Da Weasel: dos fraques reza a história no Marés
Orquestra de Rui Massena aveludou um terco do concerto do coletivo de Almada. Atuação de Plutónio contou com Richie Campbell e Lon3r Johny.
Às 23h30, Carlão aparece de língua de fora, como um animal de palco pronto para atacar. “Adivinha Quem Voltou”. A frase resulta sempre, o tema funciona ainda melhor, rock miscigenado com hip hop, Ou o ADN dos Da Weasel.
Depois, a caravana abana para os dois lados do Atlântico: ‘Toque-Toque’ pende para África, ‘Nunca Me Deixes’ acosta na Jamaica.
Já ‘Dialectos de Ternura’ é bem o retrato da sociedade entre os dois homens das vozes: Carlão trata das rimas e Virgul puxa pelo seu lado de cantor no refrão. “Uhu, yeye, faz faz, bebé”. Joáo Nobre, de rosto tapado pelo seu habitual boné, toca com o baixo bem abaixo da cintura, ao estilo punk, e com um pé em cima dos monitores.
Dá-se o aviso: “Este som é para toda a gente”. Eis então ‘Toda a gente’. Carlão e Virgul abanam os braços como se fossem ventoinhas a tentar provocar a ondulação de braços no ar, e até a toalha é pegada para o movimento giratório. Em ‘Ready Set Go’, o público sente o puro flow e vibra com o tema. Em ‘Re-tratamento’, Virgul cria um bonito enlace vocal com o público e juntos cantam à capela.
O concerto muda. Na música ‘A Palavra’, entra o piano de Bernardo Sassetti e Carlão emociona-se naquele palavreado. A seguir, o palco abre-se a uma imensidão de músicos. Entra o maestro Rui Massena, a orquestra senta-se por trás do acrílico da bateria. Um contraste visual é logo evidente. Enquanto os MCs dos Da Weasel, Carlão e Virgul, estão com os calções largajões, cada um ao seu estilo, vemos de costas Rui Massena com o seu casaco de fraque. Joáo Nobre e o guitarrista Pedro Quaresma sentam-se. E Carlão lembra o concerto de há 20 anos com Rui Massena no Jardins da Torre de Belém, antes de avançarem para o tema,.No Princípio Era o Verbo. ‘Manual de Iniciação a uma Vida Banal’ regressa aos alinhamentos ao vivo dos Da Weasel duas décadas depois, mas algum público demove, esfriado por esta junção de duas forças musicais distintas. Em ‘Sistema do Sistema, é a orquestra que sustém o tema e o ornamenta já sem os Da Weasel. Em ‘Negócios Estrangeiros’, Carlão lê a letra de José Luís Peixoto como se fosse um discurso de um político no palanque de um plenário.
No tema ‘Mundos Mudos’, a orquestra não só aveluda o tema, como consegue dramatizá-lo, enquanto Carlão abraça o irmão sentado e lhe sussurra qualquer coisa ao vivo. Em ‘Força’, é Rui Massena que se empolga-se e empolga toda a orquestra de forma mais exuberante. ‘GTA’ encerra a colaboração. “Façam barulho para a orquestra”, pede Rui Massena ao público. “Façam barulho para Rui Massena”, acrescenta Carlão.
A orquestra vai embora, ficam só Carlao e Quaresma em palco, para o tema ‘Bora Lá Fazer a Puta Revolução’, em que Carlão faz o aviso contra os discursos populistas. ‘Nigga’, ‘Bomboca’ e Tás Na Boa’ encerram um concerto que teve muito menos público do que o de há três anos no Marés, em Gaia. Há grande agradecimento dê Carlão ao irmão: “sem ele, não haveria Dá Weasel”. Carlão e Virgul vão até á ponta do palco, na conclusão em apoteose de ‘Tás Na Boa’.
Antes, Plutónio foi o dono do palco. O seu espetáculo de 80 minutos teve o impacto acrescido de convidados especiais como Lon3r Johny, no tema ‘25 de Abril’, ou de Richie Campbell em ‘C’est La Vie’, a quem Plutónio demonstrou uma grande gratidão.
Com o seu grande caparro e usando uma camisola de alças desportiva (de basquetebol, parece), contou com o apoio de cinco músicos num palanque um metro acima dele. Enfrentando um ambiente frio, tão frio quanto a temperatura, e depois de apresentar temas novos do próximo álbum, foi soltando, numa longa subida emocional, os seus temas mais badalados, como ‘Mapa de Cor-de-Rosa’ (que Plutónio descreve como uma “aula de geografia”), ‘Deja Vu’, ‘Última Vez’ ou ‘Por Enquanto’.
A artilharia popular mais pesada foi guardada para os doze minutos finais com ‘Somos Iguais’, com Plutónio a brincar a baixar e a subir o volume sonoro do tema, Interstellar, com o verso “vou-me embora” a soar a despedida, e, por fim, ‘Cafeína’, com o rapper a manejar a multidão como um líder de claque, puxando por cada uma das alas numa espécie de competição de ruído, e incentivando o pessoal a levantar e a saltar. Giro. Dentro da artilharia pesada dos minutos finais, acho que podemos ainda contar com o lembrete de Plutónio sobre o concerto a 5 de julho de 2027 no Estádio de Alvalade.
