David Santos: "Noiserv fez com que a criança que já fui reaparecesse para um mundo de possibilidades"

O músico lisboeta vai apresentar "7305" na Covilhã, em Lisboa, Aveiro e no Porto.

O músico David Santos assinala 20 anos de carreira, enquanto Noiserv, com a edição do álbum "7305" - o quinto da discografia que assina.

O título do disco, editado no passado dia 17 de outubro, refere-se ao número de dias desde a estreia de Noiserv nos palcos – estreia essa que aconteceu a 19 de março de 2005, mais precisamente na 11.ª edição do festival Termómetro Unplugged que teve lugar no espaço portuense (já extinto) Contagiarte.

O novo álbum, composto por nove canções, está disponível nas várias plataformas digitais e nos formatos CD e vinil.


O multi-instrumentista convidou as cantoras Surma, Milhanas e A Garota Não para três temas. A faixa de abertura, intitulada ‘20 . 05 . A self-conversation is too loud for an empty room’ conta com as vozes de Afonso Cabral (You Can’t Win, Charlie Brown), Ed Rocha e Catarina Salinas (Best Youth), Bia Maria, Rui Gaspar e Telmo Soares (First Breath After Coma), Selma Uamusse e André Tentugal (We Trust).

Os videoclipes que ilustram o álbum resultam da união criativa de David Santos com os leirienses Casota Collective.

O músico lisboeta vai apresentar "7305" na Covilhã, em Lisboa, em Aveiro e no Porto. A 15 de novembro, David Santos atua no Teatro Municipal da Covilhã, a 26 sobe ao palco do Centro Cultural de Belém, a 29 atua no Teatro Aveirense e a 6 de dezembro leva o novo disco à Casa da Música. Os bilhetes estão à venda nos locais habituais. 

Oiça a entrevista completa:

Entrevista a Noiserv (David Santos)

É o álbum que chega no ano em que celebras 20 anos de carreira ou, como diz o título, os 7 mil 305 dias desde o início do teu percurso artístico enquanto Noiserv...

Tento fugir à ideia dos marcos de carreira. Parece que quando são muitos anos soa a tempo a mais. Tento fugir a isso. Não vejo o disco como a comemoração dos 20 anos. Vejo como um álbum que saiu 20 anos desde o dia em que comecei a tocar ou então desde que Noiserv existe. Mas é inevitável não sentir o passar do tempo ou a passagem dos tais 7 mil 305 dias. Mas, acima de tudo, estou feliz por sentir a felicidade que sentia quando na altura fazia uma canção nova. Sinto a mesma felicidade mas também os mesmos receios, os mesmos medos. Embora estes sejam sentimentos menos bons, são os que acabam por tornar a experiência verdadeira. Acho que este disco ajudou-me a ter uma maior consciência do tempo que passou. Inevitavelmente, acabei por recordar grande parte das coisas que aconteceram. Estou muito feliz por continuar a fazer música e por sentir o mesmo prazer a fazê-la.

O primeiro concerto com o projeto Noiserv foi a 19 de março de 2005. Que memórias guardas desse espetáculo?

Lembro-me muito pouco do concerto propriamente dito. Durante o primeiro ano [de Noiserv] dava concertos com alguma regularidade em espaços mais pequenos. E lembro-me que era um sentimento um pouco estranho. Antes de começar a tocar e durante o concerto sentia muito nervosismo. Os nervos eram tantos que tinha como obrigação tocar bem os temas. E depois não sabia como comunicar com as pessoas. Acredito que quem assistiu a esses concertos possa dizer que o meu discurso era muito nervoso ou acelerado. Sei que no primeiro concerto toquei quatro temas, três originais e uma versão. Mas, na verdade, só me lembro do fim. Entrava num lugar de medo absoluto ao ponto de sentir descanso assim que o concerto acabava. E depois começava a sentir receio com a possibilidade de ter falhado. Estava tão nervoso que não conseguia aproveitar o momento. Os nervos continuam a existir. Existe sempre o medo do erro, do engano. Mas o pior nem é isso. O pior é quando sinto que não estou no meu melhor para conseguir tocar as músicas da melhor maneira. E isso é algo que pode acontecer sempre. Mas agora estou mais consciente de tudo. Sei que um concerto não é um ponto de fuga. É um momento para aproveitar, para fazer o melhor que sei.


