Diretores escolares exigem exames sem tecnologia oculta dos alunos

Filinto Lima diz que existem muitos dispositivos "quase impercetíveis", que podem escapar à vigilância humana.

Os diretores escolares pedem novas formas de vigilância dos exames nacionais capazes de detetar as tecnologias mais sofisticadas usadas pelos alunos, mas também mais psicólogos, lembrando que são muito procurados, antes da época das provas.

O presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP) alertou para o facto de os atuais modelos de vigilância dos exames permanecerem praticamente inalterados há décadas, apesar da evolução tecnológica que permite o recurso a dispositivos de difícil deteção.

"Como é que, neste momento, nós vigiamos os alunos na sala de aula, em época de exame? Como no século passado", afirmou Filinto Lima, durante na entrevista para o podcast Lusa Extra, que será divulgado no sábado, defendendo a abertura de um debate entre o Ministério da Educação e as escolas, já no próximo ano letivo.

Os alunos não podem levar telemóveis, relógios inteligentes (smartwatches) ou qualquer outro equipamento de comunicação eletrónica para a sala de exames, mas Filinto Lima lembrou que existem hoje muitos dispositivos "quase impercetíveis" que podem escapar à vigilância humana.

Há brincos com sistemas de comunicação, canetas inteligentes com acesso à inteligência artificial e até óculos inteligentes, “em que os alunos conseguem ler as respostas em relação à questão que estão a desenvolver”, enumerou.

Filinto Lima não tem conhecimento de nenhum caso de fraude com uso de tecnologia nesta 1.ª fase dos exames nacionais do ensino secundário, que começou na terça-feira e termina a 26 de junho. No entanto, lembrou que alguns países já se precaveram e adotaram medidas adicionais de controlo.

Em Espanha, por exemplo, são utilizados detetores à entrada das salas de exame para identificar dispositivos eletrónicos não autorizados, disse o diretor.

"Temos de ter isso em consideração, porque estes alunos que recorrem a esta fraude têm vantagem e isso é injusto", sublinhou, recordando que diferenças mínimas nas classificações podem ser determinantes no acesso ao ensino superior.

Além das preocupações com a equidade das provas, Filinto Lima destacou o aumento dos níveis de ansiedade entre os estudantes nas épocas de exames, defendendo mais uma vez o reforço de recursos humanos especializados.

Os alunos recorrem frequentemente aos psicólogos escolares para aprender técnicas de gestão da ansiedade e da pressão associadas aos exames, mas o dirigente alertou que os profissionais nem sempre conseguem responder a todas as necessidades.

"Às vezes não são suficientes", avisou, defendendo a contratação de mais psicólogos, bem como de educadores sociais, assistentes sociais e outros técnicos especializados.

Segundo Filinto Lima, estes profissionais desempenham um papel importante ao longo de todo o ano letivo, integrando equipas multidisciplinares que colaboram com professores e conselhos de turma na promoção do sucesso escolar.

Este ano, a grande novidade nos exames nacionais é o modelo de correção das provas, que será em formato digital e permitirá que diferentes itens de um mesmo exame sejam avaliados por professores distintos.

Filinto Lima acredita que a medida poderá contribuir para uma maior justiça na classificação das provas e para a redução do número de recursos, embora reconheça que a digitalização de milhões de páginas representa “algum risco”, sendo uma "grande responsabilidade" para o Ministério da Educação.

Serão digitalizadas cerca de 300 mil provas. Os alunos continuam a escrever em papel, mas as suas respostas serão transportadas até às instalações da Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM), onde serão digitalizadas para correção.

A operação de transporte e segurança das provas envolve mais de cinco mil elementos da Polícia de Segurança Pública (PSP) e da Guarda Nacional Republicana (GNR).

No ano passado, foi feito um primeiro teste com o exame de Filosofia: “Cerca de 20 mil provas também foram corrigidas deste formato. A situação foi positiva, correu bem, e o Ministro da Educação resolveu dar um passo de gigante”, disse Filinto Lima.

Neste processo, que envolve cerca de 166 mil alunos do ensino secundário, o diretor saudou também o trabalho dos professores: “Apesar de não estarem obrigados, os nossos professores, sobretudo para aquelas turmas que têm exames (…) disponibilizam-se, durante toda a semana, durante diversas horas por dia, a dar aulas pró-bono, sem serem gratificados, porque querem que os alunos tirem as melhores notas possíveis”.