David Ferreira sobre morte de Luís Represas: "é uma perda irreparável"

Antigo editor dos Trovante reconhecia uma "magia única" na banda".

Na ressaca a quente à morte de Luís Represas, recolhemos a reação de um dos profissionais mais próximos do cantor e dos Trovante, David Ferreira, que foi o editor dos álbuns dos Trovante a partir de “Baile no Bosque”, e abrangeu o período áureo e mais próspero da formação, incluindo canções icónicas como ‘Saudade’ (de 1983), ‘Xácara Das Bruxas Dançando’ (de 1984), ‘Fizeram Os Dias Assim’ (de 1986), ‘125 Azul’ (de 1987), ‘Perdidamente’ (de 1987) e ‘Timor’ (de 1990). Enquanto diretor-geral da major EMI-Valentim de Carvalho, David Ferreira foi ainda o responsável editorial dos primeiros três álbuns em nome próprio.

David Ferreira assistiu à celebração ao vivo dos 50 anos de Trovante este ano. “Só na altura dos concertos no Pavilhão Atlântico é que eu soube pela primeira vez que o Luís tinha passado por problemas difíceis de saúde. De facto, havia algum cansaço dele no palco, o que não o impediu de cantar muito bem. Mas, na altura, a coisa foi-me sempre apresentada como de problemas que estariam ultrapassados, em fase de convalescença. Já houve vários concertos do Trovante, depois da banda deixar de fazer discos novos de estúdio, com canções novas. Foi a primeira vez que me aconteceu: escrever uma mensagem para um deles, para o Manuel Faria, perguntando se eles não queriam pensar em voltar ao estúdio, porque via ali uma magia entre única. E claro que o Luís era um dos elementos centrais dessa magia pela voz dele, pela fortíssima personalidade do cantor, pela musicalidade que nós notávamos não só quando ele cantava, mas também quando ele tocava bandolim. Portanto, nunca me passou pela cabeça que aquele fosse um dos últimos concertos. É uma perda irreparável”.

David Ferreira

David Ferreira testemunhou o crescimento dos Trovante em todos os sentidos. “Eu lembro-me que na altura de um dos álbuns, que era o 'Sepse' [de 1986], usámos um slogan dizendo que Trovante era um bicho de sete cabeças. Essa cumplicidade era uma parte muito importante, especialmente no que era possível fazer naquele núcleo mais central, onde estava o Luís, o [João] Gil, o Manuel [Faria], também o Artur [Costa], porque os outros vieram depois. O João Nuno, até certa altura também. Houve sempre uma grande exigência, é verdade. E os Trovante foram talvez a primeira banda a ter um empresário profissional, que era o António Miguel Guimarães, e que ajudou a poder realizar os objetivos dessa exigência. Os Trovante foram pioneiros de várias maneiras”. 

O antigo editor salienta ainda a química que existia, sobretudo no triunvirato criativo dos Trovante: “O mais importante de tudo eram os momentos únicos que as canções e as interpretações deles nos proporcionavam. Estou-me a lembrar de um momento que acontecia muitas vezes, que era quando o Luís ficava no palco sozinho com o Gil ou com o Manel, para uma canção do Luís, que é das canções mais bonitas dos Trovante, que é ‘Um Caso de Mais'". 

David Ferreira