Dez discos de 2025 que merecem ser ouvidos

Carminho, Manic Street Preachers, Márcia ou os Maruja na lista de recomendações.

Este não é só mais um balanço musical do ano. Na verdade, este é o balanço mais opinativo e, portanto, o mais subjetivo e rebatível: são dez dos álbuns de 2025 que mais se recomendam. Escolho cinco discos nacionais e cinco discos de fora de Portugal.  

Carminho - "Vou Morrer de Amor ou Resistir"
Carminho volta a agitar o fado em águas trémulas, sem nunca o tirar das raízes. No novo álbum, “Vou Morrer de Amor ou Resistir”, a fadista parece que se decompõe, tal o desafio vocal em alguns momentos, mas sem nunca se desligar da tradição. Na verdade, Carminho abraça a tradição vigorosamente, mas numa roda hexagonal de instrumentação (alguma fora dos meandros do fado), dando-lhe novas vistas, colocando-o diante de um século XXI que já vai muito adiantado. Só com uma grande parelha entre auto-confança e inconformismo, como no fado desestabilizador ‘Balada do País Que Dó’, é que Carminho consegue este nível de canto das letras da Ana Hatherly, em poucas palavras que se repetem e que facilmente se tornam labirínticas, sem se perder no emaranhado. “Vou Morrer de Amor ou Resistir” escreve-se no feminino. Além de Ana Hatherly, também Maria Teresa de Noronha, Beatriz da Conceição, a participante Laurie Anderson e a mãe Teresa Siqueira são inspirações assumidas.

Três Tristes Tigres - "Arca"
Os Três Tristes Tigres desamarraram a barca e o seu espírito ativista para “Arca”, sobre as tormentas dos miseráveis que fogem da fome, no Mediterrâneo, no Atlântico – quem sabe na selva de Darién (se forem latino-americanos, o fatalismo é o mesmo) -, num musical abroad way e a fundo, e não da Broadway. “Somos a ruga no mapa, o vento fora do rumo”, canta Ana Deus em ‘Exodus’, num disco de navegação musical pela ‘Rota da Sede’, tema em que palavras destas ecoam: “ao mar, ao sol, ao vento, à vez, mas sobretudo ao relento”. O ativismo dos Três Tristes Tigres está mais evidente do que nunca, clamando-se pela paz em ‘Guerra’ - “Aos crimes chamam bravura”, lamenta a cantora Ana Deus – e pela ecologia em ‘Animália’ – “Não há bicho ou vegetal que a nafta não mate”. Desamarrado o ativismo, a música dos Três Tristes Tigres volta a desarmar almas e ouvidos. Às letras interventivas de Regina Guimarães e às maravilhosas maneiras como as mesmas são cantadas por Ana Deus, há ainda um trabalho tremendo de sonoplastia de Alexandre Soares, que ergue um cenário de fundo com muitos efeitos sonoros à volta das próprias canções, além, claro, de toda a arquitetura musical. 

Tó Trips & Fake Latinos – "Dissidente"
Por mais paredes que derrube, por mais que Paredes inspire, o rock & roll faz parte da espinha dorsal de Tó Trips. Quando tento escrever rock & roll, não carrego suficientemente na tecla da seta para cima, falho a grafia do & e escrevo acidentalmente rock 6 roll. Não dou pela gralha. Quando volto ao escrevinhado, achei piada ao “rock 6 roll” e deixei o algarismo estar tal como está, porque faz sentido no caso de Tó Trips. Seis são as cordas do seu querido instrumento, 66 é a estrada mítica que decide atravessar musicalmente na companhia dos Fake Latinos e do fantasma de ‘Kerouac’, entre ‘LA Chet’ e a ‘East Village’, na segunda metade do álbum “Dissidente”. Filho de modista, Tó Trips passa as medidas à guitarra e desmede-as para o mundo. É Trips à sua moda, em “Dissidente”, com evocações do além, de Lisboa a Cabo Verde, de Lisboa a Havana, de Lisboa a Nova Iorque e à Califórnia, de Lisboa a Buenos Aires e Montevideu. Sempre Lisboa. Ou a sua Margem Sul, com o mar a sul. E a oeste. Sempre o oeste. Dizem que o seis é o número da harmonia. Mas é também a quatro que Tó Trips encontra a sua harmonia, seja nos Club Makumba, ou agora também na companhia dos Fake Latinos. Quatro é o número de estações do ano e das fases da lua. E é em todos estes estados que está “Dissidente”, ora contemplativo, ora endiabrado, com o jazz a abanar também o chão. Tó Trips já leva quase quarenta anos disto. Espécie de shoegazer latino, homem cabisbaixo que largou o chapéu de cartola, Trips não parece procurar um destino mas sim o próximo caminho, e depois o próximo. ‘End of an Endless Road’ é a faixa final de “Dissidente”, a faixa que deixa em aberto as próximas faixas de rodagem e mais deixas para filmes imaginários que ainda não existem. Tó Trips não é só um viajante musical. É um artesão que não tem parado de aprimorar a sua técnica. Outrora uma figura icónica do rock underground português, Tó Trips vai imprimindo as suas passadas de inquietação com uma capacidade de evocação de mistérios, numa caminhada que já toma o mundo inteiro. Tó Trips acabou de fazer o seu melhor álbum. O segundo melhor a seguir ao próximo.

