Depeche Mode: o palco foi de Dave Gahan
Meo Arena lotadíssima para uma expedição cancioneira que foi mais do que apenas nostalgia.
O pavilhão da Meo Arena esteve lotadíssimo esta noite para ver os Depeche Mode, com uma assistência de 20 mil pessoas que faria inveja a muitos clubes de futebol. Esteve mais do dobro de gente do que, por exemplo, no concerto no Estádio de Alvalade em 1993, demasiado grande para as poucas milhares de pessoas que lá estavam, num cenário tristonho que contrastava com a força daquele espetáculo da Devotional Tour.
O cantor Dave Gahan foi o grande herói desta noite, mostrando-se em grande forma, como que reconvertido em palco, com uma agilidade surpreendentemente jovem, muito exuberante nos gestos e nas danças. Parece renascido, em bem melhor forma do que há alguns anos, em que parecia cansado e encurralado numa repetição demasiado batida de tiradas, sem sequer fazer sombra àquele performer de topo que tinha sido nos anos 80 e 90. Mas esta noite foi bem diferente.
Os Depeche Mode voltam a ser um quarteto ao vivo, com os membros efetivos Dave Gahan e o guitarrista teclista Martin Gore, complementados pelos músicos de tour Peter Gordeno (nas teclas) e Christian Eigner na bateria. Claro que dos quatro músicos, o último a entrar em palco tinha que ser Dave Gahan, que surge com um casaco e umas botas de claridade excêntrica. Agacha-se de cócoras mais do que uma vez, ora para o público, ora para a banda, durante o tema de arranque 'My Cosmos Is Mine' que funciona como um aquecimento intrincado para o caldeirão que se anunciava. Nesses minutos iniciais, só o M gigante atrás do palco é que perdia a timidez.
As temperaturas da sala sobem com outro dos temas do álbum mais recente, "Memento Mori", o mais avivado 'Wagging Tongue'. Dave Gahan roda sobre si mesmo, como um carrossel destravado, sem nunca tropeçar. Martin Gore já se ouve nos coros, a bateria de Christian Eigner ouve-se com mais força... A máquina Depeche Mode estava a aproximar-se do seu pleno. À terceira música, lança-se a primeira cartada forte no naipe do passado: 'Walking in My Shoes' é synthpop gótico e sombrio mas que anima o público. As luzes avermelham-se, Dave Gahan solta a anca e começa a procurar os fãs com o suporte de microfone.
Os sons iniciais dos sintetizadores de 'It’s No Good' contagiam. E às tantas, quando passam para a pérola de 1990 'Policy of Truth', ficar sentado nas bancadas é uma ato do contra. O tema é uma luxúria de pináculos emocionais, num dos quais Gahan simula movimentos sexuais com o suporte de microfone. A discreta guitarra elétrica de Martin Gore finalmente sobressai um pouco mais em 'In Your Room'. Na música seguinte, 'Everything Counts', os Depeche Mode recuperam um pouco do impacto visual antigo com dois teclistas lado a lado - dantes eram três. Mas sente-se a voz de Martin Gore a falhar nos coros, a única contrariedade de um tema nascido para vencer. Na coroação de glória no final da canção, Dave Gahan cumpre o seu ritual de ficar a ouvir na ponta da língua do palco as milhares de vozes do público.
Os teclados continuam a disparar os seus sons carismáticos, tornando as músicas imediatamente reconhecíveis logo aos primeiros segundos, é o que acontece também em 'Precious'. Em 'Before We Drown', as imagens de mar agreste ocupam a tela grande central e as duas laterais mais pequenas. As entranhas da música levam algumas pessoas a se sentarem nas cadeiras ou a irem acertar contas com a sede no bar. Persiste também uma reverberação, que se torna um eco desagradável vindo da outra ponta da sala que se torna desconfortável e um obstáculo ao prazer auditivo.
Já com o concerto a meio, Martin Gore toma conta do centro palco, enquanto Dave Gahan vai descansar um pouco. É revirado o tema popular 'Strangelove', para uma versão mais intimista ao piano, com Martin Gore a cantar na vez de Gahan. Há uma música que a Martin Gore continua a dar colo, 'Somebody', para uma interpretação sentida e a grande nível, que mereceu uma das maiores ovações da noite.
Dos temas do último álbum, 'Ghosts Again' é o mais candidato à eternidade. Pela reação, o público presente na Meo Arena já o adotou nos seus afetos. Na canção seguinte, 'I Feel You', já se sabe... a guitarra elétrica é a protagonista, num dos temas mais rock & roll dos Depeche Mode, numa deambulação orgânica mais americana do que o habitual para os padrões europeus dos Depeche Mode.
O charme enigmático de 'Behind the Wheel' encaminha o concerto para uma inclinação vertiginosa para a glória, enquanto passa atrás, no ecrã maior, o videoclipe respetivo, realizado pelo neerlandês Anton Corbijn, em que acompanhamos a boleia lasciva da mulher do lenço na Vespa a Dave Gahan. O tema é dedicado no final a Andrew Fletcher, o malogrado membro e co-fundador dos Depeche Mode.
Depois, vem uma sequência alucinante de outras canções no coração dos fãs, como 'Black Celebration' e 'Stripped', até chegarmos ao que se pensava ser o cume, com 'Enjoy the Silence', o tema em que Dave Gahan pode dividir as vozes de forma exatamente igual com o público. A interpretação da música abre-a a outras aventuras, com o teclista Peter Gordeno a entrar num delírio humorístico como se fosse da banda de Frank Zappa e Martin Gore a experimentar uma guitarradas funky.
Após um ruidoso de pedido encore do público, os Depeche Mode regressaram a palco para uma versão sacra de 'Waiting for the Night', com Dave Gahan e Martin Gore a formarem uma dupla vocal,com os demais membros nas teclas. Um cântico pela multidão alongou o tema, apanhando o próprio Dave Gahan de surpresa. A música que projetou os Depeche Mode mundo fora, 'Just Can't Get Enough', ainda é um motivo de alegria incontida ao fim de mais de 40 anos. Havia que pôr a render o tema o máximo que a formação britânica pudesse, num prolongamento que contou com Dave Gahan como um exuberante maestro da multidão.
A dança de braços no ar de todo o público no clímax de 'Never Let Me Again' é um déjà vu que não cansa, antes das cavalgadas rock & roll de 'Personal Jesus', com Martin Gore como herói da guitarra e Dave Gahan a gozar o momento com o público na ponta da língua do palco.
Ao fim de duas horas, há uma longa despedida de palco, com enormes e repetidos abraços entre os quatro músicos. Era visível a felicidade de todos eles. Mas era para Dave Gahan que os outros músicos apontavam. As canções são de Martin Gore, mas o performer é Dave Gahan. Ele foi o rei da noite.




































