Elisa sobre o novo álbum: "é um retrato de quem fui nos últimos quatro anos"
"Incoerente" é o nome do segundo álbum de originais da cantora.
Elisa edita esta quinta-feira (28 de maio) "Incoerente" - o segundo álbum de originais que sucede a "No Meu Canto", o disco de estreia da cantora, editado em 2021.
O novo álbum, que marca o início de uma nova era no caminho artístico da madeirense, está disponível nas várias plataformas digitais.
"Este novo momento estende-se também ao palco. Depois de se ter cruzado com Tiago Nogueira na canção 'Como É Fraco o Coração', um dos temas portugueses mais tocados atualmente nas rádios nacionais, Elisa prepara uma série de concertos especiais em formato de dueto ao lado do vocalista d'Os Quatro e Meia. O projeto estreia a 29 de maio, no Funchal, e continua em 2027 com apresentações em Ovar, Lisboa, Bragança e Coimbra. Os espetáculos vão cruzar momentos partilhados, revisitações inesperadas e temas a solo, num encontro pensado para deixar as músicas respirarem de outra forma", acrescenta a nota.
Oiça a entrevista completa à cantora madeirense:
Ao que sei, o teu novo álbum abre uma nova fase. Que fase é essa?
Abre uma nova fase, mas, para mim, é como se estivesse a fechar outra. O álbum, que foi criado ao longo de quatro anos, viu muitas Elisas a existir. E diria que não foram as melhores versões da Elisa que conheci. Foram quatro anos com altos e baixos, com mais baixos que altos. Foi uma fase que quero muito deixar para trás. E sinto que quando lançar este álbum vou conseguir deixar o passado no passado e abrir espaço para coisas boas no futuro. Sinto que a fase nova que começa não é propriamente a fase do álbum, mas sim a que virá depois do álbum.
Acho curioso que a primeira canção tenha o nome de 'Porta'. Poderá ser a entrada num novo ciclo até porque nessa canção dizes algo como, "tenho a vida toda para começar"…
Exatamente. Acho que foi meio profético porque foi uma das primeiras canções que compus para este álbum. Compus o tema em 2022. Estava a passar por uma fase menos boa e na altura bem sabia que a canção iria fazer parte do álbum. Foi uma canção feita na hora porque estava mesmo a precisar de compor. Mas acho que posso dizer que acabou por encaixar muito bem no álbum. É também por isso que é a primeira canção. O disco não tem propriamente um mote. Não era essa a ideia. Mas, tendo em conta que não há propriamente uma coerência, é coerente que essa seja a primeira canção.
O que é incoerente neste disco?
Acho que todos nós somos incoerentes. Ninguém é apenas uma coisa. E acho que, do dia para a noite, somos capazes de mudar de opinião. Eu noto isso comigo e com os meus amigos. Eu, como cantora, oiço álbuns mas também gosto de ouvir apenas singles. Sinto que as novas gerações já não ouvem muito os álbuns. É possível, porém, que, pouco a pouco, possamos voltar a escutar álbuns e muito por causa do regresso do vinil. Mas o que vejo comigo e com os meus amigos é que ouvimos as canções separadas, sejam ou não canções do mesmo álbum, do mesmo artista ou do mesmo género musical. Agora temos aquela coisa de ter as nossas playlists. E, então, achei graça em ter um álbum sem um fio condutor. Basicamente, é uma playlist a tocar. Reflete como tem sido a minha vida nestes últimos anos. Há muitas histórias e muita coisa que acaba por se contradizer. Achei por bem não forçar nada. Não quis forçar uma ideia ou um conceito. Quis apenas que as canções existissem como quisessem existir. Ao longo dos anos, fui juntando as histórias e [essa coleção] resultou neste álbum ao qual chamei de "Incoerente". É um retrato de quem fui durante estes quatro anos.
Sei que desde a edição do álbum anterior passaste por um período de experimentação. Foi uma experimentação de sonoridades, de temáticas? Foi uma espécie de experimentação emocional ou foi um pouco de tudo?
Acho que foi mesmo um pouco de tudo. Foi também experimentar com novos produtores e com pessoas com quem nunca tinha composto antes. E tentei outros temas. A verdade é que, no meu primeiro álbum, as canções de amor ou de desamor não foram escritas por mim. Neste álbum tentei aprofundar mais esses temas. Sobretudo o tema do desamor que, honestamente, era o que estava a viver. E sim, também passei pela experimentação sonora. Há canções neste álbum que nunca tinha imaginado cantar. Acho que foi um período para tentar, para ver como soava, sem ter medo de falhar ou errar. Acabei por usar este álbum como uma espécie de esboço para aquilo que acredito que venha no futuro e que me deixa muito mais entusiasmada.
