Depois de 50 anos, Aurora Rodrigues continua a não ter nada a dizer à PIDE

O relato de resistência antifascista durante a ditadura.

Aurora Rodrigues é magistrada do Ministério Público. Fez parte da resistência antifascista durante a ditadura. Esteve três meses presa em Caxias, onde conheceu a tortura pelas mãos da PIDE. Depois do 25 de Abril volta à mesma cadeia. 

Como era o Alentejo em que cresceu?
Ora, no Alentejo - sobretudo no meu estrato social que era dos mais pobres - a Ditadura era uma opressão absoluta e o medo. O medo que tive a sorte de nunca me pegar. Fui uma pessoa que desde criança vivi sem grandes medos. Explicavam-me o que podia acontecer. De vez em quando sabia de pessoas que tinham sido presas… Isto já depois dos 5 anos, quando fui para Castro Verde. Onde nasci, perto da mina de São Domingos, vivia num monte, portanto só via a família e com a família não dava para me aperceber de diferenças sociais. 
Pobres éramos todos. Tínhamos o suficiente para comer. A família do lado do meu pai era de mineiros, todos eles, os homens; do lado da minha mãe eram pequenos seareiros. Eu só os via a eles, portanto, não percebia que havia ricos. Não sabia, não os conhecia. Como tal, não houve esta perceção, esta compreensão da realidade social. Isso eu percebi em Castro Verde. Havia os latifundiários, as pessoas que tinham muitas posses, e aqueles que não tinham absolutamente nada. Eu vivia num bairro social da Câmara e convivia, sobretudo, com pessoas ainda mais pobres que eu. Miúdas e miúdos ainda mais pobres que quando tinham alguma idade os rapazes iam guardar porcos e as raparigas iam servir. Primeiro iam à escola, mas iam pouco tempo porque andavam muitas vezes descalços e não podiam entrar. Tinha saído um despacho, não se podia ir à escola descalço. Nós tínhamos a escola das meninas e a escola dos meninos. As meninas que eu conheci, que foram comigo para a escola, muitas delas tiveram de sair logo. Foram só uns dias. A hipocrisia era de tal modo que os pais tinham de matricular as crianças na escola, porque caso contrário pagavam uma multa. Iam só nos primeiros dias para os pais não pagarem a multa, com sapatos emprestados. A seguir devolviam os sapatos e deixavam de ir à escola e iam servir, eles iam guardar porcos ou trabalhar para os latifundiários.
Isto foi o Alentejo que eu conheci. O meu pai era cantoneiro. A diferença que havia é que eu e a minha irmã comíamos duas refeições por dia e tínhamos sapatos. Tínhamos uns para o verão, outros para o inverno, mas tínhamos. Havia uma diferença. Parte das meninas com quem brincava, eram como eu. Os pais tinham algum emprego e recebiam ao fim do mês, o que fazia toda a diferença. Os outros que tinham as jornas para os latifundiários, quando não davam trabalho não tinham o que comer. Eram assalariados, nem sempre eram contratados. Em criança, muito pequena, assisti às praças de jorna que é uma coisa que ainda hoje me repugna. Nunca vi mercado de escravos, mas deve ser uma coisa muito parecida, porque havia um pregoeiro que era um indivíduo com uma voz alta, potente, que ia pela rua chamando para a praça principal. As pessoas dirigiam-se lá, os homens, e o pregoeiro dizia o que é que o senhor fulano tal dava à jorna, em tal sítio e qual era o valor. Os homens davam um passo em frente. Se aqueles homens, por algum motivo, já fossem vistos como não estando afetos ao regime – se havia suspeitas ou porque alguém disse ou porque alguém ouviu qualquer coisa - essas pessoas já não tinham trabalho e passavam fome. Grande parte das vezes era inventada: as pessoas não diziam nada porque o medo era tão grande que nem diziam. 
Uma das ideias e das imagens que tenho é do cante alentejano, que hoje é patrimônio imaterial da humanidade. Conheci-o de uma forma que me ficou para sempre. Eram os homens que levavam uma manta, um pano largo entre eles e cantavam o cante alentejano, as modas alentejanas, nas ruas para que lhes dessem qualquer coisa, o pouco que os outros tinham. Davam pedaço de pão ou chouriça, qualquer coisa para eles levarem para casa e poderem comer. Nem as bolotas, que eram fruto da azinheira e que é comestível. Os donos das terras, os latifundiários, davam as bolotas aos porcos porque quando eram alimentados a bolotas tinham a carne mais saborosa e, portanto, nem as bolotas podiam apanhar e passavam fome. Vi de facto o que é a fome, não há muito tempo.
Brincava com essas crianças quando elas podiam brincar e sabia que mesmo assim eu tinha mais que elas, embora tivesse pouco. Esta era a vida no Alentejo. A minha mãe era dona de casa, trabalhava em casa e cuidava de nós. O meu pai no início foi mineiro, mas quando nasci já era cantoneiro e foram para Castro Verde. Em Castro Verde podíamos ir à escola, com mais facilidade. Havia escola na vila, antes tínhamos de andar a pé porque o monte onde nasci, o Vale da Azinheira, era a alguns quilómetros da mina de São Domingos. Só fui à escola já na vila e a minha irmã ainda chegou a ir durante algum tempo, um ano, à escola a pé e depois em Castro Verde já foi mais fácil. 
O que conheci no Alentejo, que de certo modo me formou para a vida inteira, foi a miséria e a grande diferença social entre os ricos e aqueles que não tinham nada. Os remediados eram muito poucos. Havia pessoas que se dedicavam ao comércio, que tinham mais alguns bens, e funcionários públicos - da GNR, dos Finanças, outros funcionários da Câmara. Sempre tinham mais alguma coisa, mas não o suficiente. Não eram em número o suficiente para que houvesse algo no meio entre os muito ricos e os miseráveis, porque de facto estas pessoas viviam miseravelmente. As casas eram pobres, embora quando fui para a escola me tenham dado uma imagem completamente diferente do que era o país. Uma imagem falsa, mentirosa, do que era o país e que eu nunca tinha visto. As pessoas lembram-se, muitas vezes surge representada uma imagem numa gravura, um retrato que havia nos livros escolares. O livro era o único manual e tinha um retrato, uma estampa, que era uma casa… 

A mãe cozinhava, o pai estava à porta a voltar do trabalho.
Exato, o pai ficava à porta, só lhe faltava a gravata. Vinha com uma enxada ao ombro, limpinho... A casa reluzente. O filho estava vestido com a farda da mocidade e a menina estava a um canto a brincar com as bonecas. Nunca vi esse Alentejo, porque esse Alentejo e esse Portugal nunca existiu. Mesmo aquilo que se diz, que as mulheres eram as fadas do lar, ficavam em casa. Aliás, o próprio Código Civil quando entrei para a faculdade - quase que milagrosamente – afirmava que à mulher competia o governo da casa. Só que à mulher não lhe competia o governo da casa, a mulher era assalariada e trabalhava como os homens. 
Muitas vezes eram eles que estavam desempregados e elas iam servir, iam ganhar e sustentavam a casa. Faziam os trabalhos agrícolas, tal como eles, como assalariadas rurais. Muitas vezes com os filhos envoltos em trapos à espera que a mãe acabasse o trabalho. O trabalho era de sol a sol. Ainda me lembro disso, de se trabalhar desde a manhã até o fim do dia, de sol a sol. Este é o Alentejo, mas é penso eu que será o país inteiro. Embora não conhecesse o resto do país. Vim a Lisboa pela primeira vez tinha 14 anos e fui à praia pela primeira vez tinha 18. 

A Aurora tem aqui uma peculiaridade: num Portugal muito pobre, não sendo das classes mais altas, estuda e chega à universidade. Naquele tempo, foi uma exceção?
Foi uma exceção que foi sorte. Aliás, tive sempre muita sorte. Tive sorte com os pais que tive - que me ensinaram e que me deixaram ser livre e pensar livremente - e depois tive sorte de ter conseguido estudar. 
