El Niño a formar-se no Pacífico será o mais forte de sempre. Qual o impacto em Portugal?
Fenómeno climático vai levar a um aumento das temperaturas a nível global e a uma maior probabilidade de eventos extremos.
O fenómeno climático El Niño que se está a desenvolver, será o mais forte de que há registo, de acordo com os cientistas que acompanham as temperaturas do Oceano Pacífico.
A temperatura da água do mar numa região-chave, monitorizada por climatologistas, poderá atingir 3,8 graus centígrados acima da média, de acordo com Organização Meteorológica Mundial das Nações Unidas.
Isto acontece quando ainda faltam várias semanas para o pico deste fenómeno.
"O que nós temos neste momento é um El Niño em que um dos indicadores que é utilizado para aferir a sua intensidade, já está num limiar muito elevado. E o limiar que está atualmente é tão elevado que já atingiu o anterior El Niño com intensidade mais elevada. Portanto, neste momento ainda não estamos no mês no qual, teoricamente, esperamos que seja o pico do El Nino, que há-de ser no novembro, potencialmente, e já estamos com o valor equiparado ao El Niño mais forte até agora registado", explica Ricardo Deus, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).
São esperados fenómenos extremos, como secas prolongadas e chuvas particularmente intensas em períodos mais curtos. Mas as zonas que mais irão sentir os efeitos deste El Niño serão as do Pacífico Central.
"A América do Sul potencialmente é um dos continentes mais impactados. Depois na Oceânia temos também a Austrália, também é um local, por ser um território também muito impactado, com situações de precipitação e seca. (...) E depois temos também em África, também há alguns impactos necessariamente na costa leste de África, com uma região muito próximo de Moçambique, onde temos também a seca a intensificar-se e depois um bocadinho mais a norte, na zona do Corno da África, uma situação de precipitação mais acima da média", explica o climatologista.
Portugal e a Europa deverão escapar aos piores efeitos deste El Niño recorde
"Não há aqui uma relação direta que a gente possa falar de Portugal continental e o El Niño. O que existe são relações indiretas, porque o clima é um clima global e portanto todos estes impactos ou estas fenomenologias que ocorrem naquela região estendem-se de alguma forma e impactam no clima também de outras regiões. Agora, em Portugal continental não há assim uma relação direta que possamos assumir como uma consequência direta do El Niño", adianta Ricardo Deus.
O aquecimento da água dos oceanos vai também afetar a temperatura do ar. Neste aspeto, Portugal será mais afetado por estas alterações climáticas.
Ricardo Deus lembra que este ano já ocorreu um fenómeno raro: "foi o setembro mais quente desde sempre. Um setembro que teve temperaturas médias acima de agosto, portanto isto também é uma situação que não é muito normal, já aconteceu várias vezes desde 1948 e eu já aconteceu pelo menos, estou convencido que ocorreu umas sete vezes, mas não é muito usual."
Os climatologistas alertam ainda para o facto de estes fenómenos El Niño estarem a ocorrer com maior frequência e intensidade.
"Temos aqui uma janela temporal que aparentemente está a tornar-se cada vez mais frequente. Temos neolinhas muito fortes. E isto acaba por ser potencialmente uma consequência de estarmos num clima em mudança.
E estes fenómenos, que eram considerados usuais para diversas regiões, começam a ter dimensões e intensidades, ultrapassam um pouco o normal. Eu acredito que esta fenomenologia, num clima mais quente, tenha esta característica ciclicamente. Temos estes fenómenos intensos, mas eles cada vez são mais intensos.
E os mais intensos, quer que sejam períodos longos com ausência de precipitação. E precipitação muito intensa e muito forte em períodos mais pequenos.
O El Niño é um padrão natural que resulta da alteração dos ventos alísios, que normalmente sopram de leste para oeste no Oceano Pacífico.
O calor acumulado nas águas é libertado para a atmosfera, provocando um aquecimento das temperaturas globais e alterações nos padrões meteorológicos.
Sempre que a temperatura numa região-chave, monitorizada por cientistas, ultrapassa o valor normal em 0,5 graus centígrados, é declarado um El Niño.
Este fenómeno ocorre, em média, a cada dois a sete anos e pode durar entre 12 e 18 meses.
