Democratas vencem Congresso e derrotam Trump nas intercalares
Noite histórica nos Estados Unidos mudam o poder do Congresso norte-americano a caminho das eleições presidenciais de 2028.
Os democratas conquistaram as duas câmaras do Congresso norte-americano nas eleições intercalares de terça-feira, alcançando vitórias surpreendentes em estados republicanos e impondo uma pesada derrota política ao Presidente Donald Trump.
A dimensão da vitória, confirmada pelas projeções dos principais órgãos de comunicação social norte-americanos, superou as expectativas do Partido Democrata, que recuperou o controlo do Senado e da Câmara dos Representantes, até agora dominados pelos republicanos.
Os resultados representam uma mudança profunda no equilíbrio político em Washington e obrigarão Trump a enfrentar um Congresso controlado pela oposição durante os últimos dois anos do seu mandato presidencial.
Segundo os dados provisórios divulgados durante a madrugada, os democratas tinham assegurado pelo menos 54 lugares no Senado e 225 na Câmara dos Representantes, ultrapassando as maiorias necessárias em ambas as câmaras, embora várias disputas continuem sem vencedor declarado.
A conquista do Senado constituiu a maior surpresa da noite eleitoral, depois de os democratas retirarem aos republicanos pelo menos sete lugares, incluindo em estados tradicionalmente conservadores como Texas, Kansas, Carolina do Sul, Ohio e Iowa.
No Texas, o democrata James Talarico derrotou o republicano Ken Paxton, apoiado por Trump, tornando-se o primeiro candidato do seu partido a conquistar um lugar no Senado por aquele estado desde 1988.
Outra vitória histórica ocorreu no Kansas, onde Adam Hamilton derrotou o senador republicano Roger Marshall, garantindo a primeira eleição de um democrata para o Senado naquele estado desde 1932.
Na Carolina do Sul, Annie Andrews derrotou a republicana Darline Graham, conseguindo uma vitória que escapava aos democratas desde o século passado, enquanto no Ohio o antigo senador Sherrod Brown recuperou um lugar na câmara alta ao derrotar Jon Husted.
Na Carolina do Norte, o antigo governador Roy Cooper venceu Michael Whatley, apoiado pelo Presidente, e no Iowa o democrata Josh Turek derrotou Ashley Hinson.
No Maine, Susan Collins, uma das mais conhecidas senadoras republicanas e membro do Congresso desde 1997, reconheceu a derrota perante o democrata Troy Jackson, apesar de o apuramento ainda não estar concluído.
Os democratas conseguiram também conservar lugares importantes, incluindo na Geórgia, onde Jon Ossoff (uma das esperanças dos democratas para o futuro do partido) foi reeleito, e no New Hampshire, onde Chris Pappas venceu a disputa pelo lugar deixado pela senadora Jeanne Shaheen.
No Michigan, Abdul El-Sayed reivindicou a vitória sobre o republicano Mike Rogers, tornando-se, segundo as projeções posteriormente divulgadas, o primeiro muçulmano eleito para o Senado norte-americano.
El-Sayed, que enfrentou ataques relacionados com a sua religião durante a campanha, destacou no discurso de vitória as dificuldades económicas das famílias norte-americanas e defendeu o acesso aos cuidados de saúde e os direitos dos trabalhadores.
Apesar da maioria democrata já projetada no Senado, permanecem por decidir as disputas no Alasca e no Mississípi, que poderão ampliar a dimensão da vitória da oposição.
No Alasca, a democrata Mary Peltola disputa o lugar ocupado pelo republicano Dan Sullivan, numa eleição particularmente renhida e os primeiros resultados chegaram a dar vantagem à candidata democrata, mas o apuramento deverá prolongar-se devido às regras eleitorais do estado, que incluem a votação por ordem de preferência.
No Mississípi, estado habitualmente favorável aos republicanos, a senadora Cindy Hyde-Smith enfrenta uma disputa inesperadamente equilibrada com o democrata Scott Colom, com diferenças reduzidas entre os candidatos nos resultados provisórios.
Na Câmara dos Representantes, os democratas conquistaram mais de duas dezenas de círculos anteriormente republicanos, incluindo alguns onde Trump tinha vencido as presidenciais de 2024 por margens superiores a 10 pontos percentuais, segundo a Associated Press.
A nova maioria permitirá aos democratas controlar as comissões parlamentares, investigar a administração presidencial e bloquear iniciativas legislativas republicanas, enquanto o controlo do Senado lhes dará capacidade para travar nomeações presidenciais.
O líder dos democratas no Senado, Chuck Schumer, saudou uma vitória que considerou extraordinária e prometeu uma mudança nas prioridades políticas em Washington.
"Contra todas as expectativas, nós, democratas, conquistámos o Senado", declarou Schumer, acrescentando que "o alívio está a caminho" para as famílias norte-americanas.
O senador de Nova Iorque afirmou que os resultados representam uma transformação geracional do mapa político do Senado e advertiu que os democratas terão agora de responder às expectativas dos eleitores.
Donald Trump felicitou os democratas, mas procurou distanciar-se da derrota republicana, atribuindo parte da responsabilidade à guerra no Irão e ao desempenho dos candidatos do seu partido.
"Acho que uma parte foi o Irão", declarou numa entrevista à Fox News, defendendo, contudo, a importância das decisões que tomou relativamente ao conflito.
O Presidente admitiu também que os eleitores não estavam dispostos a suportar as consequências imediatas do aumento dos preços dos combustíveis, provocado pela guerra.
Trump afirmou que os democratas "fizeram um bom trabalho", mas rejeitou que os resultados representem uma condenação pessoal da sua presidência.
"Eu não estava no boletim de voto e, se estivesse, teríamos vencido por uma margem esmagadora", escreveu na rede social Truth Social.
O chefe de Estado disse estar disponível para trabalhar com os democratas, embora tenha avisado que utilizará o veto presidencial para impedir a aprovação de legislação que considere inaceitável.
A vitória democrata estendeu-se às eleições para governadores estaduais, com resultados particularmente significativos no Texas, onde Gina Hinojosa derrotou o republicano Greg Abbott, e na Geórgia, onde Keisha Lance Bottoms se tornou a primeira mulher negra eleita governadora de um estado norte-americano.
A insatisfação com o custo de vida, a guerra no Irão e as preocupações com a corrupção governamental estiveram entre os principais fatores apontados para o resultado das eleições.
Segundo sondagens à boca das urnas citadas por vários 'media', quase nove em cada 10 eleitores consideraram o custo de vida importante para a decisão de voto e cerca de 70% defenderam que o Congresso deve exercer maior controlo sobre o Presidente.
O novo Congresso tomará posse em janeiro, iniciando um período de governação dividida em Washington, no qual Trump terá de negociar com uma oposição que passou a controlar o poder legislativo federal.
