DocLisboa: de tripés bem assentes na Terra

Festival de cinema documental arranca esta quinta-feira, com muitos zooms e outros ângulos ao nosso planeta de hoje.

A edição deste ano do DocLisboa decorre entre esta quinta-feira e o dia 27, com um programa tão denso, que o confirma como o maior festival de cinema documental.

Na Culturgest, no São Jorge, no Cinema Ideal, na Cinemateca ou na Casa do Mundo, os espectadores vão ter privilegiada para o mundo real, tal e qual ele é, nos quatro cantos do mundo.

Quem melhor que a programadora Cíntia Gil para nos enquadrar melhor sobre os documentários que devemos ver. Tal como nos diz, “o DocLisboa não se dedica a comentar o presente, dedica-se a pensá-lo”. 

Como é que se consegue resumir os pontos altos de uma edição tão densa quanto esta?
São muitos filmes. Temos uma retrospetiva do realizador mexicano Paul Leduc, que tem uma obra extremamente diversificada e na verdade com retratos de artistas, com relação com várias outras formas de arte e que vai ser uma descoberta que nunca foi feita na Europa e que vai ser uma descoberta muito, muito importante por cá. 


Há uma outra retrospectiva que se chama Back to the Future, em homenagem à grande trilogia do "Back to the Future", com Michael J. Fox, que é uma retrospectiva onde há uma espécie de desenho da história do cinema a partir das relações entre o cinema e o modernismo. Começa com o “Homem da Câmara de Filmar”, do Dziga Vertov, que é aquele filme maravilhoso que mais ou menos nos lembramos e vai pela história do cinema, lembrando essas relações entre o cinema e uma ideia modernista do mundo.


Mas depois diria que essas linhas de que eu falava, do que se está a passar, estão muito presentes. Por exemplo, vou dar um exemplo: o DocLisboa vai acontecer a poucos dias das eleições americanas e há um filme que eu acho que é absolutamente recomendável, que é o “Henry Fonda for President”, em que o realizador olha para a figura do Henry Fonda e para os papéis como o Henry Fonda foi fazendo, e pensa a figura do homem bom na política americana. O que é que é este homem bom, este homem que representa o homem comum americano. E que parece que tem assim relação forte com o que se está a passar. 
Há toda a questão dos conflitos na Europa, como na Ucrânia. Há dois filmes muito fortes relacionados com isso, o "Dad’s Lullaby" e o "The Invasion", na [secção] Terra à Lua. E depois há um filme, por exemplo, que também quase que retrata as tensões contemporâneas, que é um filme que se chama "Soldier Monika", que é um filme austríaco, que é o retrato de uma mulher trans, autora apoiada pela extrema direita, pela alt-right. E, portanto, é uma espécie de personagem que encarna todas as contradições do presente, que é extremamente interessante. 

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Nesse sentido, para complementar, diria que há depois outros filmes que por outro lado estão a pensar questões do Medio Oriente. Eu diria que o DocLisboa não se dedica a comentar o presente, dedica-se a pensá-lo. Há um filme chamado “Under a Blue Sun”. O filme agradece à população do Afeganistão, mas nunca lá puseram os pés. O filme foi rodado nos territórios ocupados e palestinos. É um retrato de um homem palestiniano que trabalhou nos efeitos especiais, do "Rambo III". Portanto, é um documentário que sem falar diretamente do que se está a passar hoje em dia, nos dá uma perspetiva surpreendente e nova sobre esta questão deste território e da história dele. Eu diria que se há linha de força que o DocLisboa tem, sempre e mantém, que é esta capacidade de olhar para o presente desde pontos de vista surpreendentes e pontos de vista aos quais não teremos necessariamente acesso no fluir e na vertigem das notícias quotidianas. 

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Também há aqui a marca dos 50 anos da Revolução dos Cravos? Temos o caso do documentário “Sempre”, da Luciana Fina. Há mais exemplos dessa marca dos 50 anos de revolução na programação?
Sim, há um documentário que não é diretamente sobre isso, mas em que se condena absolutamente [o Antigo Regime], que é o filme da Sofia da Palma Rodrigues e do Diogo Cardoso, o “Por Ti, Portugal, Eu Juro!”, que é um filme que vai trabalhar as memórias dos soldados africanos, portanto nas ex-colónias, que lutaram ao lado do exército português, e que foram abandonados e, podemos dizer, traídos pelo Estado português no final. É um filme muito contundente, cheio de testemunhos e que, no fundo, conta uma história que nós desconhecemos. E eu diria que é um filme que, de uma forma muito evidente, aliás, se relaciona diretamente com os 50 anos. 