Transpondo agora o que disseste para a tua vida, quero saber como é que vais sentindo ou experienciando a passagem do tempo? Gostas de contemplar essa passagem ou sentes que o tempo te foge pelos dedos?

Em 2005, estava a acabar o curso de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores no Instituto Superior Técnico. E depois disso ainda fiz o mestrado e tive uma bolsa de investigação. Acho que se nessa altura não tivesse tentado fazer música, teria olhado para a passagem do tempo de um modo diferente. A música sempre foi uma paixão muito grande. Posso dizer que ficava arrepiado sempre que via um músico a entrar no palco. E nem precisava de ser um músico que tocasse o género de música que eu gostava. É algo que não consigo explicar. Ver os outros a entrar em palco foi sempre uma experiência muito marcante para mim. 

Quando olho para os últimos 20 anos e revejo-me nessa situação posso dizer que é um exercício de contemplação. Parece inacreditável ter conseguido fazer música durante tanto tempo. Se tivesse outra carreira, talvez pudesse sentir a passagem do tempo de outra forma. Talvez sentisse que o tempo passou rápido demais. Talvez não tivesse grandes recordações do trabalho e apostasse noutras coisas para fazer nas horas vagas. Mas como faço o que gosto consigo ter momentos de autêntica contemplação. Tenho esses momentos ao final do dia ou no final de um concerto, por exemplo. Nem sempre acontece mas quando acontece é incrível. Crio um lugar de felicidade só por estar a acontecer ou por ter acontecido. É um sentimento bom de contemplaçãoNão voltaria para trás para ter o tempo outra vez. Acho que passou da forma certa.

Fez sentido para ti...

Fez, fez.

Voltando agora ao álbum e aos números. Numeraste todas as faixas com o número 20 e acrescentaste um número diferente a cada uma das canções. Qual foi a lógica que seguiste?

É uma lógica que inclui várias brincadeiras de números. Percebi que, desde o início de Noiserv, há sempre um 20 no ano, na década ou no centenário. Tendo em conta que o álbum iria coincidir com o 20.º aniversário do primeiro concerto, achei que fazia sentido colocar o número 20 em todas as canções. Os outros números remetem para os anos em que editei alguma coisa enquanto Noiserv, excetuando as três últimas canções. Uma dessas três canções representa o ano 2025. Outra remete para o ano de 2027, ou seja, para aquilo que poderei compor no futuro enquanto Noiserv. E há ainda há uma outra canção - um pouco mais conceptual - que aponta para 2082 que é o ano em que farei ou faria 100 anos. Esta lógica foi um dos pontos essenciais para o arranque do disco. Não me prendi muito à ideia mas tentei manter o conceito inicial de composição nas músicas. A escolha do inglês, do português ou a opção de ter muitos ou poucos instrumentos estão relacionadas com os trabalhos que editei antes. Dou dois exemplos. A canção '20.16 ., A Casa das rodas quadradas', que canto com a Milhanas, é o tema que, conceptualmente, remete para o disco que editei em 2016 [intitulado "00:00:00:00"]. Uso só voz e piano tal como no disco. A canção '20 . 05 . A self conversation is too loud for an empty room' - que está ligada ao ano 2005 - remete para o meu primeiro EP no qual usei apenas voz e guitarra. É um tema com várias guitarras e um coro de vozes de amigos meus [Afonso Cabral (You Can’t Win, Charlie Brown), Ed Rocha e Catarina Salinas (Best Youth), Rui Gaspar e Telmo Soares (First Breath After Coma), Selma Uamusse e André Tentugal (We Trust) e Bia Maria]. Conceptualmente, é um tema que vive muito da voz e da guitarra. (...)

De certa forma é uma espécie de introspeção artística. Como foi olhar para esses momentos e depois materializá-los em canções novas? Fizeste algum tipo de redescoberta?

Não sei se houve algum tipo de descoberta ou redescoberta, mas senti o percurso da minha discografia e fiquei muito contente quando ouvi o alinhamento. A viagem que fiz com este álbum, seja ao nível de intensidade ou de complexidade, alinhou-se com os 20 anos de edições, embora com uma sonoridade mais atual. Não o fiz com uma consciência técnica, fi-lo com uma consciência mais abstrata, relacionada com questões melódicas e com os arranjos. (...) Em princípio, ninguém fará um estudo sobre isto, mas eu sei que esta lógica está lá. Isso, para mim, é o suficiente para que o conceito faça sentido.