Era suposto as pessoas da minha condição social fazerem só até à quarta classe. Eu fiz, era boa aluna e a professora achou que era pena se eu não fizesse o exame de admissão ao liceu. Então ensinou-me para eu ir fazer o exame a Beja. Mas não teria continuidade. Só que teve. Há uma coisa que as pessoas às vezes desconhecem ou não dão importância quando pensam no país que foi. Este país teve sempre democratas. Este país nunca foi fascista. Houve sempre uns a falar e a fazer e outros em silêncio, mas houve sempre quem resistisse. 
Houve uma forma de resistir em Castro Verde, que foi criar uma escola para o secundário, que permitia às crianças e aos adolescentes, às pessoas mais novas de Castro Verde e arredores - nas vilas e aldeias à volta -, que estudassem depois da quarta classe, fizessem o secundário. Criaram uma cooperativa - que era um nome proibido na altura, mas que fizeram - juntaram-se pessoas que tinham estudado ou conhecimentos e outras pessoas da terra e fizeram uma escola, arrendaram o edifício. Nós pagávamos muito pouco e eles eram os professores. Quem criou a escola também dava as aulas, porque não havia dinheiro para contratar professores com especialização, davam aulas de acordo com os seus conhecimentos. Houve veterinário, o doutor Francisco Alegre, que dava tudo o que tinha a ver com ciências e física. O professor de inglês que eu tive, já depois no terceiro ano, era o chefe da secretaria, sabia e ensinava. A professora de francês era a mulher do advogado que sabia francês. O advogado e o padre foram os professores de português. Inclusivamente, a minha professora de matemática era notária, o que não tinha nada a ver, era de direito, mas dava matemática porque gostava e sabia. Era assim. Fundaram essa escola, o Externato Doutor António Francisco Aço. Deram este nome que tinha sido um médico da terra, não tinha nenhuma conotação nem de esquerda, nem de direita. Esta cooperativa dificuldades porque as pessoas que o fundaram não eram afetas ao regime. De qualquer modo, conseguiram, embora nunca tivéssemos feito exames nessa escola, em Castro Verde. Para fazermos todos os exames íamos ao liceu de Beja, que era a cidade mais próxima. 
Quando fiz o 9.º ano (na altura 5.º ano) um homem do Norte, de Marante, atribuiu um prémio a quem fosse o melhor aluno e tivesse os melhores resultados no exame de Beja. Este prémio era destinado a uma afilhada que ele tinha, que era minha colega. Ela não andava a estudar muito e ele quis incentivá-la, por isso atribuiu o prémio. Nunca me passou pela cabeça, nunca achei que tivesse nenhuma inteligência por aí além. De qualquer modo, tive sorte e ganhei o prémio. Eram seis meias libras em ouro. O ouro nunca me disse grande coisa, mas o resto já disse. O senhor ofereceu-se: se eu quisesse continuar a estudar e os meus pais achassem bem, podia ir para o liceu de Beja continuar, porque naquele externato de Castro Verde só havia até ao 5.º ano. Para continuar por aí adiante, teria que ir para Beja e poucos poderiam ir porque tinha que se arranjar alojamento e acabava por ser caro. Eu não teria, como a maior parte de nós, a hipótese de ir para Beja, mas como o senhor ofereceu que pagava fui e estudei.
Quando acabei o 7.º ano, que é hoje o 12.º, ele disse: "Se quiseres continuar a estudar, ir para Lisboa, eu pago". Eu quis. Aliás, não queria outra coisa, não sonhava com outra coisa, eu queria continuar a estudar. Foi assim que cheguei à Faculdade de Direito com 17 anos, no ano letivo de 1969/1970. Já estava Marcelo Caetano no poder, o Salazar já tinha caído da cadeira, e a Faculdade era, de facto, um clima extremamente opressor. Muito mais opressor do que aquilo que eu tinha vivido até essa altura. Mas a opressão está em outro lado. Quando há uma opressão muito forte, a resistência afirma-se. Eu vinha com aquilo que tinha visto, com o que tinha lido - e tinha lido muito. Quando cheguei à faculdade, já era uma rapariga com ideias cimentadas, ideias firmes sobre a guerra colonial que existia na altura, sobre o fascismo. 
Tinha lido muito. Li logo em Castro Verde, que havia as Bibliotecas Itinerárias da Gulbenkian. Tive sorte também aí. O orientador, a pessoa com quem fazíamos as fichas dentro da biblioteca - as requisições dos livros -, era marido da minha professora de matemática - a tal senhora que era notária. O senhor Bettencourt achou-me piada ou achou que eu queria saber. Tinha ido buscar livros desde que aprendi a ler. Entrei para a escola com seis anos, pouco depois disso já sabia ler e ia buscar livros. Ao princípio, trazia sempre os mesmos. A minha mãe ria-se, mas eu nunca tinha tido livros. Nunca tive brinquedos, nunca tive livros. Aqueles era como se fossem meus. Levava-os, mas trazia-os outra vez. Já havia esta noção de que aquilo era meu. Depois aprendi que não e comecei a ler de outra maneira, a ler outros. À medida que crescia, ele ia-me ensinando a escolher, dizia: "Olha, hoje levas este. Olha, este é melhor para ti" e ia-me dando livros mais avançados à medida que eu era capaz de os entender. Foi muito bom para mim.
Em Beja também tive sorte. Dormia num quarto, mas tomava as refeições em casa dos amigos dos meus pais. O filho deles estava na iminência de ir para a tropa e pertencia a um círculo de leitura - livros e jornais que circulavam de forma muito restrita, alguns proibidos. Não sabiam que ele me passava livros, porque aquele círculo era só de rapazes. Era suposto que as raparigas não soubessem aquelas coisas. Mas o Gonçalves, que é o nome dele, passava-me os livros às escondidas e eu li tudo. Li muito. Tinha era que ler muito depressa, porque ele a seguir tinha de devolver os livros. Mas lia e depois discutia-os com ele.
Quando cheguei à faculdade não sabia quem ia encontrar, mas já sabia o que é que procurava. Pessoas que pensassem como eu e que fossem contra a guerra e o fascismo, pela liberdade e, sobretudo, pela igualdade. Também sabia o que era a indignidade: eu queria dignidade, queria justiça. Não tinha tido medo antes de pensar assim. Na faculdade eu não tive medo de procurar. Procurei quem pensasse como eu, quem tivesse estas ideias. Não era que fosse politizada ao ponto de conhecer partidos, não conhecia partido nenhum. Eu tinha era ideias e queria pô-las em prática. Logo nos primeiros tempos, ali perto da faculdade e da Cantina Velha, havia um bairro de lata. Foi uma coisa que também me ficou cravada. Comecei a ouvir falar no apartheid. Lembro-me que via os bairros de lata que havia perto da cantina e via aquilo como se fosse o apartheid, que era aquele que tinha conhecido também em criança. 
Já estava na faculdade a primeira vez que fui à praia, porque antes não tinha podido ir: o Alentejo não tem, a não ser ali no litoral.

Ainda fica longe, ao contrário do que nos parece atualmente. Hoje veio de Évora e é uma coisa que se faz bem. Naquele tempo não se fazia, eram muitos transportes e quase ninguém tinha carro. 
Os meus pais viviam em Castro Verde. Para vir a Lisboa levava grande parte do dia, era difícil e penoso. Só ia nas férias de Beja para Castro Verde, também não era fácil. O autocarro parava em todo lado. Era difícil e caro para nós e não havia outra forma de fazer para estar com a família. 
Em Lisboa, arranjei um quarto e fiquei com uma amiga que tinha vindo do liceu, que é hoje minha cunhada. Houve sempre uma ligação muito forte entre mim e aquelas pessoas que foram minhas amigas, quer em Castro Verde no externato quer no Liceu de Beja. Esta amizade manteve-se e continua. A minha maior amiga do liceu ia comigo às manifestações aqui em Lisboa e é a madrinha da minha filha. Somos irmãs praticamente. Há uma base de apoio, um suporte, que me ajudou a ser a pessoa que fui e sou. Essas pessoas ajudaram muito. Como me ajudou muito em todas as circunstâncias a firmeza da minha mãe. 
