dois de Ibrahamovic. Ambas equipas pareciam pequenas para a dimensão daqueles dois gigantes. Cristiano Ronaldo venceria a Bola de Ouro desse ano, mas o maior prémio foi o aplauso do rival Ibrahamovic perante um dos três golos estupendos contra a Suécia.
22 de junho de 2016
Portugal – Hungria (Europeu)
O título de campeão europeu de 2016 é o maior título de Ronaldo por Portugal, mas a nível individual e exibicional nem sequer foi o seu melhor momento. Destacam-se ainda assim duas exibições superiores do capitão na afortunada campanha em França: o 3-3 contra a Hungria na fase de grupos e a vitória contra o País de Gales nas meias-finais por 2-0. No jogo contra a Hungria, assumiu a pele de salvador, safando Portugal de uma derrota e de uma eliminação precoce e embaraçosa na fase de grupos. Por três vezes, Portugal esteve em desvantagem, numa partida nervosa, diante de uma Hungria inspirada na pontaria. Quando foi preciso, Cristiano Ronaldo surgiu em missão SOS, com dois golos na segunda parte. O seu primeiro golo é uma obra de arte, com um toque de costas, iludindo o guarda-redes húngaro das calças, Király. O seu segundo e decisivo golo (e o terceiro de Portugal), que nos safou, foi uma cabeçada com a força de um pé, na direção certa da baliza. Um golo à Ronaldo, portanto. Sem esta exibição de CR7, Portugal não teria sido campeão europeu 18 dias depois.
19 de novembro de 2016
Atletico Madrid – Real Madrid (La Liga)
Enquanto jogador madrilista, CR7 superou-se por várias vezes contra o Barcelona, mas o avançado madeirense foi sobretudo carrasco do rival da capital espanhola Atletico Madrid. No penúltimo dérbi jogado no antigo Estádio Vicente Calderón, Ronaldo estava num daqueles dias. Depois de um golo quase cantado, safado em cima da linha pelo muro de carne e osso Oblak, Ronaldo mandou minutos depois um tiro para o fundo das redes, através de um livre direto cuja trajetória bate na barreira e trai o guarda-redes esloveno. Na segunda parte, a fera lusitana esteve ainda mais assanhada. O seu segundo golo foi a conversão de um penalti cuja falta tinha sido conquistada pelo próprio numa fuga sua para a área. O festejo de CR7 parecia uma sessão de fotos, com pose de cócoras para a câmara de filmar.
O banho merengue de claras em castelo entre as quatro muralhas dos colchoneros estava para durar. CR7 e o seu exército ligam o TGV para um contra-ataque cujo último toque é o do português para a baliza, a impulsionar nova pose do avançado, desta vez a contemplar a afición do Atletico que o tanto odeia. Aquele tinha sido o primeiro hat-trick contra o Atletico naquela temporada de 2016-17. Outro hat-trick de Ronaldo estaria para acontecer contra o Atletico, nas meias-finais da Liga dos Campeões, no Santiago Barnabéu. Há que compreender porque é que os colchoneros odiavam tanto Cristiano Ronaldo.
18 de abril de 2017
Real Madrid – Bayern Munique (Liga dos Campeões)
Nem nos prolongamentos, os dons de CR7 se esbatem. Na segunda-mão dos quartos-de-final da Liga dos Campeões, o goleador conseguiu destroçar um fortíssimo Bayern (com Neuer, Hummels, Lahm, Alaba, Xabi Alonso, Arturo Vidal, Ribéry ou o letal Lewandowski) nos 30 minutos extra, com mais dois golos a arredondarem um hat-trick e a colocarem o Real Madrid nas meias-finais, com uma vitória por 4-2. O Real Madrid seria campeão europeu nesse ano.
3 de abril de 2018
Juventus – Real Madrid (Liga dos Campeões)
Aos 64 minutos de jogo, os adeptos da Juve aplaudem o nº7 madrilista, o treinador merengue Zidane leva a mão à cabeça e numa parte do estádio ecoa bem alto o nome de “Ronaldo” e não de “Madrid”. O que tinha acabado de acontecer – aquele pontapé de bicicleta – foi um momento mágico de Cristiano Ronaldo que, com a bola em arco picada por Carvajal, eleva-se de costas no centro da área e desfere um remate acrobático que deixa Buffon preso no mesmo sítio. O momento artístico de Ronaldo faria as capas de jornais pelo mundo fora e foi muito enaltecido pelos especialistas de desporto em numerosos debates. Este foi um dos 158 bis de Cristiano Ronaldo. O seu primeiro golo da partida foi logo aos três minutos, aproveitando uma descoordenação da defesa alvinegra para, à solta, dar um toque em souplesse na bola e enviá-la com elegância para as redes. Nota artística de 10 para Ronaldo naquela noite, num dos momentos brilhantes da caminhada para o seu quinto e último título de Liga dos Campeões (o quarto ao serviço do Real Madrid).
15 de junho de 2018
Portugal – Espanha (Mundial)
Faltam dois minutos para os 90, Portugal está a perder por 2-3 contra Espanha e eis que surge um livre próximo da meia-lua da área espanhola. CR7 faz a sua pose compenetrada, puxa o calção direito acima da coxa, seca as mãos suadas na camisola vermelha e faz o que sabe: um arco que faz tangente à barreira e à barra da baliza, a cair no sítio certo da baliza, perante um estático guarda-redes David de Gea. Estava feito o empate 3-3 e o hat-trick de Ronaldo, o seu único em Mundiais. O livre direto de Ronaldo foi celebrado em muitas praças e cafés e até provocou buzinões na Times Square de Nova Iorque. Entre as centenas de imagens que passam naquela famosa artéria, era o livre de Ronaldo que os nova-iorquinos estavam a ver.
12 de março de 2019
Juventus – Atletico Madrid (Liga dos Campeões)
No futebol são 11 contra 11 e no final o Atletico perde contra a equipa do Cristiano Ronaldo... que em 2019 era a Juventus. Depois de “picado” pela troça de Blatter em 2013, que o inspirou para um hat-trick contra a Suécia, Ronaldo volta a sentir uma semente revanchista dentro dele após ter visto a celebração excêntrica do treinador colchonero Diego Simeone, em que levou as mãos aos órgãos genitais em que festejava uma vitória contra ele. Depois de uma derrota por 2-0 no Metropolitano, na primeira-mão dos oitavos-de-final da Champions, Cristiano Ronaldo estava assanhado para uma exibição explosiva. Após marcar o primeiro golo aos 27 minutos, Cristiano Ronaldo esticou os braços para levantar as bancadas do Juventus Stadium num gesto de crença de que era possível dar a volta à eliminatória. E foi. Cristiano Ronaldo assinou mais um hat-trick contra o Atletico Madrid e a Juventus passou aos quartos-de-final da Champions. No final, Cristiano Ronaldo foi ainda mais enfático na imitação do gesto obsceno de Simeone. Foi CR7 quem riu por último.
