Ecrãs sem regras? Alertas para os impactos no desenvolvimento das crianças
A especialista Ivone Patrão defende educação digital desde a infância, mas avisa que a tecnologia não pode substituir o papel dos pais. Supervisão, limites e exemplo dos adultos são apontados como as chaves para um uso saudável dos ecrãs.
A tecnologia faz parte do quotidiano das famílias e já entra na vida das crianças desde muito cedo. Mas a forma como é utilizada pode fazer toda a diferença. A investigadora e psicóloga Ivone Patrão defende que a literacia digital deve começar logo na infância, acompanhada por regras claras e supervisão parental, alertando que o uso excessivo dos ecrãs pode comprometer o desenvolvimento cognitivo, social e emocional das crianças.
Segundo a especialista em ciberpsicologia, as recomendações internacionais permitem a introdução da tecnologia a partir dos dois anos de idade, mas sempre de forma acompanhada. “Nunca deixar uma criança sozinha com a tecnologia a dar-lhe colo, a fazer de babysitter ou a educá-la”, sublinha, defendendo que os dispositivos digitais devem ser integrados na vida das crianças de forma equilibrada e supervisionada.
Ivone Patrão lembra que a investigação científica tem demonstrado que a supervisão parental é uma das variáveis mais importantes na prevenção dos riscos online. Quando existe acompanhamento por parte dos pais, diminuem os riscos de ciberdependência e de outras ameaças digitais, ao mesmo tempo que se promove um uso mais saudável da tecnologia.
A psicóloga rejeita discursos alarmistas que demonizam a internet ou as redes sociais. O desafio, afirma, passa por ensinar crianças e jovens a utilizarem estas ferramentas em benefício do seu desenvolvimento. Ainda assim, alerta que o excesso de exposição aos ecrãs pode afetar áreas fundamentais como a linguagem, a socialização, as funções executivas e o desenvolvimento motor.
Pais também têm de mudar comportamentos
Para Ivone Patrão, os adultos desempenham um papel determinante. Considera que muitos pais ainda vivem uma espécie de “deslumbramento tecnológico”, ao mesmo tempo que tentam educar crianças e jovens que já nasceram rodeados de dispositivos digitais.
“Os pais são modelos presenciais e virtuais”, refere, explicando que as crianças observam não apenas o comportamento dos adultos em casa, mas também aquilo que estes fazem e partilham online. Por isso, defende que é essencial haver coerência entre a forma como os adultos se comportam no mundo real e no digital.
A investigadora alerta ainda para o risco de os próprios adultos transmitirem a ideia de que o telemóvel é mais importante do que o tempo em família. “Uma criança vê rapidamente quando o pai ou a mãe passam mais tempo agarrados ao ecrã do que a brincar, a conversar ou a passear”, observa.
Menos ecrãs, mais criatividade
Questionada sobre estratégias para reduzir a dependência das redes sociais e dos dispositivos digitais, especialmente durante as férias escolares, Ivone Patrão reconhece que a tarefa pode gerar resistência entre os adultos. Ainda assim, considera que a redução do tempo de ecrã é um passo essencial.
A especialista recomenda que as famílias consultem regularmente os relatórios de utilização disponíveis nos próprios telemóveis e tomem consciência do tempo que passam ligados aos dispositivos. Defende também uma reflexão sobre os conteúdos consumidos, distinguindo entre um consumo ativo (quando o utilizador escolhe o que quer ver) e um consumo passivo, guiado pelos algoritmos das plataformas.
Ao mesmo tempo, incentiva os pais a criarem mais oportunidades para atividades offline. “Quando as crianças se aborrecem, acabam por libertar algo muito importante: a criatividade”, explica. Brincadeiras ao ar livre, atividade física, convívio familiar e momentos de interação direta são algumas das alternativas sugeridas.
Escolas confirmam benefícios das restrições
Nos últimos dois anos letivos, Ivone Patrão estudou o impacto das medidas de restrição do uso do telemóvel nas escolas e garante que os resultados são encorajadores.
De acordo com a investigadora, alunos, pais e professores reconhecem vantagens nestas medidas. Entre os efeitos observados estão melhorias na atenção, concentração e memória, além de um aumento da interação social durante os intervalos. Muitos jovens voltaram a brincar, a conversar e a resolver conflitos cara a cara, competências que estavam a ser substituídas pelo uso constante dos dispositivos móveis.
“Não utilizamos o forno de casa a toda a hora nem passamos o dia a fazer abdominais. Com a tecnologia deve acontecer o mesmo”, resume a especialista. A mensagem é clara: a tecnologia pode ser uma aliada valiosa, desde que usada com equilíbrio, regras e contexto adequado.