A minha mãe tinha a terceira classe, mas era uma mulher de uma coragem e de um conhecimento que é admirável. É uma mulher de uma força. Quando fui expulsa da faculdade, a minha mãe disse-me: "Deixa estar, filha. Também não era suposto que estudasses, deixa estar."
Deu muita força, mesmo na prisão. A minha mãe foi a primeira pessoa da minha família que soube que eu podia ser presa, porque eu sabia que podia ser presa. Disse-lhe e ela não me tentou desviar. Não disse "Está quieta, vai-te embora, deixa isso", só disse "Ai, filha…" Ela sabia o que ia acontecer, mas nunca me tentou demover. A minha mãe era uma mulher de uma coragem que eu gostava de ter tido. Estou neste programa, com o nome que tem, quem me dera eu ter a coragem e ser revolucionária como a minha mãe. Ela tinha muito mais coragem do que eu. 
Só tenho uma filha. Se visse a minha filha na prisão como a minha mãe me viu… Não sei, acho que desatava a chorar. A minha mãe não chorou. A minha mãe deu-me força. Estava presa, num dos lados da prisão estavam as celas. Ela entrava pela porta lateral, mas não nos tocávamos. Havia um vidro que separava de alto a baixo. No primeiro dia que soube que eu estava presa e teve a autorização para me ver, a minha mãe levava um lenço meu ao pescoço e uma carteira minha. Do lado onde estava a família, do lado estavam dois pides. Ela não disse "eu tenho as tuas coisas", ela levou-as para eu ver que ela tinha e que eles não tinham chegado lá. A determinada altura, disse: "Olha, filha estou bem. Está tudo bem, a mana está bem" - tinha uma sobrinha pequenina que tinha nascido em março, isto foi em maio - "a tua sobrinha está bem. o pai está bem". Estendeu e mão e disse "Estás a ver? Não treme." E não tremia. Eu não era capaz de fazer isso se a Catarina, que é a minha filha, estivesse do outro lado. Não era. Acho que a mão tremia, que me desmanchava, e ela manteve-se firme. No final falou daquelas coisas triviais, que era aquilo que nós falávamos porque os pides estavam com a família. Quando os pides disseram “Terminou o tempo”, a minha mãe disse: "Porta-te bem, filha. Não fales". Eu acho que a revolucionária é ela.

Antes da prisão, ainda na passagem por Direito, junta-se ao MRPP e à FML. São grupos que eram ostracizados pelo Estado Novo. O que a leva até eles? 
Ora, eu era mesmo frontalmente contra a guerra. Não só por causa de morrerem os soldados portugueses, o que já era muito. Achava que o colonialismo em si era uma injustiça. Aqueles países que nós aprendíamos na escola primária - Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe - inclusivamente tínhamos de saber as linhas de caminhos de ferro e os rios de Angola (coisa que não imaginava onde é que ficava e o que era, mas tínhamos que decorar aquilo). A ideia com que fiquei é que aqueles países eram muito maiores que Portugal e eram países ricos. Achava que era injusto. Aquela guerra, aquele domínio, era injusto. Isto é uma coisa que eu percebi muito cedo, embora nunca tivesse visto um negro. Só vi em criança um negro em Castro Verde, que tinha sido um criado, trazido por uma família de Angola ou de Moçambique, e andava na rua com uma farda branca e que levava os meninos à escola. Naquela altura, não era suficiente pensar, tinha de se dizer. Eu já dizia. Aliás, nunca fui muito calculista. Eu não era capaz de me calar. Mal me descuidava já estava a dizer o que pensava. Houve um dia que vi duas pessoas dizerem exatamente aquilo que eu pensava. Já tinha visto outros, mas os outros não falavam da guerra ou falavam muito baixinho. Falavam dos presos, mas não como resistentes. Apresentavam os presos, que estavam presos e a resistir, como vítimas. Com uma peninha pelo meio que não me dizia nada, não era assim.
Quando vejo, no átrio da faculdade de Direito, em cima de um banco o José António Ribeiro Santos de um lado e do outro, em frente dele, o Zé Galamba de Oliveira, ambos a falarem contra a guerra colonial, que não tinham que ser embarcados, tinham que fugir e desertar… Foi a primeira vez que ouvi falar em deserção, não tinha conhecimento da palavra, mas era precisamente isso que eu achava. Não tinham de ir combater, não tinham de ir morrer, aquela guerra era injusta. Tinha lido tudo o que havia sobre a guerra do Vietname e sabia o que é uma guerra injusta. Quando eu estava em Beja, não chegavam livros sobre a guerra colonial portuguesa, chegavam livros sobre a guerra do Vietname - que é exatamente a mesma guerra. Sabia que era injusto, mas as pessoas só falavam pela calada. Eles falaram alto e eu pensei: "Estes é que dizem aquilo que eu quero dizer." Comecei-me a aproximar deles até que um dia, numa reunião da Associação de Estudantes - ainda havia nessa altura, durou muito pouco tempo - houve uma proposta para a receção do Caloiro, que era fazer um baile. Estava lá na associação, ainda andava a ver o que me interessava, e falam-me em baile. E eu digo: "Baile? Então bailes há em Castro Verde. Aqui quem quiser bailar, vai às discotecas. Pode-se bailar em qualquer lado, não é proibido. Um baile não faz sentido. Porque é que nós não fazemos jornais de parede? Não dizemos aos estudantes que vão entrar aquilo que os espera?” Aquilo que os espera é reprovar quando forem a exame, que é para perderem o tempo de espera e irem para a guerra. Serem embarcados, irem combater. É isso que os espera. Nós estamos aqui a ser formados para servir o fascismo. É isso que nós temos de dizer. É verdade que não falei assim, disse: "Não, não faz sentido. Vamos informar, vamos falar". E eles disseram-me: "Isso é uma adenda? Estás a fazer uma adenda ao baile ou é outra proposta?” Eu mal sabia o que era uma adenda, vinha do Liceu de Beja, falar alto e em público era coisa que eu não estava habituada. O José António Ribeiro Santos disse: "Não, isto não é uma adenda. É uma proposta diferente." A partir daí ficámos a falar muito um com o outro. Aproximei-me mais deles, já andava a tentar. Queria estar com eles, era o grupo a que eu queria pertencer, que falava abertamente contra a guerra, que era radical. Eu era radicalmente contra aquilo que existia. 
Entrei para o Movimento Cooperativo Livreiro. Sempre adorei livros, havia uma cooperativa livreira universitária que era a Livrelco, e eu colaborava. Em direito, estava na linha associativa, que era o movimento “Ousar lutar, ousar vencer”, nome que ainda hoje me empolga. Eu gostava. Entrei nessa linha porque entrei com essa gente. Eram os meus. Eles falavam a mesma linguagem que eu e eu falava a mesma linguagem que eles. Quando assassinaram o José António Ribeiro Santos, estava com eles em Económicas. Andei a colar os cartazes a convocar para o meeting do dia 12 de outubro de 1972. Um individuo - não sei se era PIDE, mas era bufo, era informador - estava a passar para um pequeno caderno as palavras de ordem que estavam nos cartazes que tínhamos posto ao lado daquela vietnamita no arrozal com uma metralhadora. Ora, ou era jornalista e então diria que era - a ser seria um jornalista estrangeiro, porque os portugueses não podiam, havia censura -, ou então era informador. Outra coisa não podia ser. Eu trabalhava, já tinha perdido a bolsa, já tinham deixado de me pagar. Andava muitas vezes sozinha porque tinha de conciliar a faculdade com o horário de trabalho e isso nem era compatível sempre com o horário dos outros que estavam comigo, que era mais livre. Cheguei mais tarde a Económicas e aquilo já tinha acontecido, entrei com o João Isidro, o Ribeiro Santos e o Emanuel Santos. Já tinham encontrado lá o bufo e a Associação de Estudantes de Económicas - que na altura era dirigida por uma linha contrária a nossa, mais conformista, que achava que os presos políticos eram vítimas e os choravam – faziam abaixo-assinados, que é uma coisa que eu sempre me recusei a preencher, porque só servia para dar o nosso nome à PIDE. Nós sabíamos disso. Dar o nome não é preciso, eles que façam: corríamos o risco e eles iriam localizar-nos, mas nós não lhes íamos dizer o nome, não tínhamos nada que dizer. 
