Documentário sobre rock feminino português a partir de hoje no Filmin
Entrevistámos a realizadora de "Ela É uma Música", Francisca Marvão.
O documentário sobre o rock feminino em Portugal, "Ela É uma Música", está a partir de hoje disponível na plataforma do Filmin Portugal. Em mais de uma hora e meia, a realizadora Francisca Marvão faz-nos entrar no reino garageiro das mulheres, em vários planos: o lamiré mais histórico sobre as origens do rock nacional, as experiências pessoais das músicas contadas em conversas informais, ou imagens ao vivo e de ensaios e de gravações.
A transversalidade das retratadas de "Ela É uma Música" vai das rockers ativas no final da década passada - e inclui nomes mais resistentes como as Pega Monstro, as Anarchicks ou a baixista dos Linda Martini, Cláudia Guerreiro - às lendas mais históricas, como são os casos de Xana dos Rádio Macau, Lena D'Água, Adelaide Ferreira, Ana Deus (dos Três Tristes Tigres, ligada aos Osso Vaidoso e, antes de tudo, aos Ban) e a londrina Ana da Silva, das Raincoats.
As pós-punks de culto Raincoats eram mesmo a banda feminina de idolatria da documentarista Francisca Marvão. "Desde muito cedo que oiço as Raincoats. Para mim, foi um privilégio filmá-las [ao vivo], foi super-gratificante", admite a cineasta, em entrevista telefónica que nos deu há dias. As Bikini Kill - ligadas ao ativismo punk do movimento das riot grrrl dos anos 90 - são outra paixão em paralelo de Marvão. "Houve uma altura que cheguei a pedir a um programador se podia trazer as Bikini Kill. Mas depois apareceu a pandemia e achei que não devia continuar a insistir. A ideia era trazer as Bikini Kill e as L7, para serem bandas de cartaz de um festival e levarmos as bandas que tocaram no meu filme para também atuarem. Só que, com muita pena minha, não foi possível concretizar esse objetivo”. PJ Harvey ("a pessoa que mais vezes vi em palco"), Patti Smith e Nico também fazem parte do altar rock da realizadora.
Do interesse pelo imaginário feminino do rock à realização do documentário "Ela É uma Música", não foi só um passo, porque Francisca Marvão já tinha feito outras coisas, como curtas-metragens e uma série documental de 14 episódios sobre cantoras portuguesas, para a Globo.
Em 2019, estreou-se na mágica sala escura a que chamamos de cinema o documentário "Ela É uma Música", no festival IndieLisboa. O filme é um tributo ao rock feminino em Portugal. "Decidi fazer porque sou amante de música. Vejo também muitos documentários sobre música. Na verdade, sempre vi muito poucas mulheres. O bar Damas [no bairro da Graça, em Lisboa] abriu nessa altura, com um evento só para mulheres às sextas-feiras. Entretanto, fui conhecendo algumas destas músicas e achei que era necessário dar voz a estas mulheres".
Várias lendas musicais foram sentadas à mesma mesa, como Adelaide Ferreira e Lena D'Água, ou Xana (ex-Rádio Macau) com Ana de Deus (das Três Tristes Tigres e ex-Ban). "A ideia era lançarmos uma pergunta, ou várias perguntas, e as pessoas discutirem entre elas. Acho que a conversa tem uma mais-valia em relação à entrevista tradicional. As pessoas esquecem-se que estão a ser filmadas. Começam a falar e é tudo mais espontâneo. Lembram-se de histórias e memórias. Foi super-gratificante, quer nas filmagens, quer nos bastidores".
Era impossível condensar toda a história do rock feminino nacional em hora e meia, nem era esse o objetivo. Não estão no documentário Sandra Baptista dos Sitiados e A Naifa, Natália Casanova dos Diva, ou Anabela Duarte dos Mler Ife Dada, Francisca Cortesão, entre tantas, tantas outras. Mas muitas rockers são lembradas na parte final de "Ela É uma Música". Houve ainda uma mulher que Francisca Marvão quis ter no seu documentário e não conseguiu, por causa de vários imprevistos: Midus Guerreiro, ex-baixista e vocalista dos Roquivários, há muitos anos integrada no mundo profissional pop-rock do Reino Unido.