Escreveste o seguinte sobre o álbum nas redes sociais: "o lançamento de um disco é sempre um momento emotivo, talvez o melhor que conheço. É imortalizar emoções boas, más, intensas, calmas, todas juntas, para sempre, num mesmo lugar". Que emoções estão neste registo?

Há emoções que são transversais a todos os meus discos. São emoções que eventualmente têm a ver com a minha forma de sentir o mundo. Sou uma pessoa muito emotiva e sou sensível a tudo o que se passa. Tenho sempre questões sobre quem somos, sobre os medos que temos. Sobre a certeza ou incerteza dos nossos pensamentos. Reflito sobre as lutas interiores ou sobre a preservação ou não da criança que já fomos. Penso também na responsabilidade que temos. As minhas canções vão beber muito a estas temáticas. São assuntos que, de certa forma, me atormentam. E este álbum anda à volta deste tipo de questões. Além disso, e ao contrário dos discos anteriores, este tem três canções com uma conotação mais política, apesar de não ser muito óbvio. A canção '20 . 27. A long journey in a little train to Poland' fala da Segunda Guerra Mundial, dos campos de concentração da época. É uma canção sobre a aniquilação de povos, algo que ainda acontece em várias partes do mundo. A '20. 25 . Resumidamente' é a mais atual. É um tema que reflete sobre o estado da Humanidade. E ainda há a '20 . 20 . Um dia como os outros’ (para a qual convidei A Garota Não) que fala sobre a perda de empatia entre as pessoas. O disco soma ainda estas questões mais políticas ou sociais. Aborda a falta de empatia ou do cuidado com os outros. E [reflete] sobre o colapso em que o mundo está a entrar. Acho que o mundo já entrou em colapso, mas também sei que costumamos sentir tudo com um pouco de atraso.

A canção '20 .10 . A random man talking with a little boy he thought he had lost' é então um diálogo com a tua criança interior, é isso?

Essa música fala da minha vertente criativa e de exploração sensorial. Acho que [o projeto] Noiserv fez com que a minha criança interior reaparecesse para [explorar] um mundo de possibilidades. É um mundo que está acessível a todos, mas acho que [com a rotina de todos os dias] acabamos por ficar sem tempo para sonhar com coisas que não existem ou para poder imaginar histórias em sítios inventados. Noiserv deu-me isso. Descobri um espaço de exploração onde posso recriar essa tal criança sem qualquer tipo de limites na criatividade. Acho que na adolescência e durante o período de escola as minhas perceções e a sensação de liberdade criativa ficaram um pouco mais reduzidas. Quando, mais tarde, meti o foco na música essa criança saltou para fora. E a canção fala um pouco disso. É uma espécie de narrativa metafórica. Se deixarmos de prestar atenção à nossa criança interior, ela acaba por ir brincar com outras pessoas. Noiserv é um reencontro com essa criança. Não me considero uma pessoa infantil, embora o seja em certas coisas, mas, no que toca à criatividade e à imaginação, acho que agora sou mais infantil do que era há uns anos. Quando olho para uma paisagem sou capaz de ver as coisas a mexer. Às vezes, mexem-se de uma forma bonita e noutras nem tanto. E houve alturas em que a minha capacidade imaginativa estava mais amorfa. Era quando estava afastado da minha criança interior.

É essencial reencontrarmos essa criança perdida...

Acho que sim. Nunca a devíamos perder. Manter a nossa criança interior não é perder responsabilidades. É apenas continuar a olhar para as coisas de uma maneira mais bonita. É não perdermos a capacidade de imaginar, de criar. 

Mudando de tom, quero voltar ao tema '20 . 20 . Um dia como tantos outros'. Nessa canção utilizas a palavra "medo" ao lado de outras palavras como "farsa" ou "desdém". Será o medo a grande ameaça que atualmente temos em mãos?