Os dirigentes da Associação Académica de Económicas tiveram uma ideia absolutamente disparatada, absurda, que devem provavelmente ter-se arrependido o resto da vida. Então não é que eles foram ter com o secretário da faculdade, de nome Estrela, para chamarem pides para dizerem se aquele indivíduo que estava a passar as palavras de ordem era ou não da PIDE, para identificarem. Isto aconteceu. É absolutamente absurdo. Toda a gente soube que tinham ido chamar pides. O Ribeiro Santos teve a ideia, com outras pessoas que estavam connosco, de entrarmos no edifício principal - que era onde os pides chegaram. O meeting era no anfiteatro, onde é hoje uma esplanada, fora do edifício principal num pré-fabricado. 
Eu era baixa, ainda sou, mas era muito magrinha. A sala onde eles foram recebidos, tem uma janela na porta. Disseram ao António Luís Cotrim, que era forte e alto, para me pôr aos ombros e eu ver pela janela o que é que estava a acontecer. Direi sempre que não vi nenhum constrangimento. Entre aquelas pessoas que lá estavam, o secretário da faculdade e os pides, não havia nenhum ambiente de constrangimento. Eles riam. Sorriam, falavam. Eu ia contando cá para baixo. Estavam em semicírculo, de costas viradas para a tal janela onde eu estava, e às tantas eles viraram-se para sair. O Cotrim pôs-me no chão e eles saíram. Nós fomos à frente, aquilo tem uma escadaria, nós fomos a ladeá-los, correndo à frente deles, para chegar à porta do anfiteatro e barrar a passagem. Só que quando chegamos, ainda era grupo grande, gerou-se uma confusão porque estavam estudantes dentro e vinham à frente connosco os tais dirigentes da Associação de Estudantes, que disseram: “Calma, calma, nós temos garantias”. Houve uma confusão e os pides aproveitaram e entraram. Nós entrámos porque a ideia era sempre colocarmo-nos à frente, mesmo junto à porta, no estrado onde estava a secretária do professor naquele anfiteatro. Um dos pides meteu a mão dentro do casaco, trouxe a pistola e não teve tempo de meter a bala na câmara. Aquela pistola já tinha uma bala na câmara e disparou. Não se fez nenhum tiro de aviso, não disse que ia disparar, não disparou para cima, não disparou para o chão. Disparou diretamente sobre o José António Ribeiro Santos, que não morreu logo. Continuou a disparar. O José Lamego, que era também do grupo "Ousar lutar, ousar vencer", e que segundo ele, estava em boa forma física, deu um salto, agarrou a mão do pide e puxou para baixo. O pide continuou a disparar, mas foi contra a perna do José Lamego e feriu. Entretanto, os pides saíram. Os estudantes fugiram, deitaram-se para o chão, que era aquilo que todos quiseram fazer naquela altura. Outros meteram-se atrás das cadeiras. 
O José Lamego foi levado para o hospital. O José António Ribeiro Santos, que não estava deitado no chão, estava reclinado - sentado no estrado e encostado à secretária do professor -, estava com a cor normal quando eu me estava a aproximar e de repente empalideceu. Morreu com uma hemorragia. Ainda me cheguei ao pé dele, mas eu não cheguei a falar sequer. Ainda o ouvi dizer: "Depressa!". Foi para o hospital. Eu saí do anfiteatro e ali na calçada apanhei um táxi para o Hospital de Santa Maria. Foi aí que eu soube que ele tinha sido assassinado, tinha morrido. Há uma mudança. Acho que foi neste dia que se confirmou o que é que eu tinha a fazer. Lutar. Lutar contra quem matou e não mataria mais ninguém. Entrei no MRPP nesse dia, na Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas, que eu sabia que ele pertencia. Houve uma reunião na associação do Técnico. Foi nessa noite que eu entrei para a federação e logo a seguir para o próprio partido. Pertencia às duas organizações, que são a mesma porque a federação era o setor estudantil do MRPP. Só que uns não sabiam dos outros. A célula que eu pertencia na federação, não sabia que eu pertencia a uma célula do MRPP - o aparelho técnico, que é a tipografia clandestina. Recrutaram-me para a federação, eu entrei, e logo a seguir recrutaram-me para o MRPP, mas eu não disse que estava na federação. Fazia os comunicados na tipografia. Grande parte deles eram com resmas que eu comprava porque trabalhava num restaurante, O Caldeiro da atriz Maria José, e também datilografava. À noite pintava paredes. No dia 20 de janeiro de 1973, quando fiz vinte e um anos, passei a noite a pintar nas paredes de Lisboa honra a Amílcar Cabral, porque foi nesse dia que a PIDE o assassinou e a notícia chegou cá muito rapidamente. Não havia quem fizesse a brigada comigo para ir, então fui eu. Não tive medo. Sabia que seria presa. 
Fui marcada no cemitério, no funeral do José António Ribeiro Santos, porque consegui furar. Tinha estado no largo onde ele morava, que é hoje a Calçada Ribeiro Santos. A ideia era levar o caixão aos ombros, mas a polícia carregou. Nós fomos a correr até ao cemitério, porque o caixão foi levado pela polícia de choque. Quando chegámos, pelo menos as pessoas que iam comigo, os portões estavam fechados. Eu e outros trepámos os muros do cemitério da Ajuda, aqueles socalcos que ainda hoje se veem lá, eram umas hortinhas. Saltei para dentro do cemitério, como era magrinha, consegui furar e chegar mesmo junto da cova, que estava rodeada de polícias. Vim a saber mais tarde que eram pides. Eu vi-os e eles viram-me. Passados poucos dias prenderam-me no comando da PSP de Lisboa para dizer que da próxima seria diferente. Um dos jogos psicológicos da PIDE era a ameaça para que nós parássemos, para amedrontar. Foi depois disso que disse à minha mãe que iria ser presa, mas não parei. Não parei até ser presa e fui a 3 de maio de 1973.

Como foi o dia em que foi presa? 
Eu estava num protesto, não estava em nenhuma ação partidária. Estava com muitos estudantes de muitas escolas que estavam a protestar contra as prisões que tinha havido no 1 de Maio, junto à Faculdade de Letras. Quando a PIDE veio atrás de nós, eu e vários fugimos para um sítio que não tinha saída. A polícia vinha atrás e encurralou-nos. O Comandante Pereira, que passou praticamente incólume. Toda a gente fala no Capitão Maltês, mas ninguém fala no Capitão Pereira. Era o chefe da polícia de choque da Cidade. Foi esse que sempre que me viu me prendeu ou me quis prender. Foi ele que me prendeu a 3 de maio. Virou-se para uma agente - já havia agentes mulheres da PSP - e disse-lhe: "Tira uma fotografia a esta para a posteridade". Eu sabia, eles já me tinham dito que ia ser torturada. Mandaram-nos a todos deitar na lama, que tinha chovido, com a cara para baixo. Eu não deitei. Depois meteram-nos a todos num carro da polícia, daqueles carros azuis, e levaram para o comando da PSP. Eu e uma outra rapariga, a Maria da Conceição Granja Rodrigues, que eu nunca mais me esqueço - era estudante do técnico - e fomos metidas as duas numa cela. Eu estava a olhar para a minha carteira, que estava toda borrada cheia de spray por dentro, porque pintava as paredes com aquilo e quando se guardava sujava. Tinha feito sempre tudo para não ser presa. Por isso levava uma carteira ao ombro e ia muito bem vestida para as pinturas. Podiam pensar que era outra coisa, desde que não pensassem que eu estava a pintar paredes, não me importava. Eu disse à Maria da Conceição: "Agora é que estou tramada, porque vão ver o spray e vão saber o que é.” Ela respondeu “Eles contra mim não têm nada. Eu só estava ali porque fui ver o meu namorado, que é de Letras, e é o que eu vou dizer. Troca comigo.” Não sei o que é que lhe perguntaram, mas alguma coisa perguntaram. 
