"Detenção de Maduro expõe nova doutrina de poder dos Estados Unidos", alerta Rui Henrique Santos
A detenção do presidente venezuelano Nicolás Maduro marca uma viragem profunda na ordem internacional e confirma uma estratégia explícita de domínio regional por parte dos Estados Unidos, defende o especialista em política internacional Rui Henrique Santos.
O especialista em política internacional Rui Henrique Santos, acredita que a atuação da administração de Donald Trump na Venezuela não pode ser vista como um caso isolado, mas como parte de uma visão estratégica mais ampla, centrada no controlo do hemisfério ocidental. “Os Estados Unidos não vão aceitar qualquer tipo de rivalidade, seja ela real ou inventada, naquela região”, afirma. Rui Henrique Santos sublinha que, para Washington, a América Latina continua a ser encarada como uma área de influência direta. Qualquer ameaça , seja militar, energética ou diplomática, é tratada como um risco à segurança norte-americana. “Qualquer ameaça que exista terá o mesmo fim que a Venezuela teve”, alerta.
Contrariando a ideia de que a intervenção se justifica pela natureza ditatorial do regime venezuelano, o comentador defende que a democracia deixou de ser um critério relevante para os Estados Unidos. “O regime não está em causa. Donald Trump não tem qualquer obstáculo em colaborar com uma ditadura, desde que a componente económica seja liderada por investimentos norte-americanos”, afirma Rui Henrique Santos. Na sua análise, o verdadeiro objetivo passa por travar a presença de potências rivais como a China, a Rússia e o Irão e, em simultâneo, garantir acesso privilegiado aos vastos recursos energéticos e minerais da região. “Os Estados Unidos querem explorar, investir e, se for necessário, utilizar esses recursos”. Questionado sobre a possibilidade de intervenções noutros países, como a Colômbia, Rui Henrique Santos considera o cenário plausível, apesar de se tratar de uma democracia reconhecida internacionalmente. “A justificação será sempre a mesma: segurança, drogas, imigração. A democracia é hoje um detalhe secundário”. A mesma lógica, acrescenta, aplica-se à Gronelândia, onde vê uma possível intervenção como “claramente iminente”.
Quanto à reação europeia, o comentador antecipa uma resposta tímida. “A Europa fará uma condenação muito suave, quase simbólica, para não assustar Donald Trump”, prevê, lembrando que o continente continua dependente dos Estados Unidos em matéria de segurança. “Essa dependência pode prolongar-se entre cinco a quinze anos.”
Sobre as audiências judiciais de Nicolás Maduro e da mulher nos Estados Unidos, Rui Henrique Santos considera que o processo será sobretudo formal. “Não se vai discutir a forma como foi detido o chefe de um Estado soberano, mas apenas as acusações que existem”, afirma, comparando o caso ao de Manuel Noriega, antigo Presidente e ditador do Panamá. Mais grave, sustenta, é a mensagem política transmitida. “É quase surreal ouvir o líder do mundo livre dizer que, depois de deter o chefe de um país soberano, passa a governar esse Estado.”
Para o comentador Rui Henrique Santos, Donald Trump assume-se agora como o “polícia do mundo”, numa ordem internacional já marcada pela ausência de regras. “Nem a Rússia nem a China têm, neste momento, a capacidade de projetar poder global como os Estados Unidos”. No entanto, Rui Henrique Santos alerta para os riscos desta abordagem. “Isto pode abrir a porta para que outros líderes usem a mesma lógica, tornando o sistema internacional ainda mais instável”, diz, embora considere improvável que Washington permita avanços significativos de Moscovo ou Pequim nas suas áreas sensíveis, como a Europa ou Taiwan.
Quanto ao futuro venezuelano, o comentador é pessimista. “A Venezuela funciona como um cartel, com dependências económicas, políticas, militares e até de narcoterrorismo”, explica. Na sua perspetiva, a queda de Maduro não significa uma transição democrática. “Donald Trump retirou apenas a cabeça do monstro. O monstro continua lá”. E deixa um alerta: “O dia de amanhã, para a Venezuela, dificilmente será melhor do que era com Maduro no Palácio de Miraflores.”