Essa canção tem uma particularidade. Ao contrário dos duetos que fiz com a Milhanas e a Surma, eu e a Garota Não achámos que seria giro fazer uma espécie de pergunta/resposta. Eu escrevi a minha parte e ela escreveu a parte dela. A canção surge da ideia de vivermos numa situação privilegiada comparativamente com outras realidades. Falo da minha situação em particular e do meio onde me movo, sendo que Portugal acaba por ser um lugar privilégio quando comparado com muitos outros lugares no mundo. Considero que estou num lugar de privilégio não só por ter tido acesso a escolas ou à faculdade mas também por ter tido a possibilidade de deixar de trabalhar para me dedicar à música. O que sinto é que, por vezes, querem que acreditemos que a diferença entre os privilegiados e os não privilegiados é um ponto de perigo. Criam a ideia de que devemos ter algum cuidado com quem vive numa situação diferente. Cuidado ao ao ponto de nos afastarmos. E este foi o mote para o tema. É sobre a vida das pessoas ou dos lugares que não conhecemos mas que ainda assim nos dizem para nos afastarmos. 

Talvez por não ser Lisboa ou por vir de um bairro mais complicado, A Garota Não cresceu no lugar de ajudar o outro. E, mesmo com experiências diferentes, ambos sentimos que o fosso está cada vez maior. A canção surge do desdém ou do medo que nos incapacita de ajudar o próximo. Estamos a viver numa altura em que há falta de empatia pelo outro. Há falta de cuidado com o outro. No tempo dos meus avós havia uma relação diferente entre vizinhos, por exemplo. Não digo que todas as pessoas estejam assim, mas, socialmente, movemo-nos de uma forma muito mais solitária e individual. Embora seja mais poética e não tão objetiva, a canção questiona a razão de não nos ajudarmos mais. Fala da necessidade de mudança para que possamos viver melhor. Para que a empatia possa voltar a existir.

Quando há medo erguem-se barricadas…

Esse medo surge da tal perceção de que o outro é uma ameaça e de que a diferença no outro é uma ameaça ainda maior. (…) Estamos cá todos para o mesmo. Estamos cá para tentar viver os poucos anos que temos na dimensão do tempo da Terra. Mas há essa falta de consciência. A questão do medo do outro está cada vez mais ampliada. O medo do outro está cada vez mais barricado em nós. Parece ser algo sem solução à vista, mas acho que a solução começa com a consciência de que algo tem de ser feito.

Como é que podemos fomentar a empatia?

O mundo está construído de tal forma que é praticamente impossível mudá-lo. A melhor maneira de resolver os problemas dos quintais do mundo é começar pelos quintais que temos à volta. Temos de começar a olhar mais uns para os outros. Temos de tentar entender os outros. Dou um exemplo. Quando estou no estúdio aqui em Lisboa vou almoçar sempre ao mesmo sítio. E garanto que não há melhor sensação no mundo do que chegar ao restaurante e perceber que as pessoas que trabalham lá sabem o que costumo comer. É uma consciência de comunidade que de repente se forma ali, naquele momento. É nessas alturas que deixamos de estar sozinhos mesmo estando. Ajudar é estar. É vivermos em conjunto. A melhor forma de conseguir aumentar a empatia entre as pessoas é ter a consciência de que o outro é essencial para vivermos melhor. É um ponto fulcral para que, aos poucos, isto comece a melhorar. (…) As pessoas têm mais pontos em comum do que aquilo que querem acreditar. O que vemos como diferença ou o que nos assusta pode ser, afinal, uma parecença muito maior do que aquilo imaginamos. Seríamos mais felizes se nos considerássemos parte integrante do mesmo lugar. Todos queremos o mesmo. Não há pessoas que mereçam mais do que outras. Há pessoas que, por sorte ou por uma questão de privilégio, têm acesso a mais coisas. Isso é inevitável. Não vamos conseguir mudar. Mas a empatia é a base para que, ainda assim, algo mude.

O videoclipe do tema '20 . 20 . Um dia como tantos outros', que tem uma performance da bailarina Ana de Oliveira Silva, é muito impactante. Sei que voltaste a trabalhar com os Casota Collective para ilustrar as canções. O que é que quiseram transmitir com este vídeo?

O vídeo para este tema liga-se aos videoclipes dos restantes temas do disco. Tal como a lógica dos números das faixas que viaja pelo universo de composição de Noiserv, há uma história comum a todos os vídeos. Metaforicamente, é sobre alguém estar a criar algo, sobre o nascimento de algo. Pode ser um disco, uma canção ou um conjunto de canções. O que acontece é que cada um dos nove vídeos tem uma perspetiva ou um ponto de vista único da história que os liga.


