Dez canções sobre o fim do mundo

José Cid, Lena D'Água, Elis Regina e, claro, os R.E.M. cantaram sobre o fim disto tudo, em modo poético, em jeito de aviso ou em sentido figurado.

A ciência avisa, a ficção prenuncia. Na música, o cataclismo apocalíptico já assombrou sobre algumas canções, sejam pandemias, o perigo da guerra nuclear ou a mudança de milénio. 
 
Nesta época de interrupção da vida normal, em que as ruas vazias dão um cenário sci-fi que estranhamos viver, picamos dez canções ao arquivo que estão perturbadoramente atuais... Sim, sim, está lá aquela dos R.E.M. 
 
R.E.M. - 'It's the End of the World As We Know It' (1987)
Sempre que o medo do fim do mundo aperta, esta canção escala pelos tops. O título desta música é assustadoramente verdadeiro para a época que estamos a viver. Mas nem assim a canção deixa de ser humorada. Graças à intemporalidade desta música, Michael Stipe voltou a ser uma autoridade moral, nos conselhos à população sobre os cuidados a ter com esta pandemia do covid-19.

 


 
José Cid - '10 000 Anos entre Vénus e Jupiter' (1978)
Aquele que é talvez o grande álbum do rock progressivo em Portugal, "10 000 Anos entre Vénus e Jupiter" de José Cid, é uma obra conceitual que gira à volta do fim do mundo. O homem das teclas José Cid é o comandante de uma nave espacial, com um tripulação de luxo, com Zé Nabo no baixo, Mike Sargeant na guitarra e Ramon Galarza na bateria. O final não é o fim mas o renascimento do nosso planeta, nesta saga inter-planetária que é um poema em sete faixas.

 


 
Orchestral Manoeuvres in the Dark - 'Enola Gay' (1980)
Volta e meia, esta célebre dupla de synth-pop recorria à história. Perante o crescimento de um perigo de conflito nuclear durante a Guerra Fria entre as superpotências dos Estados Unidos e da União Soviética, o baixista Andy McCluskey relembrou o avião que lançou a bomba atómica que rebentou com Hiroshima em 1945, batizado de Enola Gay. A ironia de McCluskey é o grito de consciência moral. Mas a música é tão empolgante e festiva que nos esquecemos que se trata de um alerta de fim de mundo. 

 


 
Lena D'Água & A Banda Atlântida - 'Nuclear Não, Obrigado' (1982)
Também em Lisboa não se ficava indiferente à escalada nuclear dos anos 80. Aqui o “papão mau” não é um vírus invisível mas sim o iminente “pesadelo nuclear”. Neste tema de rock de intervenção, Lena D'Água já fazia o apelo pelas energias renováveis, usando um lema que ficava na cabeça: "antes ser activo hoje do que radioactivo amanhã". 

 


 
Kate Bush - 'Breathing' (1980)
Já bem exercitada nas fantasias de terror, Kate Bush levou a sua criatividade para uma dimensão dramática ainda maior, quando imaginou nesta canção um feto que se recusa a sair da barriga da mãe num mundo apocalíptico e nuclear. Para sobreviver, o feto não queria nascer. 

 


 
U2 - 'Until The End Of The World' (1991)
Numa sala escura, a tertúlia de amigos está bem alegre, com muita comida e vinho. Mas a mulher que lhe prende os olhos está com uma disposição diferente: falando e agindo como se estivesse a acontecer o fim do mundo. Bono imagina uma memória de uma amada perdida. O fim do mundo é a figura de estilo para o fim do sonho romântico. Esta canção é um dos pontos altos da comédia futurista que é o álbum "Achtung Baby!" e foi dada à banda sonora do filme de Wim Wenders do mesmo ano e com o exacto nome, "Until The End Of The World", sobre o abismo do fim de milénio.

 


  
Elis Regina - 'A Dama do Apocalipse'
O fim do mundo é aqui também uma metáfora de um grande desgosto amoroso, tão forte que é uma vacina para coisas não tão más para a personagem da canção como as “pragas”, ou “os holocaustos”.

 


 
Tricky - 'Overcome' (1995)
A contagem para o final do século e do milénio que se foi fazendo sentir nos anos 90, com aquela carga de superstição de fim de mundo, teve como banda sonora apocalíptica o trip-hop. Um dos seus grandes ícones do género de Bristol foi Tricky, que se lembrou de definir a sua música como "Pre-Millennium Tension", o nome do seu segundo álbum, de 1997. Mas foi no seu primeiro longa-duração que ainda estava a quente o impacto da Guerra do Golfo de 1991, em especial na faixa de abertura 'Overcome' - "Duplicate and then you wait/For the next Kuwait" - com todos os sinais sonoros de uma devastação.

 


 
Prince - '1999' (1982)
Em 1982, Prince também imaginou o que seria a última passagem de ano, em 1999, antes do novo milénio. Como se fosse o fim do mundo. Portanto, fê-lo à sua maneira, fazendo uma grande festança! "We could all die any day/But before I'll let that happen/I'll dance my life away". É ir gozando, antes do “judgment day”. 

 


 
Joy Division - 'Atrocity Exhibition' (1980)
Os Joy Division tinham que aparecer, eles que têm sido tão lembrados durante esta quarentena por causa dos títulos das suas músicas, como 'Isolation', 'Incubation', 'Colony' ou 'Transmission' que parecem que fazem parte da mesma cadeia pandémica. Mas a música mais apocalítica da banda de Manchester é 'Atrocity Exhibition'. Só que em vez de olhar para o futuro, como normalmente se fazem nestes casos, o malogrado vocalista Ian Curtis olhou para o passado, desde o circo romano às tragédias de imaginário medieval. A música vive bastantes séculos atrás, num cenário macabro que tresanda a mortos.