Duran Duran de volta a Portugal: "o sucesso é afrodisíaco, mantém-nos vivos e com vontade de continuar"
Antecipamos o concerto em Portugal com uma conversa com o baterista Roger Taylor. Os Duran Duran atuam a 3 de novembro na MEO Arena, em Lisboa.
Os Duran Duran regressam a Portugal para um concerto na MEO Arena, em Lisboa, no dia 3 de novembro. O alinhamento do espetáculo terá alguns dos maiores clássicos da banda mas também temas do trabalho que marca o percurso mais recente do coletivo composto por Simon Le Bon, Nick Rhodes, John Taylor e Roger Taylor.
A primeira parte do espetáculo estará a cargo do artista luso-sueco Filipe Karlsson, que sobe ao palco para apresentar o novo EP ao qual deu o nome de "Aquele Abraço".
Os bilhetes estão disponíveis em sodade.bol.pt , com preços a partir dos 70 euros.
O grupo inglês chega com mais de quarenta anos de carreira e um single fresco, editado em abril deste ano: 'Free to Love', canção que conta novamente com a participação de Nile Rodgers, coloca a banda no centro das pistas de dança e é o tema que dá nome à digressão que vai passar por Lisboa.
Os primeiros concertos que os Duran Duran deram em Portugal realizaram-se em 1982, no pico da duranmania. O grupo atuou duas noites no Dramático de Cascais e uma no Pavilhão Infante Sagres, no Porto. A banda regressou a Portugal em 2005, ano em que esgotou o Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Em 2008, os britânicos atuaram no festival Super Bock Super Rock e em 2022 voltaram para um concerto no Rock in Rio Lisboa.
Os Duran Duran, que venderam mais de 100 milhões de discos no mundo inteiro, foram distinguidos com a entrada no honroso Rock & Roll Hall of Fame em 2022.
Recentemente, foram homenageados com uma coleção de selos do Royal Mail, o serviço postal nacional do Reino Unido que já distinguiu nomes como os Beatles, Pink Floyd, Queen, The Rolling Stones, Iron Maiden, Spice Girls, The Who ou AC/DC.
Oiça a conversa que tivemos com Roger Taylor a poucas semanas do regresso da banda a Portugal.
Os Duran Duran vão regressar a Portugal em novembro, mas antes de falarmos sobre o concerto que vão dar na MEO Arena, gostaria que falássemos sobre 'Free to Love'...
Sim. É um tema que gravámos com o Nile Rodgers…
Sim.
É um dos nossos heróis. Trabalhou connosco no tema 'The Wild Boys', também no 'Notorious'. E trabalhou no "Astronaut", o nosso álbum de reunião. Há sempre um momento em que temos de voltar a trabalhar com o Nile. Ele criou uma parte da música à guitarra que é incrível. Tem um sabor africano. E acabámos por construir a canção à volta desse excerto que o Nile criou com a guitarra.
O que é que o Nile Rodgers tem dado aos Duran Duran ao longo dos anos?
Acho que além do incrível talento natural que tem, é a energia com a qual preenche uma sala. É uma energia incrível. Nós, os quatro, passamos muito tempo a trabalhar juntos, por isso é muito revigorante haver alguém com a energia nova a entrar na sala . Chega com ideias frescas. O Nile gosta de trabalhar com muita rapidez. Gosta que as coisas sejam feitas no momento. E nós tendemos a ser mais ponderados, a refletir e a fazer as coisas ao nosso ritmo. É maravilhoso ter a energia incrível do Nile por perto.
A canção 'Free to Love' também tem uma energia incrível…
Tem, sim.
O que é que vos inspirou para fazer esta canção?
Acho que foi mesmo a parte da guitarra que o Nile criou. Esse excerto esteve guardado nos nossos arquivos durante meses e meses. Até que o Nick [Rhodes] disse: "Não consigo deixar de pensar naquela parte que o Nile fez com a guitarra". Foi o Nick quem teve a ideia de irmos aos arquivos buscar esse excerto e criar uma canção a partir daí.
É uma canção que claramente quer unir as pessoas na pista de dança…
Acho que é mesmo isso. Quisemos criar algo que fosse animado. Antes [em 2023] fizemos o "Danse Macabre" que é um álbum mais sombrio. Esse disco explorou o lado mais negro dos Duran Duran. Agora quisemos fazer algo completamente diferente. Quisemos ir na direção oposta e criar algo mais animado, com foco na luz. Optámos pela luz num mundo que, nos últimos anos, tornou-se bastante escuro. É uma canção que encoraja as pessoas a escolher o amor em vez do ódio .
Para unir as pessoas num mundo cada vez mais fragmentado…
Sim.
Também lançaram remisturas da canção feitas por artistas e produtores oriundos dos universos da disco, house, da club culture e da música eletrónica. Porquê esta opção e como é que foi a escolha dos produtores?
Acho que soubemos de imediato que o tema ia resultar nas pistas de dança. Foi uma gravação feita com muito groove , algo que não fazíamos há algum tempo . O passo seguinte mais óbvio foi fazer algumas remisturas para que a canção encaixasse ainda melhor nas pistas de dança. E precisámos de alguns conselhos porque já não vamos aos clubes numa base diária. Não sabemos o que realmente acontece nas pistas de dança, por isso seguimos os conselhos de pessoas em quem confiamos que nos sugeriram as melhores pessoas para fazer isso.
No videoclipe que ilustra 'Free to Love' recriaram o famoso programa britânico "Top of the Pops". Porquê? Sentem-se, de alguma forma, nostálgicos?
