Ed Sheeran: "a decisão da saída de Macklemore da minha digressão foi da promotora, não foi minha"

O músico britânico reagiu ao polémico afastamento de Macklemore da digressão "Loop" após o rapper ter defendido a libertação da Palestina durante os concertos.

Ed Sheeran usou hoje (15 de setembro) as redes sociais para esclarecer a sua posição em relação ao afastamento de Macklemore da "Loop Tour" - digressão que o britânico está a levar a vários estádios norte-americanos. 

O CONTEXTO

O rapper Macklemore foi afastado da digressão após ter feito discursos de apelo à libertação da Palestina, algo que faz com frequência nos concertos em nome próprio. A polémica estalou no início do mês quando a cantora Pink criticou publicamente o discurso que Macklemore fez no concerto que deu no MetLife Stadium, em Nova Jérsia, nos Estados Unidos - um dos espetáculos inseridos na "Loop Tour" de Sheeran. 

Macklemore, que estava a fazer a abertura dos espetáculos, acabou por ser afastado na sequência da decisão de vários estádios que dizem recusar receber o artista após as declarações que proferiu.

De acordo com a "Rolling Stone", os estádios ou recintos notificaram a Messina Touring Group (promotora da digressão) de que não iriam permitir a realização de concertos que incluíssem Macklemore. Na mesma declaração, citada pela revista, caso a promotora não afastasse o rapper "a digressão seria cancelada, o que "impactaria centenas de milhares de fãs". Resultado: das 10 atuações do rapper previstas na tour, oito foram canceladas. 

O COMUNICADO DE ED SHEERAN


Ed Sheeran quebrou o silêncio com uma publicação na conta oficial de Instagram. O músico começa por dizer que está “horrorizado” com o que se passa entre Israel e a Palestina. “O sofrimento e a dor causado a ambos os lados é uma tragédia humana”, continua. "Há demasiadas guerras no mundo a provocar uma dor imensurável, nenhuma deveria ser tolerada", acrescenta o artista inglês. 

"O Macklemore pediu-me no ano passado para se juntar à minha digressão e eu concordei porque é um artista que respeito muito. Tal como faço com todos os artistas que abrem os meus concertos, concordei com o alinhamento que escolheu", refere ainda Sheeran. 

O músico explica depois que vários recintos por onde iria passar a digressão comunicaram que iriam cancelar os concertos, caso o rapper continuasse a fazer a abertura. "Fui informado de que esta tomada de posição foi baseada na forma como a mensagem foi comunicada e não tanto no que foi dito", continuou o britânico. 

"Falei com os estádios ao longo da semana para tentar criar uma ponte. Uma dessas pessoas foi o Robert Kraft. Falei diretamente com os promotores e com ativistas de ambos os lados para tentar chegar a uma solução que servisse todos, mas a decisão da promotora e dos recintos dos concertos foi final. A decisão do Macklemore sair da digressão foi da promotora, não foi uma decisão minha. O contrato que tinha era com a promotora e não comigo", esclarece. 

"Nunca desiludiria os fãs que fizeram planos nem podia abandonar a equipa da tour, as outras atuações de suporte e os músicos que dependem de mim para ter trabalho e para viverem", sublinha. 

"Eu não sou cúmplice. Tenho minhas opiniões pessoais sobre este conflito devastador. Só porque escolho não falar publicamente, não significa que eu não as tenha e não significa que eu não me importe", disse ainda o britânico na publicação. 

O QUE DISSE MACKLEMORE EM COMUNICADO

Macklemore emitiu ontem (14 de setembro) um comunicado a explicar a sua versão dos acontecimentos. O rapper afirmou que foi o pró-israelita Robert Kraft (CEO do Kraft Group e dono da equipa de futebol americano New England Patriots) que terá organizado o boicote ao rapper entre os vários estádios devido às declarações pró-Palestina.

Já Robert Kraft, citado pela norte-americana "NBC News", justificou que a tomada de decisão foi baseada nas declarações do rapper mas também “numa história mais ampla de retórica e de imagem” que acredita “terem sido profundamente ofensivas e dolorosas para a comunidade judaica”.