Resumindo a história. O ator João de Brito e a Ana são um casal. E eu interpreto o papel de vizinho. Vemos a personagem da Ana dar à luz um balão gigante. O balão significa a criação de alguma coisa. Depois de percebermos as diferentes perspetivas com que queríamos filmar cada uma das partes da história, fomos adaptando um pouco a cada um dos temas, embora os vídeos não estejam diretamente ligados às letras. No caso do videoclipe da '20 . 20 . Um dia como tantos outros' vemos a aflição da personagem da Ana prestes a dar à luz. O tormento que vemos na personagem da Ana acaba por se ligar às palavras da canção. (…) Há dois vídeos que ainda não saíram. Um vai sair em novembro e o outro em dezembro. Todos os vídeos juntos mostram as diferentes perspetivas da mesma história.

Senti que no tema '20 . 25 . Resumidamente' quiseste, de alguma forma, dar "um murro na mesa" em relação a algo. Qual é a história desta canção?

Acho que o mundo está nesse lugar. Precisamos de um "murro na mesa". O ano dessa música é 2025. A letra brinca com uma série de advérbios que terminam com "mente". O propósito foi ligar essa terminação ao verbo "mentir" e, sobretudo, à ideia de que atualmente parece que tudo mente. Fez-me sentido que houvesse esse grito ou esse "murro na mesa", como dizes. E tentei também fazer esse manifesto a nível musical. A música acaba com a frase: "basta-te entender que nem sempre vês como tem de ser". A verdade é muito discutível nos dias de hoje. As pessoas acham que sabem tudo. Têm uma opinião sobre tudo. A verdade é o que aparece, não é a verdadeira verdade. O mundo está num lugar muito esquisito. Sei que não consigo mudar nada com uma música, mas é a minha maneira de olhar para o que está a acontecer. E o que está a acontecer pede um "murro na mesa". Pede esse grito.


Já falaste de algumas pessoas que entram no álbum, mas ainda não te perguntei como é que contruíste este elenco…

Não pensei propriamente nos convites que queria fazer. Quis que fossem as músicas a dar-me a entender quais os convidados que faziam sentido. E caso fizesse sentido haver um convidado. Achei que fazia sentido ter um coro de vozes no tema que abre o disco. E para esse coro escolhi pessoas com quem estou quase todos os dias ou com quem falo muitas vezes. (…) São pessoas que, além de admirar musicalmente, são minhas amigas. São artistas com os quais me fui cruzando e com quem criei laços de amizade. Juntos damos força ao tema. Os outros convidados do disco foram acontecendo. A voz da Surma, por exemplo, fez sentido no tema '20 . 08 . A fearless party between a kid and his own thoughts' porque transmite um sentimento de aconchego melódico. (…) A Milhanas entra na música de voz e piano ['20 . 16 . A casa das rodas quadradas'] porque, além de ser apaixonado pela voz dela, sentia falta de força no refrão. (…) Para a última canção ['20. 82 . One Hundred is much more than ten times ten'] convidei o João Correia, do projeto Tape Junk, porque é o melhor baterista que conheço. Lembrei-me das pessoas quando estava a trabalhar as músicas. Tive a sorte de conseguir coordenar tudo.

E vais convidar alguém para os palcos do Centro Cultural de Belém ou da Casa da Música?

Não vão todos porque é difícil juntá-los. Felizmente, são pessoas com muito para fazer. Posso dizer que terei um convidado em Lisboa e outro no Porto. Não digo quem para não estragar a surpresa.

O que é que podes contar sobre os espetáculos de apresentação do disco?

Vou tocar as músicas novas e não só. Quero que seja uma viagem pelos tais 20 anos de Noiserv. Tocar ao vivo é o momento em que o círculo se fecha. E este círculo começou há dois anos, quando comecei a fazer as novas canções. Nos concertos quero dar essas canções às pessoas de uma forma honesta. Não sou a melhor pessoa para me vender ou para dizer que os concertos vão ser inacreditáveis. Espero que as pessoas sintam as músicas da mesma forma que as sinto quando as toco ou como as senti quando as compus. Podem esperar uma pessoa no palco a tentar mostrar, da melhor maneira possível, o que mais gosta de fazer.