Quem cuida dos cuidadores informais? E como se ajuda a cuidar deles?

Oito em cada dez cuidadores informais precisam de ajuda psicológica, mas só quatro em cada dez a procuram: a psicóloga Rita Ferreira da Costa explica o que provoca esta distância e que sinais merecem atenção.

Resumo IA

• A Ordem dos Psicólogos revelou que 88,3% dos cuidadores informais sentem exaustão emocional e 80% precisam de apoio psicológico.

• Apenas 40% procuram ajuda, apesar da escassez de recursos disponíveis.

• O Estatuto do Cuidador Informal garante apoio psicossocial e subsídios, promovendo o reconhecimento e a valorização do seu papel.

Resumo feito por IA e revisto pela redação da Rádio Comercial

São pessoas que cuidam de outras sem terem formação profissional para isso e a vida não escolhe regras: há filhos que cuidam de pais, sobrinhos que cuidam de tios, idosos que cuidam do cônjuge ou até primos que cuidam de primos.

De acordo com um estudo da Ordem dos Psicólogos publicado em julho de 2025, 88,3% dos cuidadores informais já sentiu exaustão emocional e oito em cada dez reconhece que precisa de apoio psicológico, mas só quatro em dez dão o passo de o procurar.

Neste Dia Mundial do Cuidador Informal, a psicóloga Rita Ferreira da Costa - que exerce na Clínica Teresa Rebelo Pinto - explica porque é que este passo pode ser tão difícil de dar, mas também como é possível aliviar o peso de quem cuida ou como é que cuidar muda de geração para geração.

O que pesa

Há "dois prismas" que ajudam a explicar a relutância em pedir ajuda. Por um lado, "a sobrecarga é de tal ordem que muitas vezes o cuidador está, por natureza da função, em segundo plano", tendo em conta uma vez que a pessoa cuidada "tem necessidades muito emergentes", o que faz com que possa "ser difícil" reconhecer que se precisa de ajuda. Por outro, os recursos que estão disponíveis "quer nas instituições, quer nos nos sistemas de apoio - onde se inclui Saúde e outros da área Social - têm ainda uma resposta que se considera escassa face às necessidades dos cuidadores".

Rita Ferreira da Costa diz que "ainda há um longo caminho a fazer em termos do reconhecimento da exigência deste papel" porque, para quem nunca contactou com cuidadores informais, "é muito difícil imaginar o quão desafiante pode ser estar no papel de cuidadores de forma permanente".

A psicóloga relata que, pela sua experiência, muitos dos cuidadores ficam "tão envolvidos no seu papel de cuidar e tão absorvidos pelos problemas da pessoas de quem cuidam, que acabam por ficar isolados". Muitos desconhecem também os serviços que existem para ajudar a aliviar a sobrecarga.

Cada pessoa reage de forma diferente ao papel de cuidador, mas há desafios comuns, nomeadamente "o cansaço e a exaustão", mas também a "logística" de dar resposta a frentes tão diversas como os cuidados de saúde, o apoio no dia a dia ou a supervisão constante.

A isto junta-se a "carga emocional e afetiva", já que os cuidadores assumem uma "responsabilidade e um nível de preocupação que é muito superior ao da maioria das pessoas que não têm este papel".

Quando não se trava a exaustão

É do cansaço que, para Rita Ferreira da Costa, pode nascer o pior cenário. "É o nível de exaustão não ser percepcionado a tempo de prevenir o desenvolvimento de um quadro clínico mais grave. Podemos estar a falar de uma depressão, de uma ansiedade generalizada e também ao nível, por exemplo, do sono", refere.

No campo do sono, os cuidadores têm "maior prevalência da insónia e maior fragmentação do sono, no fundo porque estão muito hiper vigilantes. Durante o período da noite, em que devemos reparar tudo aquilo que estamos a fazer ao longo do dia, o cuidador está preocupado sobre o que pode acontecer durante a noite, o que pode ser preciso amanhã e a pensar se será capaz de dar respostas, dia após dia, a todas as necessidades da pessoa de quem cuida".

Como é que o cuidador se pode cuidar?

O autoconhecimento, explica, torna-se assim num instrumento importante, apoiado num trabalho feito de forma "mais individualizada" e ao lado do qual "o apoio psicológico se constitui como um recurso fundamental".

A nível comunitário, Rita Ferreira da Costa nota que "também estamos cada vez mais capazes de apoiar estas pessoas através de formação, de grupos terapêuticos e da promoção desta noção do autocuidado", de forma a permitir que o cuidador possa "alternar com outros cuidadores ou com outra pessoa que assuma a prestação de cuidados".

A nível individual, a psicóloga aconselha atenção a sinais do dia a dia e aos seus ritmos: "Como é que se continua a relacionar com as suas pessoas? Como é que dorme? Como é que come? Como é que se movimenta? No fundo, estar atento a estes pilares da saúde mental que têm que ser reforçados."

Perfis diferentes

Com o envelhecimento da população, os perfis dos cuidadores informais têm também evoluído de forma heterogénea, o que resulta em cada vez mais idosos a cuidar de idosos, uma situação que "aumenta o risco quer para o próprio cuidador informal, quer para a pessoa que é cuidada". Nestes casos, os recursos pessoais do cuidador "começam a ser mais diminutos, sejam os níveis de irritabilidade, seja a possibilidade de assegurar uma supervisão cuidada e capaz de dar resposta".