O Doc Lisboa costuma ser uma espécie de volta ao mundo em oitenta documentários ou mais. Há sempre essa preocupação dessa expansão geográfica pelos quatro cantos do mundo? 
Eu diria antes procura ou transversalidade. E articulação. Ou seja, é um bocadinho esta ideia que é muito básica, de que nós só compreendemos a nossa posição no mundo quando olhamos para o global, quando olhamos para a forma como o mundo se desenha longe e perto de nós. E nesse sentido sim, o DocLisboa continua a procurar articulações e a procurar paisagens que não nos são necessariamente próximas, mas que na verdade nos ajudam a compreender as nossas próprias circunstâncias, as nossas próprias existências. Vou-te dar um exemplo, algo surpreendente, mas que eu acho que é interessante. Temos, por exemplo, o filme sobre o Miyazaki, o “Spirit of Nature”, que é muito interessante porque o Miyazaki, que todos nós conhecemos como realizador do “Totoro”, do “Ponyo à Beira Mar”, da “Viagem de Chihiro, mas é um realizador que propôs uma ideia do mundo, uma alternativa à Disney, não é? Nós que temos filhos, houve sempre estas conversas sobre se mostras Miyazaki ou mostras Disney. E o Miyazaki propõe uma imagem do mundo alternativa e essa imagem está profundamente ligada à natureza e ao valor da natureza. A natureza como um valor em si próprio, sem o qual o mundo não se articula de maneira própria. E, portanto, este é um filme que precisamente vai explorar essa relação entre o Miyazaki e a natureza, e a representação da natureza. Simultaneamente, é um filme sobre um japonês e ao mesmo tempo é um filme sobre um imaginário que nos atravessa a todos. 

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Há várias secções com vidas muito próprias, como os casos do Heart Beat e do Riscos. Queres falar-me um pouco sobre essas duas secções?
O Heart Beat é um lugar bem divertido, onde mostramos filmes que olham para outros artistas ou para outras formas de arte e também para o próprio cinema, para a história do cinema. Há imensos retratos de artistas, como o retrato bem surpreendente da Peaches, "Peaches Goes Bananas", em que vemos um artista performer radical, como a conhecemos, que está a envelhecer. É sobre a relação dela com o corpo e com a passagem do tempo. 
Mas o Heartbeat vai da Peaches aos Blur aos Devo, ao Bruce Springsteen, aos Pavement. Mas, por exemplo, temos o retrato de John Galliano, que é um homem profundamente controverso, por causa das afirmações antissemitas. É o retrato da ascensão e queda de John Galliano. [Há também documentários] do François Truffaut ou do Jacques Demy. Portanto, o Heart Beat, no fundo, dedica-se a olhar para filmes que pensam os artistas. E nesta secção, temos duas entradas portuguesas que eu queria destacar: que é o Paulo Catrica, que faz um retrato do fotógrafo Guido Guidi, e o Fernando Vendrell, que faz um retrato da relação do poeta, antropólogo e agrónomo Ruy Cinatti com Timor Leste. É um filme profundamente convivente, que vale mesmo a pena ver. 

Os Riscos é uma secção também muito surpreendente, divertida, porque é uma secção onde nós encontramos coisas que não esperávamos que o cinema do real estivesse a fazer. Exibimos o “Aggro Dr1ft” de Harmony Korine, que foi apresentado em Veneza, que é uma espécie de ópera contemporânea digital, com o Travis Scott como uma das personagens principais, todo ele filmado com câmaras térmicas. Portanto, é uma experiência de cinema absolutamente alucinante. Temos o último filme do Radu Jude ["Eight Postcards From Utopia"], por exemplo, que é o filme todo feito com spots publicitários da época comunista.

Temos o artista convidado que é Pierre Creton, que é um artista francês muito pouco conhecido em Portugal. Só passou [no país] uma vez. É um realizador agricultor e botânico, e ele faz sempre filmes – olha, que se ligam com a questão do Miyazaki - na relação com a natureza, com os animais, com o pensamento das flores e das plantas. De certa forma, é uma entrada nesta nova questão que nos é próxima a todos, que é qual é a nossa relação com a natureza. 

O Riscos homenageia o Augusto M. Seabra, que faleceu este ano, há pouco tempo, e que foi muito pensada por ele e historicamente programada por ele. E ele pensou sempre o Riscos como uma secção que se dedicava a pensar e criticar o próprio cinema contemporâneo. O que é o cinema hoje? E nesse sentido é uma secção que busca essas formas.

Para mais informações, podem consultar o site oficial do DocLisboa, neste link.