David Bruno: "é o Portugal B que me inspira"
Entrevista ao cantoguionista, que inicia neste sábado, em Braga, a sua digressão de 2023.
David Bruno é uma persona que encarna uma outra personagem, François da Costa, no seu último álbum: a audionovela policial "Sangue & Mármore". Espécie de etnógrafo mais kitsch, David Bruno continua a criar histórias e conceitos por esse Portugal B fora, onde encontra a verdade do país por via da ficção.
Correu o país de lés a lés como profissional da indústria corticeira e agora é a sua mente que viaja pelo Portugal B desde que iniciou o seu percurso de cantoguionista. A partir de amanhã, David Bruno volta à estrada para mais um itinerário ao vivo pelo nosso pais. Neste sábado, no Theatro Circo (em Braga), dá o primeiro concerto deste ano. Seguir-se-ão atuações no Auditório Municipal de Vila Nova de Gaia (9 de fevereiro), no Courage Club (Guimarães, 18 de fevereiro), no Triciclo (Barcelos, 3 de março) e o Teatro Tivoli BBVA (Lisboa, 15 de abril).
Rui Reininho, Gisela João e Marlon (dos Azeitonas) são alguns dos convidados de "Sangue & Mármore" que poderão aparecer nalguns dos concertos de David Bruno.
Estás quase a começar a tua digressão de 2023. Como se transpõe para palco uma audionovela?
Esta audionovela transpõe-se para palco através da sua música, da sua banda sonora. Os concertos vão ter os meus temas antigos. O que vou tocar é parte da banda sonora, com os convidados em palco.
Os concertos vão ter um ecrã com imagens bonitas do nosso Portugal?
Com certeza que sim, é uma parte muito importante do meu espetáculo ao vivo. A projeção de vídeos, com luzes, é uma montagem com imagens do nosso Portugal B. O que as pessoas vêem nas imagens é um pouco o que faço com a minha música. Samplo pequenos excertos de imagens que retirei de vídeos da nossa televisão antiga, outras animações também. Mas tem lá muita cultura portuguesa samplada ao vivo.
Assumiste uma posição de cantor bilingue. Pensas vir a continuar neste registo, nesta espécie de canção française?
Sempre tive muitas referências a francês nas minhas músicas. Sempre usei temas em francês. Neste caso, é um passo mais à frente. Não se trata de usar mais temas em francês, como não se trata de um álbum normal mas de uma audionovela, tomada por uma persona, o François da Costa, que não sou eu, que fala possivelmente português com uma pronúncia francesa. Usei-o porque acrescentava valor à história, porque eu queria dar um tom de cinema noir. Se fosse em francês, seria ir longe de mais porque a história passa-se em Avintes. Porque é que eu haveria de cantar em francês. Mas se fosse um homem emigrante a falar com uma pronúncia mista, talvez eu conseguisse dar o toque noir e ao mesmo tempo manter a portugalidade que ele tem.
Todos os meus álbuns são histórias. Se no futuro, quiçá, tiver uma base sólida, com certeza que aparecerá outra personagem e outra história em que se usa o francês.
O que seria do David Bruno sem este Portugal das casas de emigrante, dos acabamentos em mármore e dos revestimentos menos trabalhados de azulejos?
Talvez só fosse um produtor musical. Faria só as bases musicais, não as letras. Nem seria vocalista. É [esse Portugal B] que realmente me inspirou a escrever letras.
Ao inspirares-te neste cenário de Portugal, significa que é também um olhar crítico?
Na minha obra, sempre fiz questão de nunca usar o tom crítico ou qualquer opinião. O que faço é 100% aberto a interpretações. O que me preocupo em fazer é a expor factos. Os julgamentos ficam na cabeça de cada um. Uns acharão engraçado, outros normal porque é o que os rodeia, outros acham foleiro, outros acham artístico. Nunca na minha mente tentei fazer crítica, em dar a minha opinião
É possível o David Bruno desviar-se daquela que é a sua região do norte?
Só falo de coisas de que tenho propriedade para falar. Graças a Deus, tive a oportunidade de viajar por tudo o que é terrinhas em Portugal. Eu trabalhei num sector muito português: a cortiça. Formei-me em engenharia, trabalhei na indústria, em especial na indústria da cortiça. Percorri Portugal de norte a sul, no contexto de negociar até mesmo com agricultores. Tenho propriedade, conheço muitos sítios. Já aconteceu no passado eu fazer músicas sobre outras terras que não Gaia. No ano passado, fiz um álbum ["Raiashopping"] sobre a aldeia dos meus pais e dos meus avós, na Beira interior. Se tiver propriedade para falar sobre isso, falo, como, por exemplo, com o Michael Knight [a dupla David & Miguel], em que decidimos que cada tema teria que ser sobre locais que conhecemos os dois. Fizemos músicas sobre Peniche, ou Arouca. Se eu tiver propriedade para falar e achar que possa acrescentar valor, transformar e acrescentar-lhe uma camada artística, isso acontece naturalmente.
Já estás a escrever o guião e banda sonora da tua próxima audionovela?
Já está mais ou menos esboçado. Quando lanço um álbum, já tenho o próximo alinhado. É essa a gasolina que mete o motor a funcionar. Deve ser o que me dá mais prazer na vida. Gosto muito de tocar. Mais do que gravar uma música, o que me dá mais prazer na vida desenvolver essa narrativa de fuga à realidade. Já tenho alinhada mais do que uma história para um próximo projeto meu. Tenho várias [histórias] e é o destino que as vai escolher. Vai ser qualquer coisa que eu vá ver na rua, qualquer coisa que vá surgir que vai colar os elementos da história como um puzzle. O que me rodeia é que vai escolher a minha próxima história.
Admites regressar a este registo policial, a esta espécie de noroeste-esparguete com azeitona?
Quiçá. Tenho algumas certezas. Este projeto inspirou vários convites para séries, teatro. Surgiram vários convites de pessoas noutra coisa. Quando eu criei esta história, eu gostaria de fazer uma peça ou uma mininovela. Como não tinha esse know how, comecei por esta coisa simples, como um empreendedor do do it yourself. Penso que esta novela ainda vai ser transformada noutras coisas, num formato que não é propriamente música, e que tem mais a ver com a história. Ainda vou ter tempo para trabalhar por cima desta audionovela, antes de trabalhar noutra.