É um álbum confessional, sim. Cantas sobre desamor, mas em algumas canções senti uma vibe de renascimento ou de lição aprendida, algo assim…
Mais uma vez digo que, de facto, sou muito incoerente. Consigo ser a pessoa mais pessimista à face da Terra mas também sou a pessoa com o pensamento mais positivo. Nem consigo explicar muito bem. Talvez seja por ser artista, por sentir tudo tão intensamente. A verdade é que nos últimos anos passei por desgostos amorosos que me fizeram sofrer, mas depois, quando acabo de escrever as canções, olho para a ideia de renascimento, de lição aprendida. Quero ver o lado bom da coisas. Mais uma vez acabo por voltar à tal incoerência.
É o que nos caracteriza enquanto seres humanos. E também a dúvida ou a imperfeição. Sei que quiseste sublinhar isto no álbum. Gostaria que explorasses um pouco mais esta ideia…
De certa forma, este disco aprofunda uma canção que está no meu primeiro álbum ["No Meu Canto"]. Falo do tema 'Este Meu Jeito' que é uma canção sobre o ato de aceitar. É sobre aceitarmos quem somos, com todas as polaridades que temos. Eu tanto posso ser uma pessoa muito complexa como posso ser rasa e supérflua. Não há só um rótulo. E este álbum acaba por refletir isso mesmo. Fala de muita coisa ao mesmo tempo e até se contradiz um pouco. É isso. É não ter um fio condutor, nem um rótulo.
Não há nada que ligue as canções? Cada uma vive mesmo por si só? Não há um fio mesmo que seja um fio muito fininho?
Acaba sempre por haver um fio. E esse fio é a minha vida. É ter sido a pessoa que passou por todas aquelas experiências e que depois as canta e interpreta. Alguns temas não são meus. Há temas escritos pela Nena, pelo Miguel Araújo, pela Rita Onofre. Mas eu revejo-me em todos. Acabo por ser eu, a Elisa, o fio condutor das canções. Eu e as minhas experiências.
Como foi trabalhar com esse elenco? Também tens um dueto com o Tiago Nogueira [na canção 'Como é Fraco o Coração']...
O Tiago Nogueira, o João Só, o Miguel Araújo e a Nena apareceram na minha vida por causa da Primeira Linha, que é a agência que faz o nosso agenciamento. E a Primeira Linha promove a junção dos artistas. Faz com que as coisas aconteçam, nem que seja apenas para experimentar. E acabou por resultar muito bem. Sinceramente, nunca na minha vida imaginaria compor uma canção com o João Só ou ter no meu álbum um dueto com o Tiago Nogueira. E este disco é especial por isso. Nem posso dizer que concretizei um sonho porque nem sequer ponderava isso. Acaba por ser mais do que um sonho porque achava que era inalcançável. E aconteceu. Admiro muito o Tiago Nogueira. Tem uma das minhas vozes favoritas e é um compositor extraordinário. Nem tenho palavras.
A Nena é agora uma grande amiga. A nossa amizade começou porque compusemos uma canção para este álbum. Agora, quando olho para trás, vejo que estava a colocar uma carga muito negra à volta deste disco devido a tudo o que aconteceu ao longo dos anos. Estava constantemente a associar as canções a esses momentos. Só agora é que estou a perceber que afinal o álbum trouxe coisas boas e felizes. Por isso, talvez comece a olhar para o álbum de uma forma diferente.
Esse espírito comunitário e artístico é muito interessante porque, independentemente dos anos de experiência de cada um, acabam por aprender uns com os outros, não é?
Não sei se eles aprenderam alguma coisa comigo.
Há sempre uma troca de impulsos criativos...
Gosto de pensar que as canções têm um pouco de mim, apesar de terem sido compostas por estas pessoas tão incríveis. Mas eu, sem dúvida, aprendi muito com eles. É fascinante ver pessoas que já estão nisto há tanto tempo a trabalhar. Quando cheguei à sessão de composição com o João Só e com o Tiago Nogueira disse-lhes: "olhem, se não sair nada daqui, peço imensa desculpa porque a verdade é que estou a sair ou ainda estou num bloqueio criativo. Sempre que vou compor com alguém, acabamos por não compor nada. Se for esse o caso, desculpem-me. Se quiserem, podemos acabar aqui". Mas depois a canção foi feita de uma forma muito natural e rápida. E não foi um processo mecânico. Foi muito natural. Saiu-lhes de uma forma tão fácil que acabou por passar para mim. A dada altura, já estava a dar ideias para a melodia e para a letra. E, atenção, eu tinha acabado de dizer que estava a ter um bloqueio criativo. Mas acabei por compor também. Acho que essa energia passa para as outras pessoas. A criatividade expande-se.