Surge também outro perfil, que é o do "cuidador sanduíche", alguém que cuida de duas gerações ao mesmo tempo e, por vezes, ainda tem um emprego para manter. Nestes casos, "o maior risco é a pessoa perder de vista aquilo em que realmente pode fazer a diferença" e o autocuidado "muitas vezes é aquilo que fica no final da lista".

"Por natureza estas pessoas ficam em segundo plano, até porque o tempo acaba por ser escasso e as oportunidades de descanso são mesmo muito reduzidas. A pessoa perde aqueles pequenos luxos como ir ao cinema, dormir uma noite fora, fazer um programa um bocadinho diferente da sua rotina. Fica totalmente envolvida naquela espiral de cuidados em que tem de se mover em duas direções: para a pessoa mais velha e para a pessoa mais nova. Acaba por se isolar, que é também dos grandes riscos. O cuidador fica tão centrado nesta dinâmica que acaba por esquecer-se de si próprio", alerta.

Como ajudar quem cuida

De forma a evitar estes cenários, seja com cuidados mais velhos ou mais novos, a psicóloga diz que o primeiro passo é a proximidade, normalmente com a família como um primeiro apoio. Além desta camada, "o mais importante é que a pessoa se sinta validada naquilo que está a fazer e que, pouco a pouco, lhe possa ser oferecida ajuda específica".

Rita Ferreira da Costa sugere que o cuidador "experimente a sensação de se afastar da pessoa de quem cuida, inicialmente por curtos momentos, até sentir que há aspectos que podem ser partilhados, doados ou entregues a outros".

Desafiada a escolher um único conselho central, a psicóloga elege a noção de que o cuidador "não deve sentir-se sozinho neste enorme desafio", sendo para isso necessário demonstrar-lhes que não são "os únicos capazes de cuidar da pessoa que se ama ou da família".

"Há sempre uma forma de podemos partilhar isto com outros e isso vai diminuir a sobrecarga. É importante que o cuidador também se cuide e que também deixe cuidar daqueles que são próximos, seja através das redes de suporte mais próximas, de outros familiares, dos amigos, seja através dos serviços que já vão desenvolvendo inúmeras iniciativas para cuidar melhor também dos cuidadores", remata.

O que diz o Estatuto do Cuidador Informal?

De acordo com o Estatuto do Cuidador Informal e as informações publicadas online pela Segurança Social, os cuidadores informais têm acesso a apoio psicossocial e a formação, aconselhamento, acompanhamento por profissionais da Segurança Social e da Saúde.

Na área financeira e social, o estatuto prevê acesso ao Subsídio de Apoio ao Cuidador Informal, Seguro Social Voluntário (SSV) com taxa reduzida e a uma majoração do Subsídio que corresponde a 50% do valor das contribuições pagas do SSV.

Está também previsto o chamado Descanso do Cuidador, um período de tempo em que a pessoa cuidada "fica temporariamente em resposta social (Família de Acolhimento a Adultos, Estrutura Residencial para Idosos, Lar Residencial, Serviço de Apoio Domiciliário) ou na RNCCI (Unidade de Longa Duração e Manutenção) e no âmbito dos Cuidados Continuados Integrados de Saúde Mental, na residência de apoio máximo ou redução do valor a pagar".

Na área do trabalho, é possível aceder ao regime de trabalhador-estudante ou a medidas de conciliação profissional, mediante acordo com o empregador ou de acordo com o que esteja definido no contrato coletivo aplicável.

O Estatuto prevê a figura de cuidador principal e a pessoa cuidada pode ainda ter até três cuidadores informais não principais. Estes últimos podem trabalhar em teletrabalho por quatro anos, horário flexível ou de trabalho a tempo parcial, também até quatro anos, ou ainda dispensa de trabalho suplementar. Está também prevista uma licença anual de cinco dias úteis para assistência à pessoa cuidada.

O cuidador principal é alguém que vive legalmente em Portugal, tem idade igual ou superior a 18 anos e condições de saúde para cuidar da pessoa que necessita. Tem de ser casada, unida de facto, parente ou afim até ao 4º grau da pessoa cuidada ou, não tendo laços de parentesco, deve coabitar com a pessoa cuidada. Não pode receber pensão de invalidez absoluta, pensão de invalidez do regime especial de proteção na invalidez ou prestações
de dependência. No caso de guarda partilhada da pessoa cuidada, ambos os progenitores podem ser cuidados informais não principais.

O reconhecimento como cuidador principal acontece se este:

  • For familiar e viver na mesma casa ou tiver vivência de entreajuda e partilha de recursos com a pessoa cuidada (pode morar ou não na mesma casa);
  • Não for familiar mas viver com a pessoa cuidada (tem de ser o único cuidador e ter o mesmo domicilio fiscal);
  • Prestar cuidados, ainda que a pessoa cuidada frequente estabelecimento escolar ou resposta social não residencial;
  • Não trabalhar (atividade remunerada, voluntariado ou estágio);
  • Não receber subsídio de desemprego;
  • Não receber pelos cuidados que presto à pessoa cuidada.