Tinha feito tudo para não ser presa. Escondia-me, tinha várias casas, dormia em sítios diferentes, consoante onde ia fazer as pinturas. Tinha o quarto de uma amiga no Areeiro, tinha uma casa com outra amiga que trabalhava no restaurante O Caldeiro. Eu morava na mesma rua onde trabalhava e eles nunca me conseguiram seguir do restaurante para casa porque dava muitas voltas. Conseguia enganá-los. Quando ia de táxi, saía ali no entreposto porque a seguir era sentido proibido para os carros. Quando vinha d’O Caldeiro, metia-me pelos prédios, entrava por uma porta e saía por outra. Portanto, eles não me conseguiam seguir, mas nesse dia conseguiram prender-me e fui presa. 
No comando da PSP ainda estive com a Conceição. Depois fomos todos em carrinhas para a PIDE e fui separada dos outros logo. Mas eu já sabia. Eles já me tinham dito que ia ser diferente. Portanto, eu sabia que ia haver tortura, mas não sabia era o quê. Nunca ninguém conseguia nem consegue saber as formas como se pode torturar outra pessoa. A maldade, a crueldade. A PIDE tinha de facto esses procedimentos, era pretensamente científico. Não torturavam logo, ameaçavam primeiro. Antes de me torturarem ameaçaram sempre. A primeira coisa que fizeram quando entrei no Reduto Sul, sozinha, foi despirem-me completamente numa espécie de secretaria, um espaço aberto, onde estavam lá uns indivíduos mais acima, do sexo masculino e feminino. Estavam a fazer que escreviam à máquina. Quando me despiram foi a pide Madalena Oliveira e a pide Albertina, tiraram-me a roupa absolutamente toda e eu fiquei nua perante aquelas criaturas que olhavam para mim e disseram... Eu fazia por não ouvir. Depois devolveram-me a roupa, tiraram-me a fotografia e levaram-me para o Reduto Norte. 
O Reduto Norte de Caxias era dos serviços prisionais. Naquela altura, os pides não entravam no Reduto Norte, porque eram os guardas prisionais que nos levavam até à porta. Os pides vinham com uma carrinha celular e levavam-nos para a tortura. Mas não foi logo. Primeiro fui ao médico para saber, penso eu, até que ponto resistiria à tortura. Fui presa a 3 de maio e fiquei até ao dia 16 no Reduto Norte. Comia, dormia. Trouxeram umas regras. Vinham os guardas prisionais, para aí às quatro da manhã, punham-me luzes em cima dos olhos. Ouvia o toque das grades, que é uma coisa que ainda hoje eu oiço: os gradões, os ferros e as fechaduras a abrir. E estava ali. Tomei banho. Aproveitei para dormir porque andava em tanta atividade, fazia tanta coisa e ainda por cima trabalhava que não tinha tempo para dormir. Então, nos primeiros dias dormi. Até havia beliches, tinham lençóis. Tomei banho e limpei-me com os lençóis. Havia água quente e fria, mas não havia misturadora, portanto ou me escaldava ou tomava banho de água fria, mas não faz diferença. Estava ali. Entretanto, no dia 16 é que me levaram. Vieram-me buscar nesta modalidade que digo: os guardas levaram-me até à porta, os pides meteram-me na carrinha, levaram-me para a cela de tortura e foi a primeira vez que eu a vi. Estava o inspetor do meu processo, que é o Américo da Silva Carvalho, que se apresentou. Eles nunca se apresentavam, mas aquele apresentou-se. Disse que era o inspetor do meu processo e eu tinha duas vias: a via do sacrifício ou a via da colaboração. Fosse qual fosse a via que eu escolhesse, o resultado era o mesmo. Dali não saía sem falar. Depois mostrou-me as grades, aquilo pareceu-me grossíssimo: “Estás a ver aquelas grades? Por ali não sais a não ser feita em puré. Pela porta não sais, que nós não deixamos. Mas não é hoje, é daqui a oito dias.” Aqui está, o medo. Levaram-me para o Reduto Norte comer e dormir. Só que não me limitei a comer e a dormir, fiz uma estratégia, disciplinei-me. É fundamental esta questão da disciplina. Pensei coisas que nunca iria fazer e à medida que ia conseguindo, ia ganhando força. 
Passados precisamente os oito dias, foram-me buscar outra vez e a tortura começou. A cela de tortura tinha uma mesa retangular. Eu tive sempre um banco sem costas. A primeira vez que lá fui, no dia 16 de maio, não sei se era banco, se era cadeira, porque isso não deu para ver: só estive lá dentro e estive de pé, enquanto ele me disse isto. Ali, quando fui para a tortura, tinha um banco sem costas. À frente havia cadeiras. Mudavam consoante o número de pides. Havia uma casa de banho, quando se entrava do lado direito, que só tinha um lavatório e a sanita. Não tinha nem bidé, não tinha nada com que eu me pudesse limpar ou lavar. Não tinha sabão, nem pasta de dentes, nem escova, nem toalhas. Tinha papel higiênico e mais nada. Quando entrei, uma das primeiras coisas que me fizeram foi escarrar para cima. Puseram-me de pé junto à parede, mas sem estar propriamente encostada. Vieram muitos - porque os pides não eram só os da brigada, vinham os que lá estavam - e escarraram. Fizeram escarro ao alvo. Eu mexia-me, torcia-me, baixava-me, levantava-me, mas não consegui evitar e aquilo é a coisa mais nojenta que pode existir. Tive uma necessidade, foi uma coisa absurda, de ir tomar banho a seguir, tirar aquilo tudo. Só que eu não só não mudei de roupa, como não tinha chuveiro para tomar banho, nem para me limpar. Fiquei com a mesma roupa. 
Começou a tortura do sono, que era a grande arma. O grande instrumento para além do medo era a tortura do sono. Os pides iam-se revezando. Esteve sempre uma mulher presente, que também se revezava, mas estava sempre uma mulher. Os pides homens é que faziam as perguntas, mas não entravam só aqueles. Tinha-me disciplinado que, enquanto fosse possível, não ia dizer uma única palavra. Nada. No princípio, eu não disse nada. Eles entravam, depois de me terem escarrado para cima, e eu não disse uma única palavra. Lá estava, no meu banco. Eles vinham, sentavam-se à minha frente, depois vinham outros. Faziam perguntas, algumas provocatórias. "Então tens irmãos?" e eu não dizia nada. "Isso não é política, tu não respondes porquê?" e eu não dizia nada. "Ah, ainda não é política, então porque é que não dizes?" Houve um dia um que puxou um maço de tabaco, depois fez aquele gesto para puxar o cigarro para a frente e disse: "Fuma?", eu era uma grande fumadora, só que tinha deixado de fumar no Reduto Norte porque para ter lume tinha de chamar os guardas e não queria. Então veio o cheiro do tabaco e eu que era uma grande fumadora senti aquilo, mas senti um impulso e disse "não". O "não" saiu-me, porque foi uma forma de resistir, mas não foi pensado. Saiu. A partir daí, quando iam, diziam no final depois de fazer aquelas perguntas que não tinham nenhum sentido e de me terem dito também que tinha andado a distribuir “O Militante”. Eles sabiam que eu era do MRPP, portanto, nunca distribuiria “O Militante” que era do PCP. Isto foi uma provocação a ver se eu poderia dizer: "Não, que isso não distribuo" ou qualquer coisa de estilo, mas eu não disse nada. 
