Documentário "NAZA" premiado em Veneza estreia-se em Portugal a 1 de outubro
Com 80 minutos de duração e falado em inglês e hebraico, o documentário “filmado à noite nos telhados de Telavive, revela com detalhe os sistemas por detrás do assassinato em massa, deliberado e calculado, de civis palestinianos em Gaza”.
O documentário “NAZA”, de Yuval Abraham e Rachel Szor, vencedor do Prémio Especial do Júri do Festival de Veneza, chega aos cinemas portugueses no dia 01 de outubro, anunciou hoje a distribuidora Nitrato Filmes, em comunicado.
Com 80 minutos de duração e falado em inglês e hebraico, o documentário “filmado à noite nos telhados de Telavive, [...] revela com detalhe os sistemas por detrás do assassinato em massa, deliberado e calculado, de civis palestinianos em Gaza”, acrescenta.
O documentário, produzido pelo jornal britânico The Guardian, vencedor do prémio especial do júri no Festival Internacional de Cinema de Veneza, deve o seu nome ao acrónimo usado pelo serviço de inteligência israelita para estimar os “danos colaterais”, ou seja, o número de civis que morrerão num ataque aéreo - por exemplo, “20 NAZA”.
Em 80 minutos, "NAZA" analisa a campanha de ataques sistemáticos de Israel no enclave palestiniano através do testemunho de 24 oficiais e soldados dos Serviços de Informações, que pormenorizam estratégias de espionagem telefónica e sistemas de inteligência artificial para identificar alvos.
Segundo denunciam os seus realizadores, este mecanismo funciona como um sistema em grande escala que provoca deliberadamente a morte de centenas de civis, num único ataque.
Após a sua estreia mundial, em Veneza, o filme recebeu uma ovação de pé recorde, que durou cerca de 25 minutos.
“É realmente muito importante para nós que os israelitas vejam este filme”, disse Abraham na altura.
Abraham e Szor também fizeram parte da equipa por detrás do filme “No Other Land”, juntamente com os palestinianos Hamdan Ballal e Basel Adra, sobre o plano israelita de destruição e desalojamento dos habitantes palestinianos de uma aldeia na Cisjordânia e que ganhou o Óscar de Melhor Documentário em 2025.
Na sequência da exibição de "NAZA", em Veneza, o ministro da Cultura israelita anunciou que iria tomar medidas para revogar a cidadania dos realizadores e pediu um inquérito para identificar as fontes israelitas que estão na base das denúncias apresentadas no documentário.
Também o comandante do exército, Eyal Zamir, acusou o documentário de tentar “minar a legitimidade” de Israel e das suas forças armadas, e ordenou um estudo sobre as medidas legais contra o filme e os seus autores.
Por outro lado, o Hamas exigiu uma “investigação internacional séria” em torno do conteúdo do filme e a documentação daqueles testemunhos, nas investigações relacionadas com crimes de guerra e limpeza étnica cometidos contra civis na Faixa de Gaza.
O Movimento de Resistência Islâmica destacou ainda que “a importância dos testemunhos deriva do facto de terem sido realizados por pessoas que trabalham no seio do Exército e do aparelho de segurança sionista e participaram em sistemas de vigilância e ataque”.
A polémica em torno da exibição de “NAZA” e das reações por parte do Governo israelita conduziu a uma campanha nacional de ameaças contra os realizadores, com milhares de mensagens de ódio nas redes sociais, que levou já a que mais de mil cineastas israelitas e 43 organizações israelitas de direitos humanos manifestassem o seu apoio aos autores do documentário.
Numa declaração conjunta, as organizações humanitárias apelaram às autoridades israelitas para que cessem a incitação e as ameaças contra Yuval Abraham e Rachel Shor, bem como para que se abstenham de perseguir os cineastas ou as suas fontes, oficiais dos serviços secretos militares israelitas que deram testemunhos sob anonimato.
“A resposta institucional ao filme e as ameaças contra os seus criadores são típicas de regimes ditatoriais”, diz a declaração assinada pelas organizações não-governamentais (ONG) Peace Now, Adalah, B'Tselem, Doctors for Human Rights Israel e Breaking the Silence, entre outras.
Mais de mil cineastas israelitas também assinaram uma petição na plataforma coletiva de Atzuma a favor da “liberdade de expressão e criação”, apelando a outros para expressarem a sua solidariedade com Shor e Abraham.
Ambos os grupos rejeitaram ainda o pedido do ministro da Cultura israelita, Miki Zohar, para retirar a cidadania aos realizadores devido ao documentário.
As ONG exigiram igualmente uma investigação israelita “séria” sobre o elevado número de vítimas em Gaza, incluindo civis, e o acesso livre para jornalistas a Gaza (onde Israel não lhes permite a entrada desde outubro de 2023).
Entretanto, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, veio anunciar que planeia apresentar uma iniciativa para revogar a cidadania daqueles que “difamam o exército” e um outro projeto de lei para criminalizar a alegada ofensa contra as Forças de Defesa de Israel (FDI).
Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, a ofensiva militar israelita na Faixa de Gaza, que se sucedeu ao ataque do Hamas que fez mais de 1200 mortos, em outubro de 2023, já causou a morte a mais de 74.000 palestinianos, sobretudo civis, enquanto perto de 8.000 continuam desaparecidos, além da destruição de quase todas as infraestruturas do território e a deslocação de centenas de milhares de pessoas.
Desde o início do atual cessar-fogo, acordado em outubro do ano passado, as autoridades da Faixa de Gaza contabilizam mais de 1.300 palestinianos mortos em ataques das forças israelitas, que mantêm também altas restrições à entrada de observadores independentes no território.