No final do álbum tens duas versões da mesma canção, a 'Maybe Someday'/'Talvez Um Dia'. Tens uma versão em português e outra em inglês. Porquê? Deve ser um tema muito especial para ti…
É, sem dúvida. É a minha primeira canção original. Compus essa canção quando tinha dezoito anos. E neste tema fiz dueto com o Tiago Cena que é o meu melhor amigo. É como se fosse um irmão para mim. O Tiago é um músico madeirense incrível que está agora a lançar os seus originais. Compusemos a canção em 2017, durante uma viagem de Lobo Marinho, do Porto Santo para a Madeira. E desde aí que a cantamos. Na Madeira dão muito apoio aos artistas mais jovens, aos novos talentos. Íamos várias vezes à RTP Madeira, à Antena 3 Madeira. E numa dessas visitas a esses sítios alguém gravou e pôs a canção no YouTube. (…) Quando entrei para a Primeira Linha, o Pedro Barbosa, que é o meu manager, fez o trabalho de casa e foi pesquisar tudo o que havia sobre mim na internet. Houve um dia em que me perguntou se eu ia cantar a canção ao vivo ou se ia fazer alguma coisa com o tema. Fiquei em estado de choque quando soube que ele conhecia o tema. (…) Achei que fazia todo o sentido lançar esta canção num álbum que acompanha as várias fases da minha vida. É muito especial por ter a participação do Tiago. Queria que a voz dele estivesse no álbum. O tema nasceu em inglês, mas como nunca fui uma cantora que cantasse em inglês queria que a música existisse nas duas línguas. (…) Então, desafiei o Tiago para tentarmos fazer uma versão em português. Posso dizer que nunca pensei que fosse tão complicado. (…) Acabou por ser um desafio também. É a música mais especial que tenho no álbum e, por essa razão, merece as duas versões.
E também é um aconchego, não é? É casa.
Sem dúvida. E aconteceu-me algo que nunca tinha acontecido. Mas foi a ouvir a 'Talvez Um Dia' que me arrepiei pela primeira vez a ouvir uma canção minha. Sobretudo quando comecei a ouvir a voz do Tiago com maior nitidez. Acho importante sublinhar isto.
Do que é que mais te orgulhas neste disco?
Talvez a minha resposta seja um pouco estranha, mas acho que me orgulho de tê-lo terminado. A criação deste disco não foi nada fácil para mim. Não por ser complexo ou nada que se pareça, mas sim por não estar a conseguir lidar com a vida a acontecer. Falo de ter de conciliar os estudos, o trabalho, a carreira, a família e as relações. Durante estes quatro anos cresci muito, como pessoa, e aprendi nem tudo é assim tão simples. Por vezes, as coisas acabam por demorar muito mais tempo a acontecer porque vão acontecendo muitas vidas pelo meio. Diria que me orgulho de ter chegado ao fim e poder dizer, “estou aqui e posso entregar este álbum". Honestamente, não estou muito preocupada com o feedback das pessoas. É óbvio que faço música para que as pessoas se sintam ouvidas, mas não fiz este álbum para que gostem de mim ou das minhas canções. Não é isso. O disco vem do que estava cá dentro que precisava de sair. Precisava de deitar muita coisa para fora. E acredito que deva haver alguém que se relacione com esta imensidão de gente que habita em nós.
Essa catarse vai, certamente, conectar-se com muita gente. Como é que vais levar esta álbum para o palco?
Desde 2024, se não me engano, que tenho levado uma ou outra canção para o palco. Quando terminava as canções ficava tão entusiasmada que não queria guardá-las para mim. Então, sempre que tinha um concerto aproveitava para cantá-las. Algumas dessas canções já são conhecidas do público, pelo menos do público mais próximo, que costuma ir assistir aos meus concertos. Mas agora sinto que será diferente. Estou muito entusiasmada por ter as versões ao vivo com banda, algo que será inédito para mim. Quero ver a reação das pessoas. (…) Estou muito contente de poder cantar as canções que as pessoas ouvem em casa. E o primeiro dia em que isso vai acontecer é já na sexta-feira. Vai ser um concerto especial por ser na Madeira e com o Tiago. Vai ser um pouco diferente do que tenho feito agora. Não será um concerto a solo, sozinha. Vamos cantar temas meus novos, os temas que temos em conjunto e também temas dele. Vai ser um bom início de era.
Claro, em casa. Sabe tão bem.
Exato. E com amigos. Que é o mais importante.
