Dez canções em defesa dos indígenas
Hoje é o Dia Internacional dos Povos Indígenas do Mundo.
As Nações Unidas estabeleceram 9 de agosto como o Dia Internacional dos Povos Indígenas do Mundo. Antes desta proclamação oficial em 1994, já o mundo da música cantava em defesa dos povos autóctones que foram invadidos pelos colonos.
370 milhões de indígenas espalham-se pelos cinco continentes do mundo. Selecionamos dez temas de defesa de nativos americanos, africanos e asiáticos.
Bob Marley - 'Africa Unite' (de 1979)
É uma das grandes canções anti-imperialistas do rei do reggae, publicada no seu álbum mais político, "Survival". Bob Marley olha para a sua terra prometida, África, continente etnologicamente dilacerado por séculos de escravatura e fragmentado por um mapa cor-de-rosa de colónias desenhado ao gosto das metrópoles europeias. 'Africa Unite' é o sonho de Marley de ver todos os africanos novamente unidos na sua terra, saídos da Babilónia
Neil Young - 'Pocahontas' (de 1979)
Em modo folk, Neil Young canta sobre a crueldade da ocidentalização à força da rapariga índia Pocahontas pelos colonos ingleses no século XVII. Toda a música é uma empatia para com a cultura índia, onde canta sobre as tendas cónicas dos nativos americanos, os seus tapetes e até o mítico cachimbo. No final, imagina Marlon Brando [que recusou o Óscar de Melhor Ator Principal em 1973, tendo sido representando por uma índia] a juntar-se à fogueira com ele... e Pocahontas, tal como ela era, antes da invasão colonizadora.
Vitorino - 'Queda do Império' (de 1983)
Parece uma canção contemplativa de navegadores, mas a "pata de negreiro" que Vitorino canta e que repete leva-nos para os porões das naus, onde os escravos eram despejados e aprisionados.
Björk - 'Declare Independence' (de 2008)
Os inuits são o povo nativo da Gronelândia, um território pertencente ao reino da Dinamarca. É a pensar neles e também nas Ilhas Feroe (arquipélago também sob admnistração dinamarquesa) que Björk (vinda de um país como a Islândia, que foi igualmente posse dinamarquesa) escreveu o tema 'Declare Independence'. O tema foi sendo adaptado pela cantora nórdica a outras situações em que a autodeterminação das nações esteve em causa. Björk não teve problemas nenhuns em cantar Declare Independence no festival dinamarquês Roskilde, junto ao coração da metrópole, em defesa da independência da Gronelândia e das Ilhas Feroe, com as bandeiras de ambas as nações a serem içadas.
Caetano Veloso - 'Um Índio' (de 1977)
A líndissima ode ao índio da América do Sul composta por Caetano Veloso ficaria mesmo ao jeito de uma adaptação carismática por Ney Matogrosso, inspiradíssimo na cultura indígena da Amazónia.
Beastie Boys - 'Bodhisattva Vow' (de 1994)
Este tema, imbuído de espiritualidade budista, é o pináculo da causa do MC Adam Yauch (1964-2012) pela libertação do Tibete e pela sua independência da China. Ao contrário do que era habitual nos Beasties, esta música está mais personalizada num só dos três MCs, Adam Yauch ele mesmo.
Dino D’ Santiago - 'Africa Di Nós' (de 2018)
O espírito de mensagem, focada na mãe África, tem consanguinidade com o tema de Bob Marley, 'Africa Unite', mas Dino D' Santiago vai um pouco mais longe e canta Africa Di Nós na linguagem dos nativos.
Violeta Parra - 'Arauco Tiene Una Pena' (de 1962)
O lamento da cantautora chilena aos maus tratos aos índios neste fortíssimo tema é transversal, desde os colonizadores espanhóis ao próprio Chile tal e qual como o conhecemos. Há versos monstruosos neste tema de Violeta Parra (1917-1967), que são uma lição de história: os conquistadores "buscam montanhas de ouro que o índio nunca procurou/ao índio basta o ouro que reluz do sol".
Cesária Évora - 'África Nossa' (de 2006)
Este tema da "diva dos pés descalços" é outro incentivo à união dos africanos. E Cesária Évora dá o exemplo, convocando para o tema o cantor senegalês e irmão africano Ismaël Lô.
Legião Urbana – 'Índios' (de 1986)
Para o vocalista Renato Russo, a utopia do mundo é a inocência dos índios. A letra tem rampa metafórica para descolar para as meras relações interpessoais de hoje. Mas quando Russo pensa na necessidade de um mundo mais belo, é aos índios que volta, de quem sente saudades do que ainda não viu. A invasão portuguesa ao Brasil foi a vinda do mundo injusto onde Renato Russo viveu. Tal como cantou e tão bem escreveu: "Quem me dera, ao menos uma vez, que o mais simples fosse visto como o mais importante/Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente".
