Diogo Piçarra, ao abrigo do amor à música

O músico subiu esta noite ao palco do Capitólio, em Lisboa. Uma sala cheia de amigos que abrigou com as suas canções. Ao palco subiram ainda o cantor espanhol, Antonio José, e a nossa Carolina Deslandes.

 

Diogo Piçarra está de volta aos palcos - com a digressão "Abrigo" - e esta noite foi a vez do Capitólio, em Lisboa, ser o lugar de encontros felizes de bons amigos. O que une o músico algarvio a quem já não passa sem as suas canções é bonito de se ver e consagra com distinção o amor que tantas vezes Diogo Piçarra declara à música. Houve, mais uma vez, uma entrega genuína e mútua no lugar que serviu de refúgio às melodias que todos conheciam e às letras que todos sabiam de cor.

Foi a noite em que o Capitólio deixou de ser uma sala de espetáculos para ser uma sala de estar para receber amigos. Muitos amigos. Todos quiseram aparecer para uma celebração intimista do percurso já tão bem trilhado do músico. É que Diogo Piçarra também sabe receber, tal como sabe dar vida - a sua - às canções.  Afinal, o que fazemos quando recebemos amigos? Contamos novidades, arriscamos piadas, descrevemos um ou outro episódio do nosso dia, trocamos histórias, partilhamos recordações, cantamos juntos e sobretudo damos o que somos. Foi muito isto o que aconteceu na primeira paragem por Lisboa desta digressão que amanhã volta à capital para mais dois concertos, para que ninguém fique de fora.

Minutos antes do músico subir ao palco, foi tempo de tirar as últimas selfies para lembrança futura - como se alguma vez este concerto fosse escapar da memória de quem ali estava. O entusiasmo começava, aos poucos, a ocupar o seu espaço, ajeitavam-se algumas camisolas com a palavra "abrigo" ao peito e eram dados os últimos palpites de um alinhamento possível para uma noite que já se adivinhava memorável. 

Acompanhado pelo músico e amigo, Francisco Aragão, nas teclas, Diogo Piçarra, de peito aberto e com a sua guitarra acústica, começou a sua história com 'Era Uma Vez'. Foi precisamente um dos temas do EP "Abrigo" - que serviu de ponto de partida para esta digressão - que deu as boas vindas a uma noite de cumplicidade e entrega comoventes. Cumplicidade e entrega declaradas, logo a seguir cantou-se, a uma só (bem audível) voz, a canção que dá título ao EP e à digressão e 'Já Não Falamos' do disco "do=s ", de 2017. Diogo Piçarra aproveitou a sintonia e passou a "palavra" cantada à plateia que tão bem honrou o momento, cantando a plenos pulmões o refrão, que apesar de liricamente magoado, arrancou palmas dignas de festa e a promessa de que esta sintonia iria ser assim até ao fim.

Já que falamos em "até ao fim", foi precisamente essa a canção que se ouviu a seguir, uma visita que o músico fez ao universo tão bem medido de Agir, também este seu amigo. Outros universos - tão próximos do seu - mereceram uma visita, mas as surpresas estavam guardadas lá mais para a frente.

Sempre com uma história ou graça para contar, com o Diogo Piçarra facilmente passamos por estados de espírito que contrastam, mas não se anulam. Vamos, com balanço, do riso honesto às lágrimas que, embora envergonhadas, acabam por cair. É que, se há algo que o músico algarvio tem, é o acesso direto às emoções de quem o acompanha. 'Verdadeiro', 'Dois' e, como fez questão de dizer, um regresso às origens na canção 'Breve' foram fazendo as alegrias da plateia tão bem representada por vozes bem afinadas e até atrevidas quando soltavam um "és lindo, Diogo" sempre que havia um espaço de silêncio ou conversa.

Pelos pingos da chuva de tão calorosos elogios, Diogo Piçarra continuou a "narrar" musicalmente a sua história com a beleza e simplicidade das suas canções, ora na guitarra ora ao piano. 'Tu e Eu', 'Volta', 'Mágico' ou 'História' - esta cantada no meio do público - foram sossegando os corações de quem ainda adivinhava o curso do alinhamento, que foi viajando pelos vários momentos discográficos que o músico tem vindo a somar desde 2014, com o lançamento do EP, "Sessions".

A verdade é que nesta história cabem muitos protagonistas e alguns apareceram para partilhar capítulos no palco com Diogo Piçarra. Era então chegada a altura de chamar o cantor espanhol, Antonio José, que não faltou ao encontro para o primeiro dueto da noite. 'A Dónde Vas' foi, claro, a canção que os juntou no Capitólio, depois de a terem partilhado no estúdio. O momento, que arrebatou o público, acabou num abraço e na certeza de que há amizades e empatias para a vida toda.

Quem também sabe o que isso é, de guardar bons sentimentos para a vida toda, é Carolina Deslandes, a grande surpresa da noite, que subiu ao palco para cantar 'Respirar'. Antes do primeiro fôlego, a cantora confessou ter estado num dos primeiros concertos de Diogo Piçarra e partilhou a certeza que teve quando o viu ao vivo pela primeira vez, de que além de um grande músico e compositor, Diogo Piçarra era também um exímio contador de histórias. Hoje, como disse, sabe que é, mais do que tudo, um homem que abriga sobretudo um grande coração. Carolina Deslandes não deixou o palco sem também ser surpreendida com um convite para cantar um pouco do tema que assina, 'A Vida Toda', um momento de ternura e gratidão mútua entre dois nomes que estão a deixar uma marca digna de excelente nota na música que se faz em Portugal. 

A verdade é que, esta noite, todos falaram o 'Dialeto' do músico que veio do Algarve para conquistar sonhos. Diogo Piçarra conquistou bem mais do que isso. Conquistou gente que lhe reconhece a gentileza e a grandeza de saber receber no seu abrigo quem queira entrar.

Para o final, guardou o 'Paraíso' que foi emoldurado por pontos de luz espalhados por toda a sala. Houve aconchego neste abrigo.