Só disse quando quiseram que eu fizesse a tortura da estátua. Aí eu falei para dizer que não o fazia, porque eles quando disseram que agora fazes o Cristo, agarraram-me os braços. Ora, eles tinham de me agarrar os braços para eu ficar assim: eu estava na mesma posição e eles também. Foi o que eu lhes disse, quando me largasses os braços eu baixava-os. E baixei. Eles largaram e eu baixei. Com uma cadeira tentaram fazer o mesmo. Eu a partir daí falei, mas nunca disse nada. Uma das coisas que me tinha proposto é que nunca choraria lá dentro e não chorei. Também que não dizia palavrões, porque o palavrão nós, mal ou bem, associamos àquilo que é sujo e a sujidade era com eles. Eu estava num outro patamar e sempre me coloquei no outro patamar. Estive 16 dias e 16 noites sem dormir. No final, senti aquilo tudo que todos os presos sentem. As pernas inchadas. Tinha umas botas de camurça que estavam completamente encharcadas e descalcei-me. Eles diziam várias coisas, gritavam, sacudiam, abanavam. Batiam naquela mesa durante noite e dia para eu não adormecer. Aquilo tinha uma gaveta por baixo, a meio da noite batiam, era um estrondo. Mantive sempre o sangue-frio, tentei manter sempre a calma. Nesse dia, a pide Maria José, porque havia sempre mulheres, disse: "Tu aqui ou falas ou morres ou ficas maluca". E eu disse: "Falar, não falo. Ficar maluca, não fico. Se morrer, daqui até ao cemitério do Alto São João vai uma grande distância e as pessoas vão saber que me mataram". Eu muito sinceramente nunca tinha ido ao cemitério do Alto São João, mas veio-me isso e nunca mais me esqueci. Era uma das coisas que eles não queriam nessa altura e por isso é que me tinham levado ao médico. Entretanto, como tinha os pés inchados e tudo molhado, descalcei-me. O chão estava frio e espirrei. Ela disse "Calça-te, que já te constipaste" e eu respondi-lhe "Então, se eu vou morrer, tanto faz constipada como não". Tive sempre uma coisa que nunca foi meu hábito. Eu nunca tive respostas prontas, mas ali consegui manter o sangue-frio e responder-lhes. Houve um dia que essa mesma PIDE me disse que por minha causa deixava o filho sozinho em casa e ela gritou: "O que mais nos exaspera é a tua calma". E isso deu-me uma força tremenda. Eles nem percebiam, mas não eram burros. Os pides não eram burros. Esta ideia de que usavam gabardina e eram todos burros… Os burros são uns animais até bastante inteligentes, mas não eram idiotas. Tinham métodos científicos que tinham aprendido. Um era meter medo. 
Quando fui espancada, não fui de repente, uns quatro dias antes começaram a dizer que vinha a Brigada dos Índios. Fui espancada naquela cela com as mãos nos bolsos por um indivíduo que eu soube depois - nunca disse antes porque não tinha a certeza, mas agora tenho - que foi o Casimiro Monteiro, o assassino do Humberto Delgado. Foi chamado só para fazer isto. Ele espancou-me, eu não disse nada e ele também não. Ele espancou-me sem dizer uma palavra e eu pensava: isto vai acabar, isto vai acabar. Era o que eu pensava e acabou. Acabou e eu não sabia como. Acabou porque outros dois entraram e levaram-no lá para fora. Eu perdi os sentidos, mas foi a seguir. Antes de perder os sentidos vi entrar o médico. É por isso que eu sei que esta tortura era medicamente assistida. Primeiro viu até que ponto é que resistia, depois o médico entrou. O médico quando eu recuperei os sentidos pediu licença para me dar uma injeção. Nunca me pediram licença para nada, não sei se tinha medo de que eu partisse a agulha, se o que era, mas pediu licença, deu a injeção e eu recuperei os sentidos. Depois de recuperar entrou o inspetor do meu processo a dizer aquilo que eu até hoje detesto: “Eles excederam-se.” Quando alguém me fala em excessos e se trata da violação dos direitos humanos, eu sinto vontade de bater. Quando se violam direitos humanos, não há excessos. Há violação dos direitos humanos, seja muito ou seja pouco. Ele disse-me: "Eles excederam-se." Nunca pensei, o mesmo pide que me tinha dito que eu dali só saía feita em puré. Esse mesmo fez de bonzinho. Ele nunca tinha pensado que eles iam fazer aquilo. Quando estava programado e me tinham dito que vinha a Brigada dos Índios, aquilo foi pensado e foi feito. Ele, no final, depois de me falar em excessos, disse-me que ali agora já tinha acabado, eu ia dormir, ia para o reduto norte, mas tinha de colaborar. Isto é, tinha de denunciar. Eu disse que não. E a tortura continuou no mesmo sítio da mesma maneira até eu conseguir ter os olhos abertos. Há uma altura que o gorro, que desde o início nós sentimos, parece que se enfia pela cabeça abaixo e tapa os olhos, perde-se completamente o equilíbrio. Eu já só lá estava porque eles me empurravam, porque eu caía. Foi nessa altura que apareceu a pide Madalena, que dizia que me espetava paus de fósforo debaixo das unhas - ainda não percebi porquê que eram paus de fósforo – e me metia palitos nos olhos, porque eu não conseguia abrir. Acho que mesmo que ela me batesse, eu não sentia nada já naquela altura, estava já dessensibilizada. 
Levaram-me para o reduto norte. Deixaram-me ter visitas. Passada uma semana, trouxeram e eu expliquei: tal como tinha explicado a propósito da tortura da estátua, não era masoquista. Quem tinha aguentado o que eu aguentei, aguentava até ao fim. Esta segunda vez já foi muito mais ligeira. Desta segunda vez, eu vi uma coisa magnífica: estava na tortura e, de um lugar privilegiado, vi o fogo de artifício sobre o Tejo porque Almada passou a cidade. Eu estava e eles lançaram. Aquilo foi belíssimo. Mesmo que se pusessem à minha frente, via o fogo de artifício, porque não havia cortinas, havia grades. E vi. Ainda tentaram que eu dissesse alguma coisa. A última tentativa foi para eu me pôr de pé e perguntavam-me sempre: "Continuas fiel à palavra de ordem do partido?" Eles até há um auto em que eles dizem qual era, onde é que vinha, do “Bandeira Vermelha”, essa palavra de ordem do partido. Acho que nunca li esse “Bandeira Vermelha”. Eles lá citavam a página não sei quantos e perguntavam-me sempre se eu continuava fiel à palavra de ordem do partido. O que lhes disse sempre é que não prestava declarações. Eles perguntavam: "Mas não falas porque não sabes ou não falas porque não queres?" Eu nunca disse que não sabia. Eu disse sempre: "Não tenho nada que dizer à Pide". Nesse último dia, apareceu-me um pide a dizer que tinham decidido atribuir uma caução de dez contos. E eu disse: "Para quê?", ao que respondeu "Para aguardares em liberdade o desenrolar o teu processo". Eu disse: "Eu nunca vi dez contos na minha vida juntos, e se os tivesse não era para dar à PIDE". Ele saiu e disse: "Já volto". Quando voltou, disse: "Põe-te de pé". Eu estava sentada – mas isto era uma secretaria, não era numa cela de tortura – e perguntei "Por quê?" "Põe-te de pé, que estás a falar com uma autoridade". E eu disse: "Eu não lhe reconheço a autoridade" Ele levantou-me pelos cabelos, deu-me um murro no estômago, eu fiquei sentada e nunca mais os vi. Foi assim que acabou. Passado pouco tempo foram os guardas prisionais à cela dizer: "Arruma as tuas coisas que vais sair". Eu tive muito cuidado foi com os dois blocos castelo onde eu tinha feito os calendários com os dias de tortura. O resto das coisas não me importava. Importava-me era os blocos castelo, separei-os, meti nos sacos e tive sorte. Mais de uma vez eles rasgaram as folhas de um dos blocos castelo, mas o outro onde estavam os calendários não encontraram e ainda tenho os calendários. 