Kraf acrescentou: “esta decisão não é para diminuir o sofrimento dos palestinianos inocentes ou para negar a alguém o direito de defendê-los. A dor e perda que sofrem são reais. Mas essa defesa não deve acontecer à custa da comunidade judaica ou não deve obscurecer a responsabilidade do Hamas, uma organização terrorista designada pelos Estados Unidos e globalmente (incluindo Canadá, União Europeia, Reino Unido e Japão), cujas ações horríveis causaram um sofrimento imensurável tanto para palestinos quanto para israelitas.”

Na conta oficial de Instagram, Macklemore esclarece: "não sei bem como começar isto. Então, vou escrever com o coração e partilhar a verdade. Ed Sheeran e a equipa que o acompanha tomaram a decisão de me remover da digressão 'The Loop'", começou por dizer o rapper.

"Mas antes de aprofundar o assunto, quero dizer algo que deveria ser óbvio. Acho que é o que mais importa. Eu não sou uma vítima. O Ed Sheeran não é uma vítima. A Pink não é uma vítima. Temos carreiras, dinheiro, oportunidades, segurança e público em qualquer parte do mundo. Quaisquer que sejam as consequências que possamos ter de enfrentar pelo que dizemos podemos sempre voltar para nossas famílias", acrescentou.

"As vítimas são o povo palestino. São os homens, as mulheres e as crianças que foram mortos, que estão a passar fome, que ficaram sem casa e que vivem situações de violência inimaginável. Só em Gaza mais de 20 mil crianças foram mortas. Há pessoas que estão a ser mortas hoje e que vão ser mortas amanhã. Quero que isto não seja esquecido", reforçou Macklemore, explicando depois o sucedido.

"O Ed disse-me que o Kraft lhe tinha dito que eu não podia atuar no estádio [o Gillette Stadium] do qual é dono”, esclareceu o músico, afirmando que a decisão teria sido seguida por outros proprietários de estádios que fazem parte do circuito da digressão.

O rapper reconheceu que Sheeran, a quem chamou de amigo, ficou numa posição difícil, sobretudo por questões financeiras e relacionadas com a carreira, e sublinhou que as posições de ambos não convergem.

“O típico posicionamento apolítico de Sheeran foi desafiado como nunca tinha sido antes. O Ed disse-me que as palavras ‘Liberdade para a Palestina’ e a imagem da bandeira da Palestina eram dolorosas para muitas pessoas com quem conversava. E eu respondi que se essas palavras eram mais ofensivas do que o facto de dezenas de milhares de crianças palestinianas estarem a serem mortas por Israel, então havia uma desconexão fundamental entre a posição dessas pessoas e a minha posição. Mas ele não conseguiu superar a postura pública e disse-me, 'eu não tomo partidos'", continuou o rapper que assegurou, porém, querer manter a amizade com Sheeran.

O QUE DISSE MACKLEMORE EM NOVA JÉRSIA

Macklemore tem sido um dos artistas norte-americanos mais vocais em relação à atuação de Israel na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Num dos concertos que deu no estádio MetLife, o músico reforçou a mensagem de libertação da Palestina, mas também a de igualdade e justiça para todos os povos.

"Quero dizer estas palavras bem alto para que as pessoas em Gaza saibam que não estão esquecidas", disse no discurso. "A todos os meus irmãos e irmãs judeus, criticar Israel, criticar o apartheid e ser contra o genocídio não é, de forma alguma, uma crítica a vocês", esclareceu Macklemore, fazendo ainda alusão à libertação do Líbano, de Cuba, do Congo, do Sudão e das pessoas nos Estados Unidos que sofrem com as ações do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE).


A REAÇÃO DE PINK


A cantora norte-americana fez estalar a polémica quando usou as redes sociais para reagir ao discurso do rapper no estádio MetLife. Pink deu a entender na publicação que os fãs judeus presentes no estádio mereciam um pedido de desculpa e que deveriam ser reembolsados após as palavras de Macklemore.

Após ser alvo de várias críticas, Pink voltou a comentar o assunto na conta oficial de Instagram. “Não falo por Israel ou por qualquer governo. Disse aquilo em que acredito: o Hamas é uma organização terrorista. Os palestinianos merecem um futuro que honre a sua humanidade e as suas aspirações. A prioridade devia ser sempre a de proteger vidas inocentes. Nunca ninguém devia celebrar a morte de uma criança", escreveu a cantora.