Márcia - "Ana Márcia"
Márcia volta ao aconchego da intimidade, onde as canções se confortam como se fossem suas filhas, no seu álbum mais confessional de todos “Ana Márcia”. Márcia bate o seu recorde pessoal de recordações pessoais, assumindo o nome próprio escondido e abrindo-nos o seu álbum de família no livrete do disco, com fotos suas em pequenina rechonchuda, com os irmãos e pais ou com os seus filhos. “Ana Márcia” é um road movie auto-biográfico, uma circum-viagem que termina no ponto de partida, na infância do lar, mesmo que com outra idade. O tempo passou, os erros foram lições que se aprenderam. Nessa viagem pela estrada fora, Márcia dá boleia a convidados, como o sábio Sérgio Godinho e a amiga Catarina Salinas, e passa o volante para Jorge Palma para ‘Um Passo ao Lado’. As voltas de “Ana Márcia” podem ser no planeta, no globo luminoso de casa, nas ruas perpendiculares da Avenida de Roma ou, tão só, no universo de Márcia. 

Cais Sodré Funk Connection - "Um Quarto Na Rua Cor De Rosa"
Este disco marca a conversão dos Cais Sodré Funk Connection à língua portuguesa, com a mão decisiva do novo vocalista NBC, que é o novo par masculino de Tamin. Esta prova viva de soul e funk à portuguesa na língua nossa faz de “Um Quarto na Rua Cor de Rosa” uma obra revigorante, que marca o ano musical em Portugal. O motor instrumental dos Cais Sodré Funk Connection é o mesmo. Mas a revisão deu-lhe um outro oleamento.

Automatic - "Is It Now?"
O trio feminino Automatic vive em Los Angeles, ou Hell Angeles, no olho do furacão dos constantes incêndios que afetam cada vez mais a grande cidade do sonho americano. O apocalipse climático faz-se sentir nas letras ativistas das Automatic, que flamejam pós-punk com sintetizadores glaciares e um ritmo contagiante, numa agitação feminina a lembrar as saudosas e efémeras Friends. Também há feminismo, nas farpas contra o rapper Playboi Carti. Mas, acima, sobrepõe-se um punhado de 11 grandes canções, sem tempos moles.

Clipse - "Let God Sort Em Out"
Tal como as Automatic, também os Clipse criticam a ganância destes dias, mesmo que sem o foco no ecologismo. Os grandes regressos só se fazem com grandes álbuns, é o que fez a dupla de hip hop de Malice e de Pusha T, no seu primeiro álbum em 16 anos, depois de um longo período de separação. Impressiona neste disco a flexibilidade com que acamam os vários convidados, tão diferentes como John Legend, Kendrick Lamar ou Tyler, The Creator. A intensidade do disco não está só no flow dos MCs. 

Manic Street Preachers - "Critical Thinking"
Este é um belíssimo de álbum sobre envelhecimento e a passagem do tempo, como um dia a desvanecer-se. Mas o conformismo do trio galês é só poético. Musicalmente, a banda preserva a sua resistência criativa, ora quase resvalando para o punk, ora mergulhado em profundas baladas, ora deixando-se enfeitar pelos efeitos da eletrónica. A ajudar a esta curiosa juventude musical está o abate aos velhos métodos. As letras são cada vez menos uma coutada do baixista Nicky Wire; e o guitarrista James Dean Bradfield tem cada vez menos o exclusivo vocal. Nicky Wire refinou o modo muito particular de diseur e de cantor; Bradfield está a dominar a complexidade da intimidade da alma na escrita. Quem ganha é a banda. O tempo passa, a glória e o dia desvanecem-se, mas os Manics continuam a fazer belíssimos discos, pouco importa se entram nos compêndios da história ou não. 

Marie Davidson - "City of Clowns"
É o sexto álbum da artista eletrónica canadiana, um fortíssimo manifesto sobre a distopia em que já vivemos, de ditadura tecnocrática e de vigilância total. Marie Davidson retrata uma sociedade muito individualista mas sem qualquer liberdade individual. Claro que a forma como o faz é muito musical, divertida e, por vezes, muito sensual. Marie Davidson foca-se muito no submundo do sexo, personificando uma prostituta, mas sem se vergar à clientela yuppie e masculina. É ela que exerce o domínio. Sejamos sinceros, o álbum é todo um domínio. 

Maruja - "Pain to Power"
Do que se fala aqui é de uma tareia, punk com jazz bem embrenhado. Se a teoria soa bem, a prática é ainda melhor. Quanto aos superlativos, pedem raridade. Só os usamos de vez em quando, como neste disco. Então, cá vai: é um dos melhores álbuns rock do ano e um dos melhores discos de estreia desta década. Vêm de Manchester, uma cidade cuja música se alimenta da ressaca da working class. São oito músicas, não têm mais. Umas faixas têm três minutos, outras dez. É conforme. É disforme. É bom. O guitarrista Harry Wilkinson é o vociferador punk. Ao lado, tem o saxofone de Joe Carroll. Estão juntos nestas disformidades tão musicais. Primeiro bate-se, depois descomprime-se, e a fúria descansa. Depois Harry Wilkinson reganha fôlego e faz aquilo que sabe, deitando tudo cá fora, nas reclamações contras injustiças sociais e a ganância das classes dominantes, que nunca nos rebaixam o suficiente e nos pisam. Pisados ao poder, reclamam os Maruja. Ou “Pain To Power”, como intitulam.