Há uma coisa que eu penso e guardo: nós não sabemos do que somos capazes, mas somos capazes de muito. Hoje as pessoas já se esqueceram, em grande parte, da ditadura, do fascismo… Isto é o fascismo. Isto é o Salazar e o Marcelo Caetano. Não queremos um, não queremos três, não queremos nenhum. Eu estou aqui disposta a mostrar comigo, com o meu corpo, com os meus olhos, com tudo. Isto é verdade. Não queiram, não queiram de novo. O fascismo é isto. É verdade que não vêm de botas cardadas, agora vêm de gravata vermelha - quando calha e até calha muitas vezes. Mas eles são iguais, são os mesmos. Inclusivamente, um dos pides que me torturou, Óscar Cardoso, apareceu no dia 28 de fevereiro de 2024, quando fazia 50 anos do 25 de Abril, na capa de uma revista publicada em Portugal e de grande divulgação. Uma revista que aparece praticamente em todos os cafés, em todas as tascas, em todos os sítios, em todo lado. Aparece aos domingos essa revista de jornal Correio da Manhã. Eu olhei porque vinha em grande plano a cara dele, os olhos dele. Perguntaram-lhe em quem tinha votado este pide e ele disse no Chega. Está lá escrito, quem quiser pode consultar. Óscar Cardoso, que teve uma pensão vitalícia atribuída a 1992, quantos anos depois do 25 de Abril e da Constituição - não é preciso dizer quem era o primeiro-ministro que assinou o despacho porque as pessoas sabem fazer contas. 
Há de facto branqueamento e esquecimento propositado que nos quer mandar para trás. O objetivo é mandar-nos para o silêncio, para o peso, para a tortura, para a opressão. E isso é que nós não podemos nunca consentir. 

Lembra-se do dia em que saiu a primeira vez da cadeia?
Lembro-me. Quando me disseram que eu saía, agarrei nos sacos, separei os blocos castelo e escondi-os, a ver se eles não os viam. À saída, queriam que eu assinasse que me davam as coisas. Eu nunca soube o que é que eles poderiam fazer com a minha assinatura e por isso não assinei. Eles tinham de me dar na mesma e tinham de me libertar, porque faziam três meses que eu tinha sido presa. O tempo máximo da prisão preventiva. Ou tinham alguma coisa para me levar a julgamento, mesmo ao tribunal plenário - e não tinham-, ou tinham de me libertar. Foi o caso, eles sabiam e eu também. Sabia que eles tinham de me soltar e tinham de me dar os sacos, por isso não assinei. Há uma guarita, ainda lá está, onde estava a guarda da GNR e eu pousei os sacos e disse: “Olha, isto está aqui, é meu, fica à sua guarda.” Ouvia uns sons sempre, sabia que havia pessoas num bairro ou qualquer coisa parecida lá naquela direção das celas onde eu ficava. Então fui para lá. Tinha tido visita da família, mas eles primeiro deixaram ir a família embora. A família tinha-me trazido roupa lavada e coisas para eu comer. Fui lá à procura daquele sítio onde tinha ouvido as vozes, havia uma taberna. Entrei, disse à senhora o que tinha acontecido, de onde vinha, e se ela me deixava fazer um telefonema porque eu não tinha dinheiro. Ela chamou o táxi e deu-me um cafezinho. Veio o táxi e eu disse ao senhor que não tinha dinheiro para lhe pagar, logo lhe pagava no destino. Falei tanto desde Caxias até Vale Flores, que fica no Feijó. Falei o tempo todo. Tudo aquilo que não tinha falado antes, porque quando não estava na tortura, estava em isolamento. Contei tudo ao senhor, não sei se lhe serviu de alguma coisa, mas ele ouviu. Quando cheguei os meus tios, que eram quem tinha ido à visita, ainda não tinham chegado a casa. Foi a vizinha Joana que pagou o táxi. Os meus tios chegaram depois. Vim para Lisboa, para a faculdade. Até fui primeiro a Económicas. Estava uma rapariga que me perguntou: "Tu és a Aurora?" Eu disse: "Sim". Somos amigas até hoje. É a Maria João Cascais, a Jajão. Depois fui à Cidade Universitária e estava o Adalberto, que infelizmente já faleceu, deu-me um abraço que me pôs no ar. Eu sentia-me tão bem, mas não me conseguia calar. Eu falava, falava, falava, falava… Não sei se é euforia, se é alívio, se é alegria. Foi a reação que tive, foi falar. 
Depois estive calada durante muito tempo. Até que senti a necessidade de falar outra vez. Foi por conselho médico, porque tive aquilo que se chama o stress pós-traumático ao fim de muito tempo. O doutor Afonso de Albuquerque, era psiquiatra, e foi ele que disse: "Você tem de falar. Tem contado isso como se estivesse a contar um filme que tivesse visto. Meta-se lá dentro do filme.” Foi comigo a Caxias, a diretora de Caxias que na altura ainda funcionava consentiu. Nunca imaginei que ia beber um chá com bolinhos em Caxias, mas ela ofereceu. Fui a Caxias e, de facto, foi bom para me curar. Penso que já não estou com os sintomas do stress pós-traumático. Curiosamente via sempre uma mulher de branco. A nossa mente é uma coisa muito curiosa. Não tenho consciência de ter visto a mulher de branco, mas quando o médico me deu a injeção, ele ia certamente com a enfermeira, que ficou no meu subconsciente. Não tinha consciência de a ter visto, mas aparecia no pouco tempo em que dormia e depois tinha flashes. Via a mulher de branco que abria e fechava as celas.

Lembra-se onde estava no 25 de abril de 1974? 
Lembro-me perfeitamente. Aliás, quase que em direto assisti ao 25 de Abril. É pouco antes do Primeiro de Maio e eu estava a fazer a imprimir comunicados para o 1.º de maio. Estava em Vale de Milhaços, num sótão com uma policopiadora elétrica a passar os comunicados. A policopiadora avariou e os comunicados quase que saíam um a um. Aquilo era: a gente metia o estêncil na policopiadora e depois ia passando os comunicados. Quando a eletricidade funcionava, era rápido. Quando não era, a gente tinha de dar à manivela e saía um. Eu tinha uma hora marcada para ir entregar os comunicados a um camarada no dia seguinte. Como a máquina tinha avariado, não tinha forma de arranjar, tinha de fazer os comunicados da mesma maneira e não me podia deitar. Como era um sótão que tinha uma janela que dava para a rua, as pessoas podiam, mesmo sendo à manivela, ouvir o som. Então ia fazendo os comunicados com a rádio ligada e ouvi tudo. Tanto que ao princípio, quando deu o Grândola, já tinha percebido que havia qualquer coisa. Depois repetiu e eu disse: "É bom". Diziam: “Daqui posto de Comando do Movimento das Forças Armadas. Mantenham-se em casa." O primeiro autocarro que saía era às seis da manhã. Foi esse que eu apanhei. Fui de Vale de Milhaços para Cacilhas, ainda havia barcos. Apanhei e vim para o Terreiro do Paço. Depois juntei-me às pessoas. Quando elas andaram, eu também andei. Mesmo sem saber para onde ia, fui para o Quartel do Carmo. 

Voltou a ser presa depois do 25 de Abril. 
Voltei e essa parte ofendeu-me muito. Só há muito pouco tempo é que vagamente tive uma ideia da razão, mas também não consegui entender. 
O antigo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, deixou consultar a quem que estivesse interessado o Relatório das Sevícias, que foi feito sobre as prisões dessa altura. Eu tive acesso e continuo a não perceber, porque foram quatrocentas e trinta pessoas. O que lá se diz é que teria havido uma reunião dos militantes do MRPP com o Secretário-Geral do MRPP, que era o Arnaldo Matos. Teria havido uma reunião no Ralis - acho que não havia partido nenhum que não tivesse militares no Ralis, todos tinham com certeza - e no meio dessa reunião, que não está escrito em lado nenhum, teria havido apelo ao derrube do Movimento das Forças Armadas. Não soube de tal reunião, não fui vista nem achada em tal coisa, eu e as outras quatrocentas e trinta pessoas que fomos todos presos numa noite. 
Quase que tive sorte, mas não tive. Já tinha saído na Sede Álvares Cabral, que era a principal do MRPP, aquela rua que sobe para a Basílica da Estrela. Estava a subir a rua e vejo parar uma berliet. Descerem soldados de metralhadora em punho, mas eu já estava na rua. O meu azar foi que estava com o Arnaldo Matos: a mim não me conheciam, mas conheciam-no a ele. Tinham uns papéis na pasta que trazia comigo e ainda tive tempo de a atirar para uns terrenos, ali onde era um cinema e havia uns quintais. Quando me prenderam, já não tinha papel nenhum. Depois meteram-nos na berliet, que estava tapada com lona. Dispararam lá dentro a metralhadora. Estávamos sentados em bancos corridos. Ainda tinha bons dentes na altura, iam passando cartas de condução, bilhetes de identidade e eu ia mordendo e destruindo, porque nós não nos íamos identificar. Decidimos, na altura, que não nos identificavam. Ninguém tinha de nos prender, tinham de nos soltar. Nós não víamos nada, levaram-nos a um sítio onde havia muita gente - devia ser uma manifestação, mas não sei qual - que batiam com ferros e paus nas lonas connosco lá dentro.