A partir dos seis minutos do documentário, Maria Teresa Horta, escritora e histórica ativista pelos direitos das mulheres na época do Antigo Regime, fala sobre a desobediência do rock, recordando o período em que nos anos 50 as adolescentes eram proibidas de ouvir esse novo género em muitos lares de Portugal. Será que o rock feito por mulheres é ainda mais desobediente? Francisca Marvão responde. “Ao longo deste percurso todo, parece que têm necessidade de provar mais do que os homens. Parece que deitam uma energia ainda mais desobediente. Eu acho que há mulheres que até gostavam de tocar, mas que não o fazem porque têm receio ou não se sentem confiantes. Mas se tiverem a oportunidade, sentem-se um bocadinho desobedientes. Ainda vivemos num país que liga um bocadinho às aparências e que não podem fazer um determinado número de coisas”.
Mas o desenvolvimento do documentário permitiu à realizadora algumas descobertas curiosas. "Uma coisa que eu não tinha percebido é que é mais fácil encontrar mulheres bateristas do que mulheres guitarristas. Acho que a bateria quer dizer muita coisa, é uma descarga completamente diferente". Mas Francisca Marvão passou de observadora para possível observada. "Filmei várias bandas a ensaiar e a dar concertos ao longo de quatro a cinco anos. Eu não tinha banda, nem tocava. Só que, entretanto, no final das filmagens, decidi ter uma banda só de mulheres. Portanto, saí do lado de quem filma e comecei a ter uma experiência do que é ter uma banda de mulheres”. Mas a documentarista nota que nem todas as diferenças comportamentais entre géneros são benéficas para as mulheres. "Acho que nalgumas coisas, não somos assim tão práticas. Tenho a ideia que os homens não falam tanto, não partilham tanto determinado tipo de experiências da vida. Quando filmava os ensaios, os homens começavam logo a tocar. Quando filmava mulheres, falavam mais da vida".
Quanto à coragem férrea, mesmo que subtil, são as mulheres que precisam de a ter, no mundo ainda muito masculinizado do rock. Francisca Marvão dá um exemplo, que ficou de fora do filme. “Uma banda feminina tinha ido tocar para muita gente. Durante o soundcheck, aquilo foi horrível, até eu me senti constrangida. Eram só homens a mandarem piropos e a dizerem coisas horríveis, sem levarem a sério quem estava ali a fazer o soundcheck. Mesmo no concerto, os homens tiveram uma postura um bocado desagradável. Uma mulher tem que ter garra e força e não ligar a esse tipo de coisas, o que não acontece com os homens”.
A pandemia engoliu alguns dos projetos derivados da promoção a "Ela É uma Música". Francisca Marvão planeava fazer uma digressão do filme com algumas das bandas que são captadas no documentário. Mas tudo se ficou por duas noites em Lisboa, num mini-festival no Sabotage. "A ideia era apresentar o filme, falar sobre o tema, e as pessoas sentirem a energia das bandas".
“A minha ideia com o filme foi mostrar várias gerações, várias idades, mostrar as músicas que são conhecidas no panorama em Portugal e também as músicas do meio mais underground, e fazer uma pequena viagem. Eu não sabia, por exemplo, que a Zurita de Oliveira tinha sido a pioneira [do rock em Portugal]. Na verdade, sempre se falou mais dos Conchas". Na feitura deste documentário, através da conversa que podemos ver entre o colecionador de vinis Luís Futre e Ondina Pires (ligada aos primórdios dos Pop Dell’ Arte e cantora dos Great Lesbian Show) surgiu a semente para o próximo documentário onde Francisca Marvão tem estado a trabalhar, sobre Zurita de Oliveira. A realizadora ainda está na fase de rodagem e de pesquisa, numa estreia admitida para a edição de 2023 do IndieLisboa. “Esta mulher que foi completamente revolucionária, está completamente esquecida”.
Na imagem em cima: as Clementine

