"É difícil descrever o que é um cenário de genocídio". Raul Manarte está de novo em Gaza

Raul Manarte é psicólogo e está em Gaza pela segunda vez ao serviço da organização internacional Médicos Sem Fronteiras.

Se em novembro do ano passado Raul Manarte falava num cenário apocalíptico, agora diz-nos que "é difícil descrever o que é um cenário de genocídio" e acrescenta que "o que se passa aqui é um falhanço total da humanidade". Estas são algumas das frases de Raul Manarte que ficam a ecoar na mente e para não falar das descrições de crianças amputadas, cujo futuro é difícil de vislumbrar.

Raul Manarte é psicólogo e está em Gaza pela segunda vez, tendo chegado há quase uma semana ao serviço da organização internacional Médicos Sem Fronteiras. À nossa redação, contou que o regresso mostrou-lhe "uma situação ainda pior" e que "as pessoas começam logo a pedir comida". 

O psicólogo diz que a distribuição de comida é mal feita pela Gaza Humanitarian Foundation e que, por isso, "todos os dias, nós temos, recebemos feridos e mortes devido a essa distribuição. Pessoas que são baleadas, pessoas que são atropeladas, espezinhadas ali". Raul considera que "a comida e os bens essenciais que estão na fronteira é que têm de entrar e serem distribuídos pelas agências competentes que têm experiência e know how. 

Leia e oiça aqui a entrevista completa:

O que encontraste neste regresso a Gaza? 

Raul Manarte: "Encontrei uma situação ainda pior. Nota-se mal nós entramos, porque as pessoas começam logo a pedir comida ao convoio da ONU que nos põe cá dentro. Nota-se no estado físico dos nossos colegas, que estão muito mais magros, estão mais cansados. Nota-se no estado dos hospitais públicos, porque o hospital Nasser, por exemplo, onde estive em novembro, agora as pessoas estão amontoadas no chão, sem camas e sem sequer colchões e estão estendidas no chão. 

Falta de comida, a falta de medicação, que é o que seria de esperar, não é? Depois deste horror continuar, não é? Os impactos negativos vão-se acumulando e vão se exponenciando. E houve aqui cerco total à entrada de bens essenciais, entre março e maio, e agora entra a conta gotas. Também as extrações médicas, ou seja, se entra a conta gotas, também sairá a conta gotas. As pessoas precisam de sair daqui para não morrerem. As pessoas precisam de ser evacuadas medicamente, também não as conseguimos tirar daqui. Há doze mil e tal pessoas, quatro mil e tal crianças. E é difícil por palavras descrever o que é um cenário de genocídio".

Descreve como tem sido feita a distribuição de comida.

Raul Manarte: Estão toneladas de comida na fronteira prontas a serem distribuídas por agências e entidades que sabem fazer, só que não nos é permitido fazer isso. 

A comida está a ser distribuída através da Gaza Humanitarian Foundation onde todos os dias nós temos, recebemos feridos e mortes devido essa distribuição. Pessoas que são baleadas, pessoas que são atropeladas, espezinhadas ali. E, para além disso, também estão a ser feitos airdrops, estão a ser feitas entregas por paraquedas, de paletes que têm entre quinhentos quilos ou uma tonelada. Às vezes o paraquedas falha. Nós vemos isso aqui do hospital a acontecer. E como deves imaginar, quinhentos quilos a caírem por aqui abaixo podem matar uma pessoa. Também todos os dias temos feridos dessa distribuição por ar. As pessoas também se atiram à pouca comida, não é? Não há uma distribuição justa porque qualquer pessoa que tenha problemas de mobilidade não vai conseguir chegar e é uma distribuição perigosa, porque está a ferir e a matar pessoas. A comida e os bens essenciais que estão na fronteira é que têm de entrar e serem distribuídos pelas agências competentes que têm experiência e know how.

Há algum tipo de explicações que cheguem até aí sobre o porquê de balearem pessoas que estão à espera de comida, por exemplo?

Raul Manarte: "Porque não é feito de uma forma preparada, de uma forma sustentada, de uma forma civilizada sequer, não é? Distribuição de comida é uma coisa sensível. É uma população que está a passar fome, portanto, tem de ser feito de uma forma com expertise. E não é, a Gaza Humanitarian Foundation não está a fazer dessa forma. 

Como é que está a saúde mental dos palestinianos? 

Raul Manarte: "É indescritível. Nós, sob o ponto de vista científico, nós nunca tivemos índices de sofrimento mental desta ordem em nenhum contexto, nem na guerra da Síria, nem do Iraque, nem do Afeganistão. Nada que se compare. A comunidade científica debate até novos termos diagnósticos para o que está a passar. A nível humano, que é isso que interessa, não é? Isto traduz-se em histórias inacreditáveis. Ainda hoje fizemos um grupo de miúdas adolescentes, uma amputada na perna, outra queimada em completamente todo o corpo, só o cabelo é que não. E os relatos são horríveis. A OMS fez um estudo há uns tempos, há dois anos, penso eu, e concluiu que, por todo o mundo, cerca de quatro pessoas passaram por sete eventos traumáticos, enquanto que em Gaza cem por cento das pessoas passou por vinte ou mais eventos traumáticos. Esta miúda, por exemplo, toda queimada, estava a relatar que lhe caiu a casa em cima num bombardeamento, teve de rastejar por cima do vidro. Quando o pai veio pegar no braço dela, a pele do braço saiu e está aqui num sistema de saúde completamente colapsado, onde não há sequer gaze para substituir nas feridas todos os dias. Portanto, é muito difícil de descrever. 

É possível ver um futuro para estas pessoas? 

Raul Manarte: "Não sei se ouviste agora um estrondo, por exemplo, um bombardeamento, foi aqui perto". 

Se é possível haver um futuro para estas pessoas? É preciso um cessar-fogo imediato e a abertura dos corredores humanitários, a entrada de bens essenciais. É a nossa melhor hipótese para conseguir algum tipo de futuro para estas pessoas, porque já morreram cerca de dezasseis mil crianças, mais de sessenta mil pessoas. E para essas já não há futuro.

Cada dia que passa estamos a ceifar mais vidas. E por isso é que um cessar-fogo é absolutamente necessário imediatamente. E a abertura dos corredores humanitários, porque  não são só as explosões e os drones e a violência bélica que está a matar, mas a fome também. E as condições de saúde também. 

Como é que tu, como é que o Raúl Manarte vive os dias sempre à espera que haja um bombardamento aí onde estás?

Raul Manarte: "Eu acho que as pessoas se habituam, ao backdrop das explosões ou dos disparos ou das quedas de paraquedas. Estes grupos que falo, os grupos terapêuticos que nós fazemos, às vezes temos de levantar um bocado a voz para nos ouvirmos por cima do som das explosões. Quando há uma muito mais perto, aí sim, reagimos. E os nossos colegas palestinianos também. Mas há uma certa habituação, que não deixa de ser perversa, não é? Como é que é possível o nosso corpo habituar-se a isto? Por um lado, tem de o fazer para conseguirmos sobreviver. Mas, por outro lado, não. Isto jamais deveria acontecer, habituarmo-nos a isto. Não estou a tentar normalizar, o que se passa aqui é um falhanço total da humanidade. Mas o corpo do sistema nervoso acaba por se habituar no dia a dia a este backdrop. Claro que muitas das pessoas estão traumatizadas, não se habituam. Estão hiper reativas ao som do drone ou ao som das explosões, como, por exemplo, uma criança que tenho de oito anos, porque foi o último som que ela ouviu antes de perder as pernas, antes de perder a mãe".

Raul Manarte