Sim. Na verdade, foi também o Nick quem teve a ideia. Queríamos um vídeo com uma atuação porque fizemos alguns vídeos com recurso à inteligência artificial para canções que lançámos antes. Falo de canções como a 'Invisible' e a 'Danse Macabre'. A ideia [para a 'Free to Love'] foi voltar a fazer um vídeo em que atuássemos. E o Nick pensou numa atuação ao estilo do "Top of the Pops", embora haja ali também algumas referências ao programa "Soul Train". Nós gostávamos muito do "Top of the Pops". Era o que víamos quando éramos miúdos. Todas as semanas sentavamo-nos a ver o programa para percebermos o que estava a acontecer [na música]. Pensámos que seria uma ótima ideia. E seguimos em frente.
O single 'Free to Love' é uma amostra daquilo que será o futuro musical dos Duran Duran ou é apenas uma canção isolada?
Não sei. Creio que é uma canção isolada. Acho que não é particularmente uma amostra do que faremos no futuro. Se fizermos (ou quando fizermos) um álbum, creio que voltará a ser diferente. Tentamos sempre mudar. Estamos constantemente à procura de uma nova direção . Acho que uma das grandes qualidades dos Duran Duran é termos horizontes musicais diferentes para explorar . Não temos um som que seja dominante como a guitarra, a bateria ou os sintetizadores. É uma mistura orgânica de todos esses elementos. E nós podemos escolher cada um desses elementos em momentos diferentes. Podemos escolher um caminho completamente diferente.
Recentemente, os Duran Duran foram honrados com uma coleção de selos do Royal Mail [serviço postal nacional do Reino Unido]…
Sim. É uma grande honra.
Como é que se sentem com a distinção?
Desde a altura em que era um miúdo do punk, com apenas 16 anos, até sermos uma banda honrada com selos do Royal Mail foi um grande percurso. É incrível. Sobretudo pelo prestígio dos artistas que foram honrados antes como é o caso dos AC/DC, dos Beatles ou dos Queen. É fantástico. São autênticas lendas, cada uma ao seu estilo. Portanto, quando nos sugeriram a ideia, respondemos: "Claro que sim, adoraríamos fazê-lo". E é algo que, de alguma forma, dura para sempre.
É como estar no Rock & Roll Hall of Fame, onde estão desde 2022.
Sim. Creio que estar numa coleção de selos é a versão britânica do Rock & Roll Hall of Fame.
Há alguma coisa que ainda queiram conquistar enquanto Duran Duran?
Como banda estamos sempre à espera do próximo pico. Estamos continuamente à procura de um álbum melhor ou da melhor experiência ao vivo . Sempre nos considerámos e ainda nos consideramos um trabalho em desenvolvimento , estamos sempre a desenvolver algo. A única coisa da qual me consigo lembrar é o continuarmos a evoluir e a crescer enquanto banda.
É importante para vocês trocar experiências com as novas gerações de artistas?
Sim. Creio que sim. Não querendo estar a fazer julgamentos, mas conheço pessoas que são muito felizes a ouvir música dos anos oitenta ou dos anos setenta. Ouvem apenas música da época em que cresceram. Só ouvem música dessas épocas no rádio do carro. Nós tentamos olhar para a frente. Queremos entender o que está a acontecer agora e não o que aconteceu em 1983. Creio que essa disponibilidade para crescer e a capacidade de olhar para o futuro têm alimentado grande parte da nossa longevidade. Acho que sim. É muito importante manter contacto com os artistas mais jovens.
Atualmente a música, como tantas outras áreas, enfrenta o desafio da inteligência artificial (IA). Muitos olham para a IA como uma ferramenta útil outros como uma ameaça à criatividade orgânica. Como é que olha para este desafio?
Nós recorremos à inteligência artificial para os vídeos dos temas 'Invisible' e 'Danse Macabre'. Creio que o videoclipe de 'Invisible' foi o primeiro a ser criado com IA. Mas acho que a inteligência artificial é para ser usada e não para dominar. Odiaria que a IA dominasse a música ou que as pessoas passassem o dia a ouvir música gerada por inteligência artificial . Mas, por outro lado, considero que é uma ferramenta útil para ser usada mas não para usar-nos.
Os Duran Duran estão quase a completar 50 anos de existência. Quero saber como preservam a vossa conexão, a chama e esse olhar direcionado para o futuro…
Não sei. Acho que o principal é o facto de ainda sermos amigos . Nunca nos desentendemos realmente. E isso é muito importante. Há tantas bandas que passam por momentos terríveis devido a divergências artísticas. Há bandas que se desentendem, deixam de conseguir trabalhar juntas e de partilhar a mesma sala. Felizmente, nunca passámos por isso. Permanecemos bons amigos. Acho que é o mais importante. Também é muito importante continuarmos a ter sucesso . Se tivéssemos dificuldade em vender cinquenta lugares num clube, provavelmente já teríamos seguido com as nossas vidas. Mas ainda temos uma grande base de fãs e isso é muito inspirador. O sucesso é muito afrodisíaco . Mantém-nos vivos e com vontade de continuar .
CONCERTO NA MEO ARENA
E o que é que os fãs podem esperar do concerto que vão dar em Lisboa, em novembro?
É um concerto com muita energia . Somos muito fiéis às canções originais . Tocamos os temas tal como foram gravados. As pessoas vão poder ouvir as canções preferidas dos Duran Duran. É uma grande produção. É uma produção que fomos desenvolvendo e foi ficando cada vez maior e melhor. Temos ótimas imagens que vão ser projetadas no ecrã. O Nick está sempre muito ocupado a trabalhar nas imagens. É um autêntico "banquete" visual. É um concerto que apela a todos os sentidos . Podem dançar, podem só ouvir. É um concerto para se divertirem.