Despejaram-nos em Caxias, onde já tinha estado. À entrada, um guarda prisional diz: "Esta já eu conheço.” Separaram os homens das mulheres. Às mulheres levaram-nos para uma cela dos subterrâneos: com agulhetas de bombeiro mandaram-nos água para cima com jatos fortes. Eu que sou baixa, a água chegou-me às canelas. Ficámos lá dentro todas molhadas. Atiraram uns colchões, não nos deram de comer. As casas de banho entupiram - eram daquelas turcas, que não têm sanita, têm um buraco. Estivemos ainda lá algum tempo. Aquilo estava entregue à Marinha, eram os fuzileiros. Eu sei de muitos fuzileiros que foram dali diretos às sedes do MRPP inscrever-se. Aquilo era uma coisa tão clamorosa, tão violenta, sem qualquer justificação. Havia crianças, porque como estavam com os pais, também foram presas. Os homens entraram para outra dependência dos subterrâneos e mandaram-lhes gás lacrimogéneo. 
Só mais tarde é que nos levaram para as celas do piso de cima. A mim, isolaram-me, o que foi uma coisa extremamente complicada porque as portas estavam abertas e estava sozinha, mas entravam a qualquer momento.
Não podia tomar banho, porque não me podia despir. Estive um mês sem mudar de roupa. Olhando para uma mulher, nós percebemos muito facilmente que há aqui uma complicação: as mulheres são menstruadas. Aquilo que os pides já tinham utilizado quando fui presa antes do 25 de Abril, estes utilizaram também depois. A menstruação obriga-nos a limpar, obriga-nos a mudar de roupa e nós estivemos sem roupa para mudar. Sem visitas, sem roupa para mudar, sem nada. A qualquer momento abriam as celas, entravam por lá dentro e eu estava sozinha. A muito medo despia as calças, lavava as cuecas sem sabão e depois revestias outra vez. Foi isto que aconteceu e que se passou.
Também nos tiraram os sapatos. Há aqui uma parte muito curiosa. As pessoas que eram obrigadas a fazer não concordavam. Eram ordens que estavam a ser entregues à marinha. O comandante mandou-me descalçar, mandou-me tirar as botas e eu não me mexi. Estava com ele um fuzileiro, ele mandou descalçar-me e ele não se mexeu. O comandante deu-lhe uma bofetada, correram as lágrimas do rapaz, mas não se mexeu. Quem me descalçou foi o comandante. Quando me quiseram libertar, já estava identificada e não queria sair a não ser que saíssemos todos. Já tínhamos feito a greve da fome e eles queriam-se livrar daquilo. Foi lá uma Comissão de Direitos Humanos e eles queriam pôr-nos na rua, mas nós não queríamos sair se não saíssemos todos. Levaram-me até lá abaixo, estava um monte de sapatos e disseram para eu ver quais eram os meus sapatos. Eu não disse, não indiquei. Disse que não saía se não saíssemos todos. Agarraram em mim, meteram-me num jipe descalça e largaram-me na mata de Algés descalça. Aproximei-me da estrada e apanhei um táxi que estava a passar. Fui até à sede, descalça, e foi lá que me deram uns sapatos.
Foi violento e não percebo porquê. Não percebo. Nem sei quem foi, mas tenho muitas dúvidas…. Aquilo foi a COPCON, que era comandado pelo Otelo Saraiva de Carvalho, mas eu tenho dúvidas que Otelo Saraiva de Carvalho tenha feito isso por iniciativa própria.

O que a levou a deixar o partido MRPP em 1977? 
Essa parte é complicada. Gostava muito de ser e de ter continuado a ser revolucionária, mas também tem muito que ver com a nossa maneira de ser e a nossa rebeldia. Para mim nunca fez sentido que dissessem o que devia pensar. Sempre tive uma forma de pensar muito livre e muito própria. O centralismo nunca fez muito sentido. Ser alguém ou serem dirigentes a mandar no meu pensamento. Aquilo que menos pesou quando estive presa e me levou a resistir foi a minha dignidade, foi o meu amor-próprio, os meus valores. Não foi nenhum partido. 
Depois do 25 de Abril, a partir de certa altura, deixou de fazer sentido pertencer a um partido. Fez antes do 25 de Abril, porque se as pessoas não se organizassem não podiam resistir. Era preciso organizarem-se. Depois deixou de fazer. Houve uma altura em que o partido a que pertencia foi caluniado, foi aviltado, disseram coisas horríveis do MRPP e eu sabia que era mentira. Foi por isso que eu não saí, porque o partido estava a ser difamado, a ser perseguido e eu não iria embora naquela altura. Quando as coisas acalmaram, já tinha sido o 25 de novembro, Ramalho Eanes já tinha sido eleito - inclusivamente, eu apoiei-o. Não por o MRPP tomar uma posição de apoiar Ramalho Eanes que eu saí. Não tem nada a ver com a ideologia do MRPP. Tem a ver comigo. Deixou de fazer sentido. Estava tudo calmo e eu ia à minha vida. Continuei a ser exatamente a mesma pessoa, na medida do possível, mas sem partido. Não divergi, não me opus, não tenho qualquer má vontade contra a organização. Eles não precisavam de mim e eu não precisava deles. Tinha uma vida para viver, tinha coisas para fazer. 

Tornou-se magistrada por todo o tempo que passou na prisão de Caxias? 
Não. O eu ser magistrada não tem rigorosamente nada a ver com o meu sentido de justiça. A justiça para mim é a justiça justa de que falava o Jorge Sena. Não é a justiça que se consegue fazer nos tribunais. Eu não sou tontinha. Eu sei que nós vivemos numa sociedade de classes. Sei que perante os tribunais e a justiça que neles é feita as pessoas não são todas iguais. Há os que têm poder e os que não têm. Os que têm poder usam. Usam-no designadamente para ter poder. Fazer com que os processos prescrevam e têm formas de se defender que quem não tem poder e dinheiro não pode - não consegue defender-se da mesma forma.
Vemos a questão das mulheres, que não são tratadas nos tribunais exatamente da mesma forma que são os homens, incluindo os crimes em que são as vítimas. Mesmo quando são vítimas, as mulheres têm de provar que não são culpadas. Ainda é assim. A justiça não está em uma perspetiva de género. Quem aplica a justiça não é capaz de se colocar ou não é formado para se colocar no lugar do outro, no lugar da vítima e também do arguido - porque há arguidos e arguidos, há crimes e crimes. Há diferenças, nem todas as coisas são iguais. 
Não tenho o espírito justiceiro nem justicialista. Acho que cada pessoa deve responder apenas por aquilo que fez. Não há penas exemplares, nem castigos exemplares. Ninguém tem de ser exemplo para ninguém, que é uma coisa que me causa uma certa confusão. Exerci sem nunca violentar a minha consciência. Exerci as minhas funções, respeitando a dignidade dos outros e a minha própria dignidade. Desde o início, quando entrei, foi esse o meu compromisso comigo, se me obrigassem a fazer uma coisa que eu não queria fazer e se não fosse respeitada a minha objeção de consciência, eu saía. Nunca fiz nada, nem nunca me obrigaram a fazer alguma coisa, que violentasse a minha consciência. Mas eu não achei que estava a fazer a justiça com que continuo a sonhar. 
A justiça, como eu a sonho, é uma utopia. Eu ainda acredito na utopia. Um dia acontecerá. Eu não estarei viva, mas alguém estará.

Esta entrevista faz parte do Podcast 'Revolucionárias' que pode ouvir no site da rádio, no Rayo ou nas plataformas de podcast.