Daniel Mordzinski transforma retratos em histórias de liberdade
A exposição "Imagens Cativas", do fotógrafo argentino Daniel Mordzinski, inaugurada no âmbito do festival BABELL, no Centro Português de Fotografia, é muito mais do que uma galeria de retratos de escritores.
Conhecido internacionalmente como “o fotógrafo dos escritores”, Daniel Mordzinski reuniu para esta exposição um conjunto de imagens que dialogam diretamente com a história do edifício que as acolhe: a antiga Cadeia da Relação do Porto.
“Quando comecei a imaginar esta exposição e sabendo que este maravilhoso edifício foi uma importante prisão e que conservava essa estrutura prisional, propus-me contar a história dos escritores que estiveram presos”, explica.
Dividida em duas salas, a mostra apresenta, numa primeira parte, autores que conheceram fisicamente a prisão, muitas vezes por motivos políticos. Na segunda, surgem escritores que fizeram da defesa da liberdade e da palavra uma causa central das suas vidas.
“‘Imagens Cativas’ não é apenas um jogo de palavras. É algo muito profundo nestas duas salas”, sublinha o fotógrafo. “Numa delas estão os escritores que estiveram presos; na outra, aqueles que lutaram pela liberdade. E muitos poderiam estar em ambas.”
O humor como ferramenta para revelar o escritor
Ao contrário da ideia frequentemente associada ao retrato artístico, Mordzinski rejeita a noção de que procura “captar a alma” dos seus modelos.
“Eu tento ser respeitoso, rápido e divertido. O humor é muito importante no meu trabalho. Mas é sempre um humor respeitoso, que nunca conduz ao ridículo.”
Ao longo da carreira, desenvolveu uma linguagem visual própria, marcada por encenações inesperadas e por uma cumplicidade construída com os autores que fotografa.
“Nunca traí um escritor. O jogo que lhes proponho é uma aventura rápida. Tento retirá-los da sua pose de escritor através de uma megapose.”
O resultado são imagens que se afastam dos retratos convencionais e revelam autores em situações improváveis, muitas vezes carregadas de simbolismo e ironia.
A lição de José Saramago: “Retratar é voltar a tratar”
Entre as muitas histórias que acompanham as fotografias expostas, uma das mais marcantes envolve José Saramago.
Pouco depois da atribuição do Prémio Nobel ao escritor português, Mordzinski encontrou-se com ele em Paris para uma sessão fotográfica. Determinado a não falhar, acabou por abandonar o seu método habitual.
“Queria tanto não fazer mal que fiz tudo mal”, recorda.
Após uma sessão frustrante, telefonou a Saramago para confessar o desastre.
“Disse-lhe: ‘Correu tudo mal porque deixei de ser eu’. Houve um longo silêncio. Então respondeu-me: ‘Retratar é voltar a tratar. Volta a tentar’.”
Nessa mesma noite, junto às margens do Sena, surgiu a fotografia que procurava.
“Graças à generosidade de José Saramago consegui a fotografia que tanto desejava. E consegui também voltar a ser eu próprio.”
Luis Sepúlveda e as histórias de uma longa amizade
Outro dos momentos mais emocionantes da conversa surge quando fala do escritor chileno Luis Sepúlveda, amigo próximo durante mais de três décadas.
A amizade levou-os a viajar juntos pela Patagónia e pela Terra do Fogo e a publicar obras em conjunto. Após a morte do escritor, em 2020, Mordzinski decidiu transformar em livro muitas das histórias que Sepúlveda lhe tinha contado ao longo dos anos.
“Percebi que, ao contar-mas, ele estava a colocá-las em segurança. E que a minha obrigação como amigo era contá-las.”
Dessa reflexão nasceu o livro Hotel Chile, cujo título recupera uma curiosa história da infância do escritor: o facto de ter nascido num hotel chamado precisamente Hotel Chile.
Ao recordar o amigo, a emoção torna-se evidente. “Há histórias verdadeiramente fantásticas”, afirma.
Uma vida dedicada à literatura
Mordzinski acredita que a fotografia, a literatura e o cinema sempre fizeram parte do mesmo percurso. Cresceu na Argentina durante a ditadura militar e encontrou nas artes uma forma de escapar à realidade.
“A literatura, o cinema e a fotografia foram maneiras de me refugiar e de imaginar que outros mundos eram possíveis.”
A primeira fotografia da sua vida foi tirada a Jorge Luis Borges, ainda adolescente. Um encontro que acabaria por definir toda a sua trajetória.
Hoje, olhando para trás, prefere falar de narrativa em vez de genialidade.
“A felicidade está em olhar pelo retrovisor da vida e perceber que vou construindo um relato fotoliterário.”
Um elogio ao BABELL
Além da exposição, Mordzinski destacou a ambição e a dimensão da primeira edição do BABELL, que considera um caso raro no panorama cultural contemporâneo.
“Trabalho em festivais literários há quarenta anos e poucas vezes vi primeiras edições tão ambiciosas, no único sentido positivo da palavra.”
O fotógrafo elogiou a qualidade dos convidados, a forte participação do público e a programação multidisciplinar que junta literatura, música e exposições.
“Parece-me um milagre, nestes tempos tão difíceis, existir uma ilha de sabedoria, inteligência e sensibilidade como são os festivais literários.”
Com “Imagens Cativas”, Daniel Mordzinski oferece precisamente isso: uma viagem pela literatura contemporânea através dos rostos de quem a escreveu, mas também pelas histórias que existem antes e depois de cada clique. Uma exposição onde as fotografias contam a história da liberdade que os escritores defenderam.
