David Lynch: o cinema com cortina vermelha
As suas fitas tinham o traço descontínuo do asfalto, em estradas sem fim, felizmente para lá do horizonte da compreensão.
Nas muitas notícias sobre a sua morte, David Lynch tem sido mais lembrado pela série de televisão "Twin Peaks", de que foi criador, mas a sua obra é acima de tudo de cinema. A própria série "Twin Peaks" tinha uma magia inerente da sétima arte, que fazia sentir o ecrã pequeno perante a grandeza daquele cenário enigmático e daquela complexidade da história e dos seus personagens.
“Twin Peaks” era uma pequena e imaginária terra do norte dos Estados Unidos, parecida com a geografia florestal e montanhosa do estado de Montana, de onde vinha David Lynch. A série iniciada em 1990 pôs-nos a viver o suspense sobre quem terá morto a jovem rebelde Laura Palmer.
A saga levou-nos no início dos anos 90 a absorvermo-nos numa terra invernosa e pacata... ou que devia ter sido pacata. Na pacóvia cidade de Twin Peaks, pairavam personagens bizarros como a Mulher do Tronco, aquele polícia sensível que chorava com cada corpo morto que tinha que fotografar ou a mulher da pala no olho esquerdo que era tão obsessiva com as suas invenções.
Claro, estava lá também o cordial mas estranho agente do FBI Dale Cooper com as suas confissões ao gravador Dianne. Twin Peaks torna-se uma série de TV em que David Lynch nos confronta com o sentimento de que é especialista: o medo.
Muito deste ambiente enigmático é também sublinhado pela música de Angelo Badalementi que conta nas vozes com a habitual Julee Cruise, como em ‘Into the Night’ e ‘The Nightingale’, ou o espírito de Laura Palmer ainda à solta.
Passe a redundância: a estranheza nunca lhe foi estranha, desde o filme que o revelou, o surrealista “Eraserhead”, de 1977, sobre um indivíduo disfuncional que se torna pai de um bebé hediondo e muito pouco humano. Depois realizou o belo e monstruoso “O Homem-Elefante”, onde deu humanidade a um homem com uma disformidade grotesca, no meio de uma Londres mesquinha e cinzenta da época vitoriana. É o seu único filme de atmosfera europeia, uma das exceções à paisagem americana da sua filmografia.
David Lynch reentra na história da sétima arte através do filme de 1986, “Blue Velvet”, sobre a aventura de um jovem no submundo que rodeia uma intrigante cantora interpretada por Isabella Rosselini. Laura Dern ainda tinha idade para fazer de adolescente e Dennis Hopper, encarnando um transtornado e perigoso Frank, acrescentava mais um papelão à sua carreira de ator.
Em 1990, David Lynch realiza o seu grande filme de amor, “Wild at Heart”, que lhe vale a Palma de Ouro de Cannes. O filme, traduzido em Portugal como “Um Coração Selvagem”, é um fogoso road movie em carro descapotável, com Nicholas Cage, ou Sailor, com o seu casaco de pele de cobra, ao lado da apaixonante namorada Laura Dern, ou Lula.
A aventura no asfalto americano envolve sexo, brigas, os escombros de um acidente de viação mortal e um assalto que corre muito mal e quase que deixa tudo a perder. Claro que há sempre um diabrete. Neste caso, há uma mãe repressora e psicótica que não quer ver a filha Lula com o seu namorado Sailor e não olha a meios para o eliminar.
A partir do filme de 1997 “Lost Highway”, o cinema de David Lynch torna-se ainda mais abstracto. Novamente, as linhas descontínuas do asfalto voltam à objectiva de David Lynch, mas desta vez com dois personagens, intepretados por Patricia Arquette e Bill Pullman, que se transformam noutros.
Em “Estrada Perdida”, a desconfiança está sempre no ar. A mulher sensual e esplendorosa Patricia Arquette não é bem de Bill Pulman. A mulher carnal e tentadora e o diabo misturam-se na cabeça do homem inseguro e paranoico. A fragilidade da mulher morena e depois loira é uma ilusão. A mulher vive afinal num mundo sombrio que o homem não domina. E ela nunca será dele. Repetem-se ao longo do filme “Lost Highway” ecos fantasmagóricos da versão dos This Mortal Coil de ‘Song to the Siren’, a canção que David Lynch já queria para “Blue Velvet”.
Tal como “Twin Peaks”, também “Mulholland Drive” esteve para ser uma série de TV mas tornou-se num filme de cinema de duas horas e meia. Ao contrário da mais abstracta “Estrada Perdida”, a estrada do filme de 2001 não estava perdida e tinha mesmo um nome, a “Mulholland Drive”, o caminho estreito que rodeia Los Angeles e o assombra. Nada melhor que a geografia de Hollywood para David Lynch nos fazer o confronto entre sonho e pesadelo, entre a deslumbrada aspirante a actriz Betty, interpretada pela então desconhecida Naomi Watts, e uma morena sensual e amnésica que tinha sobrevivido a um acidente de viação, na pele de Laura Harring. Típico de David Lynch, há sempre um palco de um pequeno clube e uma cortina vermelha. Em “Mulholland Drive”, esse palco ficou entregue a Rebekah Del Rio para uma impressionante versão em castelhano de ‘Crying’ de Roy Orbinson.
David Lynch fazia o que qualquer artista maduro devia fazer: recusava-se a explicar os seus filmes. Explicá-lo seria uma infantilização e um simplismo que a complexidade de uma boa história não permite. Ele sabia que uma das melhores sensações humanas era o mistério. Para quê então destrui-lo? O derradeiro dos seus filmes, “Inland Empire” (de 2006), era o maior dos seus do it yourself para o espectador, a quem competia fazer o seu final, não de forma gratuita, não a troco de nada, mas depois de uma experiência sensorial, com uma teia narrativa complexa, que só a sala escura do cinema pode oferecer.
Um dos seus filmes mais “normais”, “The Straight Story” (“Uma História Simples”), é um road movie mas em câmara lenta. Era um descopotável, mas não a fera automóvel de “Wild at Heart” ou de “Lost Highway”, mas um corta-relvas que um idoso conduz para ir ter com o irmão doente com quem estava zangado há dez anos. É uma história tocante de reconciliação e não tanto de estranheza. Mas teve graça ver o picotado descontínuo da estrada de uma forma mais lenta, a oito quilómetros por hora.
