Dois em cada cinco portugueses falham semanalmente na toma de medicação

Estudo a propósito do primeiro Dia Mundial da Adesão mostra que mais de 80% dos casos devem-se ao esquecimento, mas o nível socioeconómico ou de escolaridade também influencia estas falhas.

Se costuma esquecer-se ou falhar a toma medicamentos que devia estar a tomar, por exemplo, dia a dia, não está só. Um estudo apoiado por várias associações portuguesas da área da saúde conclui que 41,2% dos portugueses falham na toma de medicamentos de acordo com o plano prescrito pelo médico responsável.

Em média, falham 2,25 tomas por semana e o esquecimento explica 81,7% dos casos, mas é para evitar isso que esta quinta-feira se celebra pela primeira vez o Dia Mundial da Adesão.

Ouvido por esta rádio, o presidente da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose, Francisco Araújo, retrata o problema com uma metáfora: "Quando estamos a falar de conservar a saúde de uma pessoa com doença crónica, é como um banco com vários pés. Basta cair um dos pés para ruir, para o banco ir abaixo."

"Basta cair um dos pés para ruir"

Associado a fatores como o estilo de vida, a falha na toma de medicamentos pode criar um efeito dominó e ter repercussões "a nível de stress, doença mental e da forma como a pessoa vive".

O objetivo deste novo dia mundial é fazer perceber que "para que os medicamentos façam efeito é preciso tomá-los, aderir à medicação - seja injetável, sejam comprimidos".

A nível europeu, explica este médico, 9 a 10% dos episódios recorrentes de doenças como enfartes são influenciados pela falta de adesão à medicação e "sabe-se que metade das pessoas que já tiveram um enfarte, no ano seguinte podem abandonar um dos tipos de terapêuticas fundamentais para a prevenção de um novo evento".

Os medicamentos mais esquecidos são "aqueles que se tomam e não trazem uma melhoria nos sintomas", como acontece nos casos da tensão arterial ou colesterol, doenças que podem estar descontroladas sem que o doente o sinta.

Quem mais se esquece de tomar os medicamentos prescritos é também quem faz parte de grupos mais vulneráveis - como as pessoas idosas, com pouca escolaridade, baixos rendimentos ou doenças crónicas -, e compreender o que se está a tomar é um fator determinante. Um fator que surge associado à "capacidade que [os doentes] têm de ler os seus problemas de saúde, ou às vezes até de ler as indicações dos medicamentos".

Os esquecimentos mais comuns

A responsabilidade de quem receita

Francisco Araújo defende por isso que há também um grau de responsabilidade dos profissionais de saúde, que diz deverem "explicar às pessoas que estão a tomar medicamentos não para controlar um valor da pressão arterial ou de uma análise, mas para que, tomando os medicamentos, corram menos risco de ter um evento cardiovascular ou qualquer complicação da doença que esteja em causa".

O médico explica também que é fácil criar barreiras quando não há contacto frequente com o médico, pelo que cada doente deve ter "uma consulta pelo menos uma vez por ano" com o profissional de saúde em questão para "reconhecer os fatores de risco e doenças que é importante serem tratadas e ser reavaliado para perceber se a pessoa está controlado ou são precisos ajustes na medicação".

A responsabilidade de quem receita

Doentes reconhecem impacto

O estudo a propósito do Dia Mundial da Adesão mostra também que 93,3% dos inquiridos reconhecem que não aderir ao plano de toma de medicamentos tem impacto negativo. Destes, 89,1% temem um agravamento ou descontrolo da doença e 50,6% receiam provocar outras complicações.

Já entre os que não acreditam no impacto das falhas, 60% defendem que falhar uma ou duas tomas não tem consequências na saúde e 17,5% dizem que, se a doença em questão não for grave, falhar a medicação não tem impacto.

Só 16,4% falham mais do que sete tomas por semana e a segunda razão mais comum para não cumprir o plano de tratamento é sentir-se bem, entrando numa espécie de autogestão.